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Tecnologia

- Publicada em 03h36min, 11/02/2020. Atualizada em 03h00min, 11/02/2020.

Aplicativos de entrega mudam as vendas no varejo

No Carrefour, que há dois anos tem parceria nacional com a Rappi, 63% dos clientes do canal e-commerce food não faziam compras na rede

No Carrefour, que há dois anos tem parceria nacional com a Rappi, 63% dos clientes do canal e-commerce food não faziam compras na rede


Lucas Sabino/Divulgação/JC
Faz quatro meses que Bruna Braune, de 32 anos, não vai ao supermercado. A gerente de marketing, que quer ter mais tempo para hobbies, como ler, assistir a séries ou cozinhar, faz parte de um crescente grupo de consumidores, a maioria de jovens adultos, que tem chamado a atenção do varejo de alimentos.
Faz quatro meses que Bruna Braune, de 32 anos, não vai ao supermercado. A gerente de marketing, que quer ter mais tempo para hobbies, como ler, assistir a séries ou cozinhar, faz parte de um crescente grupo de consumidores, a maioria de jovens adultos, que tem chamado a atenção do varejo de alimentos.
Eles são imediatistas e fazem de tudo para não precisar ir às compras na loja física nem esperar muitas horas para receber em casa o produto adquirido no e-commerce tradicional. Compram pequenas quantidades de alimentos, itens de higiene e limpeza por meio de aplicativos de entregas instalados no smartphone, como iFood e Rappi, que conseguem levar as encomendas ao cliente com mais rapidez.
Nos últimos dois anos, turbinado pelo interesse tanto de gigantes, como Carrefour e Grupo Pão de Açúcar (GPA), quanto de varejistas de uma só loja, esse mercado de compras de conveniência feitas por meio de apps de entrega tem avançado exponencialmente, embora ainda represente pouco dentro das vendas totais dos supermercados.
"Registramos crescimento de 100% a cada mês", diz Diego Barreto, vice-presidente financeiro do iFood, que começou a oferecer entrega de supermercados parceiros no começo do ano passado. A empresa opera com 400 supermercados em 80 cidades e quer chegar a mil lojas em 200 cidades em meados do ano. No concorrente Rappi, a compra de supermercado é a linha que mais cresce na empresa, depois de refeições, que se propõe a entregar qualquer tipo de produto.
Entre os varejistas, um dos pontos que impulsionam o interesse pela venda por meio dos apps de entrega é a atração de novos consumidores. No Carrefour - que, há dois anos, tem parceria nacional com a Rappi -, 63% dos clientes do canal e-commerce food não faziam compras na rede, diz Paula Cardoso, CEO do Carrefour e-Business.
"A adesão não é só das camadas de maior renda (mais habituadas a compras on-line), mas também das classes C e D", ressalta Marcelo Rizzi, diretor do Grupo Big, que testa a parceria com o iFood em uma loja e vai expandir para hipermercados, supermercados e atacarejos.
Eduardo Terra, presidente da Sociedade Brasileira de Varejo, diz que a parceria dos aplicativos e supermercados é um caminho sem volta, pois o smartphone mudou o hábito de compra e as empresas travam uma corrida para estar mais bem posicionadas do que as rivais nesse novo mercado. Terra e outros especialistas destacam a oportunidade, mas alertam para o risco estratégico: ao fechar parceria com companhias de delivery, o supermercado pode entregar informações do consumidor para empresas de fora. "A questão é de quem é o cliente."
As vendas de alimentos, bebidas e produtos de higiene e limpeza, e os aplicativos de entrega são as novas frentes de crescimento do comércio on-line. "Os aplicativos têm efeito multiplicador e estão ajudando a popularizar o e-commerce", afirma Carlos Coutinho, sócio da consultoria PwC Brasil.
Quando o consumidor tem uma experiência boa em um aplicativo de entrega, por exemplo, ele aprende a usá-lo e passa a fazer compras por esse meio também, argumenta o consultor. Esse aprendizado explica, em boa parte, porque é crescente o fechamento do número de parcerias entre aplicativos de entregas, como iFood e Rappi, e os supermercados.
"O alimento, agora, é uma fronteira a ser explorada no varejo on-line, toda a parte de vendas de não alimentos por esse canal se desenvolveu mais rápido", afirma a CEO do Carrefour e-Business, Paula Cardoso. Ela acredita que o potencial de crescimento de vendas de alimentos é muito grande, apesar de hoje representar muito pouco das vendas do e-commerce.
Da receita do varejo on-line, os itens de supermercado responderam por 2,5% no acumulado em 12 meses até outubro de 2019, segundo a consultoria Ebit-Nielsen. Pesquisa da Kantar, especializada em auditar o consumo nos domicílios, mostra que as vendas de alimentos e produtos de higiene e limpeza cresceram no Brasil quase seis vezes mais no varejo on-line comparado com o avanço registrado nas vendas que englobam lojas físicas e virtuais para esses produtos. O período analisado foi de julho de 2018 a junho de 2019.
 

Apps podem responder por até 10% das receitas de supermercados, e dados de compras viram estratégia de negócios

iFood não compartilha informações dos clientes com lojas parceiras
iFood não compartilha informações dos clientes com lojas para os quais faz as entregas
LUIZA FLORENZANO/DIVULGAÇÃO/JC
Apesar de ser um novo canal, a venda de supermercados por meio de aplicativos de entrega avança rapidamente e já chega a representar entre 5% e 10% da receita de algumas lojas, diz o presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo, Eduardo Terra.
Diante desse potencial, apontam especialistas, fica difícil para os varejistas evitarem as parcerias com os apps de delivery, mesmo tendo de repassar para um terceiro, a depender da forma como os contratos são negociados, o coração do seu negócio: as informações de clientes.
Os dados são uma espécie de "arma secreta do varejo". Com acesso a eles, muitas vezes por meio de programas de fidelidade, os varejistas conseguem estudar o comportamento do cliente, suas preferências, frequência de compra, formas de pagamento, além de reter informações pessoais, o que permite às redes se comunicarem diretamente com o consumidor. "Essa questão da posse dos dados do cliente é fundamental", reforça o economista da Associação Paulista de Supermercados (Apas), Thiago Berka.
A Rappi informa operar com dois tipos de contrato: um que permite o acesso aos dados da compra pelo varejista e outro em que isso não é autorizado. Já o iFood informa não compartilhar informações dos clientes com os supermercados para os quais faz as entregas.
Há um ano trabalhando em parceria com a Rappi, Paula Cardoso, presidente do Carrefour e-Business, faz questão de ter acesso às informações. "Tenho acesso a quem comprou e o que comprou."
No Grupo Big, que testa uma parceria com o iFood, a história se repete. "Negociamos o compartilhamento de dados, isso é bem costurado", diz o diretor de Planejamento Estratégico, Marcelo Rizzi. A chave desse negócio é, no futuro, fazer ofertas personalizadas, acrescenta.
Tanto iFood e Rappi quanto os supermercados não revelam as taxas cobradas para incluir os produtos nos aplicativos de entregas, mas elas podem variar entre 8% e 12% sobre o valor da venda.
 
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