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Reportagem especial

- Publicada em 21/11/2021 às 15h00min.

ERS-373: Pavimentação irá consolidar um novo caminho para a serra gaúcha

Dos 23,8 quilômetros da estrada entre Gramado e Santa Maria do Herval, 10 são de chão batido

Dos 23,8 quilômetros da estrada entre Gramado e Santa Maria do Herval, 10 são de chão batido


felipe faleiro/divulgação/jc
Felipe Faleiro, de Santa Maria do Herval
Há anos convivendo com a poeira na ERS-373, estrada que liga Santa Maria do Herval a Gramado, na Serra, Leonardo Marmitt, 39 anos, anda que é só sorrisos. Brinca que, em breve, o trabalho no empreendimento da família, uma mecânica especializada em caminhões e automóveis, à qual gerencia com os irmãos Ronaldo e Júnior, vai diminuir bastante; contudo, será por uma boa causa.
Há anos convivendo com a poeira na ERS-373, estrada que liga Santa Maria do Herval a Gramado, na Serra, Leonardo Marmitt, 39 anos, anda que é só sorrisos. Brinca que, em breve, o trabalho no empreendimento da família, uma mecânica especializada em caminhões e automóveis, à qual gerencia com os irmãos Ronaldo e Júnior, vai diminuir bastante; contudo, será por uma boa causa.
“Só temos gratidão por isto. Será uma grande oportunidade para todo mundo”, afirma ele. A mecânica Irmãos Marmitt fica na localidade de Alto Padre Eterno, bem na divisa entre os dois municípios, mas no lado de Santa Maria do Herval.
Em frente dela, há um pequeno restaurante, onde funcionários de empresas próximas, especialmente fábricas locais de móveis e frigoríficos, se reúnem para almoçar. No dia em que a reportagem do Jornal do Comércio esteve no local, estava muito quente, e os diversos caminhões em circulação levantavam alto a poeira, prejudicando a visão.

Mas isso deve mudar - está para iniciar uma obra que é aguardada há muito tempo por quem mora na região: a pavimentação da parte que falta da ERS-373, cerca de 10 quilômetros. Quando finalizada, a obra permitirá reduzir a distância entre Porto Alegre e a região das Hortênsias em 26 quilômetros.
A ERS-373 começa na rótula com a ERS-115, no bairro Várzea Grande, em Gramado, a 3 minutos de carro do GramadoZoo e a 5 minutos do Lago Negro. Termina 23,8 quilômetros adiante, no sentido sudoeste, na altura da rua 10 de Abril, na entrada para a Cascata e Caverna dos Bugres, um dos principais pontos turísticos de Santa Maria do Herval. A via corta as localidades de Serra Grande, em Gramado, Alto Padre Eterno, Boa Vista do Herval, Vila Ferraria e termina no Centro hervalense.
“Aqui transita muita gente, ônibus que transporta o pessoal para as fábricas, batateiros e colonos em geral”, informa Leonardo. O mecânico soube dos rumores envolvendo a obra por meio do advogado da família, que é de Porto Alegre. E depois de tantas promessas, o morador local diz sentir que “agora vai”.
Pavimentação da ERS-373

