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Profissão

- Publicada em 16h49min, 22/09/2020. Atualizada em 12h15min, 23/09/2020.

Tecnologia contábil muda perfil da atividade

Além da digitalização de processos, a profissão também passou por reinvenções no mercado de trabalho

Além da digitalização de processos, a profissão também passou por reinvenções no mercado de trabalho


GERD ALTMANN VIA PIXABAY/DIVULGAÇÃO/JC
Carlos Villela
Os avanços tecnológicos dos últimos anos, puxados pela popularização do acesso à internet, modificaram o perfil da atividade contábil. E tudo começa pela sala de aula. O ensino de Ciências Contábeis passou por grandes transformações e segue em constante adequação para manter a grade de disciplinas em conformidade com a dinâmica atualização exigida dos profissionais, que comemoraram nesta terça-feira (22), o Dia do Contador.
Os avanços tecnológicos dos últimos anos, puxados pela popularização do acesso à internet, modificaram o perfil da atividade contábil. E tudo começa pela sala de aula. O ensino de Ciências Contábeis passou por grandes transformações e segue em constante adequação para manter a grade de disciplinas em conformidade com a dinâmica atualização exigida dos profissionais, que comemoraram nesta terça-feira (22), o Dia do Contador.
De acordo com a professora Patrícia Coelho, coordenadora do curso de Ciências Contábeis na Unilasalle, a antiga percepção do contador como o profissional "guarda-livros" mudou junto com a profissão que, além da digitalização de processos, também passou por reinvenções no mercado de trabalho. Anteriormente, relembra, o contador era visto como uma calculadora ambulante. Hoje, os cursos de graduação precisam não só acompanhar como estar um passo à frente identificando as tendências da profissão.
A vice-presidente de Registro do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), Lucélia Lecheta, destaca que, antes dos conhecimentos especializados e técnicos, os estudantes precisam ter compromisso com a ética e a responsabilidade social, intrínseco à profissão. Somado a isso, é necessário dominar as ferramentas de tecnologia na área. "Não existe mais contabilidade sem a digitalização", afirma. Ter o domínio dos aparatos tecnológicos, explica, não quer dizer apenas saber como transmitir informações e documentos, mas também ser capaz de interpretá-los e agir de forma dinâmica.
Outra recomendação da dirigente é que os profissionais se mantenham sempre atualizados e atentos em relação às notícias. "O contador precisa saber o que acontece no Brasil e no exterior, nos campos social, político e econômico", afirma.
Vitória Lunardi, professora de Contabilidade do Centro Universitário Cenecista de Osório (Unicnec), concorda e diz que a mudança no ensino teve que acompanhar a mudança profissional. "Todos os organismos com quem ele se relaciona, todas as tratativas e encaminhamentos de documentos ocorrem de forma virtual através do sistema de comunicação", aponta ela, que também é coordenadora da Comissão de Estudos de Acompanhamento da Área de Ensino Superior do Conselho Regional de Contabilidade do Rio Grande do Sul (CRCRS)
Ainda assim, a professora destaca que ainda há preceitos pedagógicos que precisam do acesso físico dos professores aos alunos para que a educação seja completa - o que, ao menos temporariamente, está inviabilizado por causa da pandemia. "O contato pessoal faz com que nós atendamos outra parte da nossa cognição, que tem referência com a proximidade com a pessoa que está passando a instrução", diz.
Segundo Vitória, há duas experiências em especial que auxiliam os estudantes de Ciências Contábeis a se prepararem para os desafios da profissão. Uma delas é o estágio, que pode ser realizado em diferentes locais, como escritórios contábeis, departamentos financeiros e órgãos públicos, e permite ao futuro contador a interagir com a contabilidade diária. "Ele faz o acompanhamento de execução do trabalho até chegar na elaboração das demonstrações fiscais, e essa análise permite pensar em gestão de futuro organizacional, o que é muito importante."
O outro é o Núcleo de Apoio Contábil e Fiscal (NAF), projeto desenvolvido por universidades juntamente com a Receita Federal oferecendo serviços contábeis de forma gratuita para pessoas físicas e jurídicas, e que Vitória define como a inserção do aluno na educação fiscal. "A aplicação de conhecimentos ocorre nos laboratórios do NAF, com atendimento à a comunidade", diz.

