Comentar

Seu comentário está sujeito a moderação. Não serão aceitos comentários com ofensas pessoais, bem como usar o espaço para divulgar produtos, sites e serviços. Para sua segurança serão bloqueados comentários com números de telefone e e-mail.

500 caracteres restantes
Corrigir

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Porto Alegre, sexta-feira, 19 de outubro de 2018.
Dia do Profissional de Informática. Dia da Inovação.

Jornal do Comércio

Colunas

COMENTAR | CORRIGIR
Hélio Nascimento

Cinema

Edição impressa de 19/10/2018. Alterada em 19/10 às 01h00min

Ascensão e queda

As diversas refilmagens que nos últimos anos se têm destacado no calendário podem dar a falsa impressão de que atualmente anda faltando imaginação aos roteiristas e realizadores do cinema norte-americano. Mas a retomada de certos temas e narrativas não é uma marca exclusiva de Hollywood e da época atual. Outras cinematografias vez por outra retomaram temas e histórias, como a japonesa, por exemplo, e também da antiga URSS. No segundo caso, basta apenas lembrar que na filmografia de Pudovkin e Donskoi aparecem versões de A mãe, de Gorki, a primeira realizada em 1926, e a segunda em 1954. Mas o cinema hollywoodiano foi o que mais voltou a histórias anteriormente filmadas. O curioso é que alguns realizadores americanos não se limitaram e refilmar obras de seu país, transpondo e adaptando roteiros estrangeiros. Assim John Sturgess refilmou Os sete samurais, de Kurosawa, filme aqui exibido como Sete homens e um destino, e Martin Ritt dirigiu Quatro confissões, com roteiro baseado em outro clássico daquele cineasta japonês, o célebre Rashomon, que foi o primeiro filme japonês exibido em Porto Alegre, no cinema Ópera, um dos que integravam a cinelândia local, antes da devastação do que hoje é chamado de Centro Histórico, mas que certamente mereceria outra denominação mais apropriada ao que pode ser contemplado em tal cenário.
A nova versão de Nasce uma estrela, que marca a estreia na direção do ator Bradley Cooper, é sempre citada como a quarta de tal história, antes filmada por William Wellman, George Cukor e Frank Pierson, os dois primeiros nomes maiores do cinema. Mas a verdade é que a versão de Wellman, realizada em 1937 e que teve entre seus roteiristas Dorothy Parker, era uma adaptação de um filme que Cukor havia realizado em 1932, What price Hollywood. Uma curiosidade é que a versão que se tornou a mais citada - e, provavelmente, a melhor - é a de Cukor, realizada em 1954, com Judy Garland e James Mason. Este filme foi exibido mutilado pela empresa produtora. Só décadas mais tarde foi apresentada ao público uma versão aproximada daquela filmada por Cukor. Mesmo assim, algumas sequências tiveram de ser mostradas apenas através de fotografias acompanhadas pela trilha sonora, pois os registros originais haviam sido perdidos. Tal versão chegou a ser exibida aqui pelo Bristol, na fase em que aquele pequeno cinema se dedicou a ciclos e a obras clássicas, programação organizada primeiro por Tuio Becker e depois - e durante mais tempo - por Romeu Grimaldi. O ator Cooper, que vem de uma brilhante atuação em Sniper americano, de Clint Eastwood, faz agora sua estreia como realizador. Uma outra curiosidade é que Eastwood, na época em que realizou o filme citado, estava pensando em uma refilmagem de Nasce uma estrela, algo que ele não concretizou.
Não é fácil refilmar uma história já transformada em imagens por dois grandes nomes do passado. O desafio é exercido com inegável competência, o que revela que o protagonista não se limitou a atuar, pois parece ter permanecido atento também aos métodos dos diretores com os quais atuou, principalmente Eastwood, pois a maneira como filma se assemelha àquela do realizador de Os imperdoáveis e Menina de ouro. Esta narrativa que coloca em cena dois artistas que se movem em sentidos opostos, ele em decadência e ela em ascensão, é bem o resumo simbólico da ação de uma engrenagem que sempre necessita de renovação e diante da qual destinos humanos têm pouca relevância. No plano de encerramento, o desalento no rosto da protagonista é como uma antecipação de seu futuro. E na sequência no qual o espectador acompanha o ritual derradeiro, a organização dos planos é perfeita e evita qualquer recurso artificial. Mas é difícil superar o ritual e o movimento em direção ao mar de Mason na versão de Cukor. Este é um risco a ser enfrentado por quem se defronta com os clássicos. Os que conhecem as versões de Wellman e Cukor perceberão que Cooper procurou se afastar de gestos de ousadia e tentou se expressar de maneira sóbria e tanto quanto possível pessoal.
 
COMENTAR | CORRIGIR
Comentários
Seja o primeiro a comentar esta notícia