Rodovia tem baixo índice de acidentes na atualidade

Estrada é usada como alternativa para quem sai de Porto Alegre em direção à região das Hortênsias
Mesmo com trecho sem pavimentação, estrada é usada como alternativa para a região das Hortênsias
felipe faleiro/especial/jc
Apesar de a rodovia ser uma alternativa viável de trajeto entre a Encosta da Serra e as Hortênsias, a ERS-373 apresenta hoje baixo fluxo relativo de veículos e registra poucos acidentes. Dados do Comando Rodoviário da Brigada Militar (CRBM) mostram que, entre 2011 até o final de outubro deste ano, houve 16 acidentes com danos materiais, 15 com lesões e somente dois com morte na 373 - o último deles em 2017.
A estrada é patrulhada pelo Pelotão Rodoviário de Gramado. "Embora a rodovia tenha seu início no perímetro urbano de Gramado, ela possui características rurais", afirma o comandante do 3º Batalhão Rodoviário da Brigada Militar (3º BRBM), responsável pela área, major Leandro Arbogast da Cunha. O major reconhece, porém, que a estrada é utilizada para deslocamento de pessoas da região Metropolitana e também da Capital, e reforça que a fiscalização no local é permanente.
A demanda por melhorias na região segue com desdobramentos. A reunião mais recente, até o fechamento desta reportagem, foi no último dia 25 de outubro, na sede do Daer, em Porto Alegre. O deputado federal Marcel Van Hattem (Novo), natural de Dois Irmãos, município-mãe de Santa Maria do Herval, esteve nela e celebrou a aprovação da obra.
"Sempre compreendi a importância do asfaltamento desse trecho da ERS-373. Junto com o prefeito de Gramado, Nestor Tissot, que esteve em Brasília, e também com outros prefeitos da região, em especial as [prefeitas] de Santa Maria do Herval e de Morro Reuter, apresentamos a demanda do asfaltamento à Bancada Gaúcha no Congresso Nacional. Avaliando a sua pertinência e importância, acabou por incluir recursos de uma emenda de bancada no Orçamento Geral da União de 2021", diz ele.
Conforme Van Hattem, o estado entrará com os R$ 27 milhões, e a bancada gaúcha, outros R$ 11 milhões brutos - porém, descontando os valores envolvidos na transferência dos recursos, serão R$ 9,6 milhões líquidos. O valor de emendas brutas está sendo assim aportado pelos parlamentares: R$ 5 milhões da bancada como um todo, R$ 1,5 milhão pelo próprio Van Hattem, R$ 1 milhão cada pelo senador Lasier Martins (Podemos), deputados Giovani Feltes (MDB), Lucas Redecker (PSDB) e Nereu Crispim (PSL), além de R$ 500 mil pelo deputado Pompeo de Mattos (PDT). Os recursos adicionais da bancada do RS ajudarão a asfaltar a chamada rua da Pedreira, espécie de atalho que encurta ainda mais o caminho em cerca de três quilômetros, porém evitando o trecho da comunidade de Alto Padre Eterno, além da construção de mais três rótulas na rodovia.
O deputado estadual Elton Weber (PSB), que é de Nova Petrópolis, município também vizinho a Santa Maria do Herval e Gramado, avalia que as Administrações municipais têm estado "muito atentas" e desempenhado um importante papel na execução dos trabalhos. "Nós [deputados] também estamos acompanhando o que está acontecendo. O projeto está sendo adequado e os recursos estão destinados. Reiteradamente, compartilhamos ideias com as Administrações a fim de que o projeto possa acontecer", diz ele.
A reportagem também questionou Elton, conhecedor da região, sobre os motivos pelos quais o pavimento da 373 ainda não foi feito, apesar da longa espera. "Teve a ver com a questão dos recursos financeiros, e o estado passa por uma penúria muito grande neste sentido, e até houve uma empresa que ganhou a licitação da obra e acabou falindo".

Gestores municipais celebram confirmação das obras

Nestor Tissot, prefeito de Gramado:
Nestor Tissot, prefeito de Gramado: obra deve impactar diretamente região com 15 mil pessoas
Prefeitura Gramado/Divulgação/JC
Recentemente, a prefeita de Santa Maria do Herval, Mara Stoffel (PDT), tinha, sobre a mesa de seu gabinete, um calhamaço de papéis que facilmente passava das centenas de folhas. Tratava-se do projeto da ERS-373, cuja licitação, conforme ela, é de agosto de 2002. Passado todo este tempo, o projeto precisou ser atualizado. A própria chefe do Executivo municipal reeleita recebeu do Daer o documento mais atual na mesma reunião no final de outubro.
"Toda a região será favorecida. Esta obra vai alavancar o turismo regional, e temos a esperança de que consigamos trazer empresas para a área", afirma ela, reforçando que o projeto está sendo realizado a muitas mãos. "Todos se abraçaram pela causa", comenta, citando, assim como Van Hattem, os nomes dos prefeitos de Morro Reuter, Carla Chamorro (PTB) e Dois Irmãos, Jerri Meneghetti (PP). Na visão de Mara, os três municípios são "como uma família".
Em Gramado, o prefeito Nestor Tissot (PP) diz acreditar que a 373 será um importante caminho ao município, considerado o segundo destino turístico mais visitado do Brasil, com 6,5 milhões de visitantes anuais. Hoje, os acessos à cidade são feitos pela BR-116, principal via da Rota Romântica, e depois a ERS-235, mas também pela ERS-239 e ERS-115, ou ainda pela 239, 115 e pela Rota Panorâmica - estrada que liga Três Coroas a Canela, vizinha a Gramado. Jogue no Google, por exemplo, a rota entre Porto Alegre e Gramado: apesar de a distância via 373 ser bem menor, o tempo gasto por ela em relação à ERS-115 ou à BR-116 variam por poucos minutos, já que estas duas rodovias têm asfalto em boa qualidade em toda sua extensão.
"Dificilmente ninguém nunca tenha sido induzido a utilizar a 373, pois o GPS da maioria dos equipamentos eletrônicos acaba direcionando por ela em razão de ser um trajeto mais curto", salienta Tissot, que diz pretender estar semanalmente na obra, fiscalizando-a, ainda que a mesma seja de responsabilidade estadual. O prefeito de Gramado conta que, três dias depois das últimas eleições municipais, procurou o deputado Van Hattem para auxiliar na reivindicação para o pavimento. E que reuniu boa parte da bancada gaúcha no intuito de realizar a obra, arrecadando os R$ 9,8 milhões.
Assim, houve o pedido regional junto ao Daer, que incluiu as melhorias no Avançar. "A pavimentação da ERS-373 sempre foi algo almejado pelos gestores, porém sempre houve entraves, principalmente o financeiro. As comunidades terão uma rodovia de qualidade e seu entorno irá garantir o sustento para muitas famílias", diz Tissot. Conforme ele, que disse utilizar a rodovia em suas viagens a Porto Alegre, a obra deve impactar diretamente uma população de 15 mil pessoas somente no bairro da Várzea Grande, um dos mais populosos de Gramado.
Quem também não esconde a empolgação é o presidente da Associação dos Municípios do Vale do Rio dos Sinos (Amvars), Luciano Orsi, também prefeito de Campo Bom. A Amvars é gestora do Vale Germânico, caminho turístico lançado não faz muito tempo, e ao qual Santa Maria do Herval é integrante. "Ter a ERS-373 pavimentada, mais segura e bonita, será um convite para que os turistas venham até nós, sem contar o desenvolvimento econômico", comenta Orsi.