Aumento no número de profissionais registrados reflete maior demanda

Patrícia diz que o perfil procurado é por quem tem olhar mais sistêmico
Patrícia diz que o perfil procurado é por quem tem olhar mais sistêmico
/UNILASALLE/DIVULGAÇÃO/JC
 
As mudanças na área da Contabilidade vieram acompanhadas de um crescimento no número de profissionais atuantes. Em 2004, o Brasil tinha 166.670 contadores registrados e 192.349 técnicos em contabilidade, em um total de 359.019 profissionais. Hoje, 16 anos depois, são 354.879 contadores, um aumento superior a 200%. Somados ao número de técnicos, que está em 161.477, são 516.356 profissionais de contabilidade em atuação.
Para a professora Vitória Lunardi, isso é um reflexo do aumento do nível de exigência da área contábil decorrente das modificações, somada a uma mudança na tipologia das empresas brasileiras. "Elas cresceram, se preocupam em cotizar em bolsa, e não tínhamos uma bolsa tão pujante quanto temos hoje. Os profissionais se aprimoraram para fazer parte dos nichos de trabalho bem remunerados, e a quantidade de empresas que exige que tenha departamento de controladoria é grande", diz. Junto a isso, há uma exigência maior de transparência que demanda, por consequência, um número maior de especialistas.
Na visão da professora Patrícia Coelho, há duas décadas o mercado de trabalho buscava a atuação de um profissional que estivesse consolidado em uma empresa, com anos de experiência, porque se entendia que era o mais capacitado. Hoje, ela explica que a busca é por profissionais que tem um olhar mais sistêmico e com abrangência de diversas áreas, e isso só é atingido quando o profissional busca evoluir e se reinventar.
Assim, dentro da graduação, o aluno vai conhecendo as várias frentes de atuação. A professora explica que o Unilasalle está se organizando para inaugurar no ano que vem um escritório contábil júnior, para permitir que os alunos possam praticar o processo cotidiano de atividades, embora ainda não possam assinar pela profissão por não terem registro.
A ideia é trazer para esse escritório negócios pequenos e microempreendedores que não tem a presença próxima de um contador, visando prestar o apoio técnico necessário. Além disso, há ações de aporte de alunos mais experientes junto a calouros, chamados "padrinhos", auxiliando em uma monitoria mais próxima - o que já ocorria anteriormente, mas agora passou a ser institucionalizado.
"Os novos bacharéis devem ter em mente que o contador precisa estudar e se atualizar por toda a carreira. Não há outro caminho", fala A vice-presidente de Registro do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), Lucélia Lecheta. Segundo ela, quem não busca o conhecimento não consegue executar o trabalho com excelência. Por isso, recomenda que recém-formados busquem cursos de pós-graduação e formações de atualização mais curtas. Lecheta também destaca a necessidade da prestação da prova do Exame de Suficiência para a obtenção do registro profissional, assim podendo exercer plenamente a profissão. Neste ano, pela primeira vez e motivado pela pandemia de Covid-19, o Exame foi realizado de forma digital.
À época, ela havia destacado que a missão de realizar o exame virtualmente não era algo simples, e houve uma série de reuniões junto à empresa licitada para fazer o exame para encontrar a melhor forma de aplicar as provas com a segurança e qualidade do modelo presencial.
Patrícia vai além: "fala-se que a Inteligência Artificial vai eliminar o contador do mercado de trabalho, e isso é uma mentira. A tecnologia fará os trabalhos chatos e que não agregam valor, tanto para a pessoa quanto para o negócio", diz.
"Perdia-se uma manhã fazendo registro de livros, hoje se clica num botão. As coisas estão mais organizadas para que o tempo seja utilizado para análise e projeção. Se perdia muito tempo fazendo validação do passado, agora se pensa pra frente", reforça a professora.

