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Porto Alegre, sexta-feira, 14 de setembro de 2018.
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Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Edição impressa de 14/09/2018. Alterada em 13/09 às 22h02min

Excesso de temas

Haverá, nos dias de hoje, espaço para a comédia? Nascido na Áustria e vivendo na Itália, Edoardo Winspeare, o realizador de A vida em família, é dos que acreditam que o gênero ainda pode oferecer espaço para a meditação. Tal forma de expressão, que teve, no cinema, seu auge num passado já distante, quando alguns mestres o abordaram, é aquela que mais tem sofrido com a falta de imaginação e a mediocridade. Ela nunca desaparecerá certamente. Porém, basta contemplar certos trailers que somos obrigados a ver antes do filme que nos interessa para que se constate que o gênero passa por uma fase reveladora de um tempo no qual a pobreza criativa é algo assustador. Winspeare é, portanto, de certa forma, um resistente. Mas seu filme, embora o empenho e o interesse em realizar algo que se afaste da vulgaridade, não alcança o planejado, é vitimado pela monotonia narrativa e ainda aparece prejudicado por um número excessivo de temas que, mesmo tendo como modelo exemplos da comédia clássica italiana, não são manipulados de forma a fazer com que sua vitalidade seja recuperada. Ao falar sobre sonhos sufocados pela realidade, o cineasta não se mostra à altura de tal temática, acumula situações que pouco contribuem para seu desenvolvimento e se mostra muito distante daquela capacidade de expor com clareza a ideia de que a comédia sempre será um drama disfarçado.
Ambientado numa pequena cidade italiana, cujo nome confunde um casal de turistas e que não deixa de ter ligações com o cenário onde se desenrola a ação, o filme tem evidentes ligações com as obras de Frank Capra e também procura seguir sugestões de clássicos como O segredo das joias, de John Huston; Rififi, de Jules Dassin; e também do primeiro que viu em tais obras elementos que mereciam uma sátira: Os eternos desconhecidos, de Mario Monicelli, um dos maiores títulos da comédia peninsular. Descendente de muitos personagens de Capra é o prefeito de Disperata, que não esconde seu fastio diante das discussões no conselho municipal e prefere dar asas à sua imaginação, enquanto uma oposição truculenta, movida por ambições materiais, batalha para transformar espaços preservados em locais destinados à construção de cenários capazes de atrair turistas. Tendo como modelos personagens de filmes policiais, aqui vitimados pelo atraso em que vivem e transformados em figuras cômicas, outros personagens não são apenas prisioneiros, pois o citado prefeito acredita que a literatura e a música são capazes de reabilitá-los. É aqui que o filme começa a fraquejar. As palavras não se transformam em algo integrado à trama e os sons combinados nem chegam a ser empregados, merecendo apenas uma citação verbal.
Se Winspeare pensou também em seguir um caminho semelhante a Cinema paradiso, de Giuseppe Tornatore, tal tentativa se transforma num fracasso. Não há surpresa alguma durante todo o relato, e o cinema que aparece em determinada cena é, sem dúvida, algo que não deveria pertencer àquela cidade. Eis um exemplo de como um cenário mal escolhido pode anular as pretensões de um diretor. E os conflitos familiares abordados são expostos de forma primária, numa espécie de caricatura involuntária. E há uma cena colocada nos créditos finais, que retoma um dos temas, aquele da fixação de um dos personagens na figura do papa. Tal cena praticamente não é vista, pois são poucos os espectadores interessados nas informações que os cinemas corretamente deixam na tela no fim das sessões. Alguns diretores costumam fazer isso, mas, como os espectadores não são avisados, o epílogo é perdido. Aliás, nem legendas foram colocadas pela distribuidora em tal cena, em mais uma demonstração de descaso. Mas pelo menos agora as salas exibidoras não sonegam as informações finais, pois poderá haver entre o público alguém interessado em informações sobre o filme visto. Esse recurso de colocar cenas nos créditos finais certamente também é uma ironia destinada a ressaltar o desinteresse da maioria sobre certos dados. E também uma vingança do realizador, em nome da equipe que trabalhou na produção.
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