O que pensa a respeito quem vive às margens da rodovia

Aposentado Darci Tomazi diz que estrada é estreita para o trânsito
Aposentado Darci Tomazi diz que estrada é muito estreita para o trânsito que recebe
felipe faleiro/especial/jc
A reportagem percorreu a via de ponta a ponta, e ouviu histórias de outros moradores igualmente ansiosos pela pavimentação, bem como empreendedores que enxergam na ERS-373 uma possível nova rota turística de excelência em um futuro próximo.
Da saída de Gramado à divisa com Santa Maria do Herval, a estrada está em relativas boas condições, contudo, há alguns buracos e imperfeições, principalmente no trecho da Várzea Grande, onde existe um caminhódromo construído pela Prefeitura gramadense. Ele é delimitado com a via apenas por uma faixa branca riscada no chão, e a identificação do mesmo se dá por pictogramas de pessoas ao longo dos cerca de 6,5 km de extensão até Serra Grande. Em alguns pontos, contudo, ela está apagada.
"Passo aqui todos os dias, e o asfalto precisa melhorar", afirma Franciele Mazurana, 19 anos, caixa de um pequeno mercado aberto há cerca de três anos às margens da rodovia. "Existe um bom movimento de pedestres, mas também de carros. Acho também que a sinalização e a iluminação são um pouco precárias". Em frente ao negócio onde a jovem trabalha, um buraco havia sido recentemente coberto por asfalto novo pela Administração Municipal.
Ali próximo, mora o aposentado Darci Tomazi. Aos 69 anos, ele conta que sempre teve uma forte relação com a 373. "Primeiro, passavam por aqui os caminhões de uma olaria próxima que transportavam materiais. Depois, eram os do leite, que levavam para um depósito em Gramado. O desenvolvimento veio a partir das décadas de 1960 e 1970. Até então, viviam aqui umas 15 famílias. Agora, o bairro cresceu muito graças à rodovia".
Do outro lado da estrada, em dias claros, é possível ver, segundo Darci, até Três Coroas, e com olhos bastante apurados, até mesmo Porto Alegre ao horizonte. "O Jair Soares [governador do estado entre 1983 e 1987] foi quem fez a terraplanagem, e o Pedro Simon [governador seguinte, entre 1987 e 1990] construiu a estrada em si. Mas hoje, vejo que ela é estreita, sem acostamento. Ouvi falar que vão fazer o alargamento. É preciso, já que muitos caminhões de brita e pedra ainda passam por aqui", comenta o aposentado. Ali perto, em frente a uma escola municipal de Educação Infantil, há uma placa instalada pela Administração anterior de Gramado, mostrando a melhoria do pavimento feita na época. Foram investidos R$ 2,1 milhões em recursos próprios.
A ERS-373 também é a principal via logística da Distribuidora de Carnes Serra Grande, que fornece para diversos mercados de Gramado e Canela. O negócio, que também comercializa embutidos diretamente, foi fundado com o nome de Matadouro Zimmer há mais de 40 anos, e, mais tarde, assumido por Ernesto Sachet, genro dos primeiros proprietários, que mudou a empresa para o nome atual. Hoje, Ernesto nomeia um trecho da rodovia que dá acesso às instalações da distribuidora, conforme lei aprovada na Câmara Municipal de Gramado em 2016. "Com certeza as melhorias são esperadas há muito tempo. Será bom tanto para quem está a passeio como para as empresas que usam esse trajeto para transportar suas mercadorias", diz Maribel Sachet, auxiliar administrativo da empresa, nora de Ernesto e esposa de um dos três sócios, Marcelo Sachet.