Automação de processos passa a ser prioridade da área contábil

Rotina hoje precisa ser capaz de conectar, em segundos, Fisco, contador e empresa
Rotina hoje precisa ser capaz de conectar, em segundos, Fisco, contador e empresa
/CREATIVEART/FREEPIK.COM/DIVULGAÇÃO/JC
Roberta Mello
Termos familiares aos contadores podem ter o fim de sua existência decretado e serem riscados do vocabulário dos profissionais. Foi o que aconteceu com o Lalur - Livro de Apuração do Lucro Real, que deixou os arquivos físicos no passado e ganhou a versão digital. A entrega das informações presentes no e-Lalur continua obrigatória, mas devem ser feitas de forma integrada à ECF. O mesmo já ocorreu com outras obrigações e ainda vai acontecer com uma série de documentos que faziam parte da rotina dos escritórios contábeis, muitos impressos, e estão sendo substituídos por formulários online e sistemas capazes de conectar, em segundos, Fisco, contador e empresa.
A ECF serve novamente de exemplo. A versão digital do documento faz parte do Sistema Público de Escrituração Digital (Sped), criado pela Receita Federal para agilizar a comparação entre seu banco de dados e as informações repassadas pelos contribuintes, com o objetivo de encontrar fraudes. Este modelo, inclusive, inspirou diversos outros países a modernizarem os seus fiscos na caçada pelos sonegadores. É difícil imaginar um escritório contábil que não utilize qualquer sistema de gestão ou que não tenha automatizado processos. E a exigência do Fisco foi importante para esse movimento. Os contadores não tiveram outra saída se não a adaptação a tudo que a Receita Federal e órgãos estaduais e municipais passaram a exigir. E foram além.
Hoje, a maioria das empresas brasileiras já realiza operações com o auxílio da tecnologia. Apenas 4% não têm nenhuma operação automatizada. A emissão de notas fiscais, a entrega de obrigações (como o SpedFiscal) e os lançamentos de saída são ações realizadas automaticamente por mais de sete em cada dez empresas que participaram da pesquisa "Tax do Amanhã - Tecnologias e recursos para os atuais desafios tributários das organizações", realizada recentemente pela Deloitte.
A criação Sped, em 2007, talvez tenha sido um dos maiores avanços na informatização da relação entre o Fisco e os contribuintes nos últimos 18 anos - período de circulação do JC Contabilidade, que completou a maioridade neste mês. O Sistema de Escrituração Digital das Obrigações Fiscais, Previdenciárias e Trabalhistas (eSocial), já em vigor desde 2018, por exemplo, fez com que as empresas tivessem de reformular seus processos internos. Apesar dos desafios, o contador saiu fortalecido desse desafio.
Em 2010, a Receita Federal acabou de uma vez por todas com a entrega do formulário da declaração do Imposto de Renda em papel. Passou a ser permitida a submissão dos dados em disquete e pela internet. Em 2014, disquete, pendrive ou CD só eram aceitos em alguns casos excepcionais.
O empresário contábil Célio Levandovski lembra que "alguns colegas ficaram enfurecidos quando houve a notícia de que isso aconteceria". É normal que haja resistência quando ocorre uma quebra de padrões. "Hoje é impensável que a gente tenha que ir até a Receita busca um formulário em papel para prestar esse serviço aos clientes. As mudanças nos forçam a evoluir", diz o presidente do Sescon/RS.
Mesmo assim, os contadores lutam pra não se tornarem meros cumpridores das exigências fiscais. O contador Maurício Gatti salienta que é preciso ter sempre em mente que aquelas informações prestadas à Receita Federal não agregam valor ao cliente. "Temos dedicado muito tempo ao cumprimento das obrigações acessórias, mas é preciso ter tempo também para entregar um serviço de qualidade a quem realmente nos contrata", avisa.
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