No "outro lado", carência de serviços básicos

Moradora de Santa Maria do Herval, Ilza paga o IPTU para Gramado
Moradora de Santa Maria do Herval, Ilza Ribeiro paga o IPTU para Gramado
Felipe Faleiro/especial/jc
Na localidade da Serra Grande, chamam a atenção, principalmente, as residências de alto padrão e as calçadas bem desenhadas, contrastando fortemente com as casas mais simples e chácaras no lado de Alto Padre Eterno, em Santa Maria do Herval - que não tem asfalto, é preciso reforçar.
Realmente é uma incógnita definir a que município pertencem algumas casas da área. A dona de casa Ilza Ribeiro que o diga. O mapa mostra que ela mora no lado hervalense, mas paga conta de energia elétrica e IPTU para Gramado. Já projetando a pavimentação, Ilza e vizinhos fizeram recentemente um abaixo-assinado por escrito destinado a Gramado pedindo água encanada da Corsan antes do início da pavimentação, já que a maioria da comunidade usa poços artesianos particulares, e quem os usa paga uma taxa mensal.
No entanto, avarias em mangueiras e motor causam constantemente problemas no abastecimento. Isto, na opinião dela, seria reduzido ou resolvido com a presença da empresa. O documento teve 34 assinaturas, e foi levado à Corsan e à Prefeitura, mas não houve qualquer avanço em nenhum dos dois locais. O Jornal do Comércio pediu um posicionamento sobre o assunto à assessoria de imprensa da Administração de Gramado, que orientou a verificação direta com a diretoria da estatal no município. Já o gestor da Unidade de Saneamento Especial (USE) das Hortênsias da Corsan, Lutero Cassol, afirmou que desconhecia a demanda desta comunidade, mas orientou que os moradores devem protocolar o documento no escritório da companhia. "Após a análise, o pleito é respondido", disse ele, sem informar um prazo.
Além deste, há outros problemas igualmente urgentes na rodovia, como a já citada poeira que levanta a cada caminhão que passa em dias de sol, e o barro em períodos de chuva, bem como a falta de lâmpadas nos postes. "Se eu deixo a janela aberta, logo dentro de casa está cheio de pó", conta Ilza. A alta velocidade dos veículos também preocupa. Não são raros, conforme a dona de casa, acidentes e colisões em postes por caminhões. Ela conta que criava seis gatos em casa. Quatro morreram atropelados.
O ônibus escolar passa pela região, mas o transporte coletivo de linha, que saía da rodoviária de Gramado e ia até Herval três vezes por dia, parou de circular na pandemia. Nos dias anteriores à visita da reportagem, Ilza contou que foram instaladas estacas no trecho que deve ser pavimentado, mas nem isso é garantia, para a moradora, de que a obra irá sair. Até porque está sendo comum que os veículos maiores as derrubem. "Tenho uma vizinha que mora aqui há quase 40 anos, e ela disse que desde lá estão prometendo asfalto. Já era para ter saído em setembro, depois em outubro, e agora estamos quase em novembro. Quando sair, vai ser melhor para todos nós", disse Ilza na ocasião.
 

Vinícola está nos planos de investimentos para a área

especial ERS-373: speckhoff
Estrada em melhores condições será essencial para o empreendimento Speckhoff's Weingarten
Diane Kuhn Voltz Arquitetura /divulgação/jc
O produtor rural João Batista Caberlon, 60 anos, é uma das pessoas que aposta na pavimentação da rodovia como catalisador de novos investimentos. Natural de Gramado, é advogado de formação em Porto Alegre, onde morava até pouco tempo atrás. Na atualidade, passa a maior parte do tempo em Linha Tapera, interior gramadense. Às margens da 373, em Boa Vista do Herval, está implantando a Speckhoff's Weingarten, futuro espaço de convivência com uma vinícola, cujas uvas são plantadas em três áreas na própria região. O projeto começou há quatro anos.
"A área principal era coberta por vegetação não nativa, e não poderia ficar ociosa. Mas o cultivo poderia ser impossibilitado se estivesse coberta pelos vegetais nativos. Daí que, para dotar o local de utilidade, surgiu a ideia de plantar parreiras. Imediatamente, passamos à plantação e estruturação do parreiral, que foram concluídos há pouco", conta Caberlon. O projeto, porém, passou por alguns problemas. "Após plantadas, as videiras sofreram já no primeiro ano, quando a geada de setembro de 2020 'queimou' cerca de 4 mil pés. Mais tarde, quando algumas estavam brotando novamente, houve a seca, que as queimou por completo".
Há cerca de três meses, Caberlon e sua equipe fizeram o replantio das mudas, "que já se desenvolvem com certo vigor", conta ele. No local, são cultivadas cinco variedades: Niágara rosada; Niágara branca; uma variedade de Niágara tardia; Bordô e Malbec. As três primeiras deverão ser colhidas já na próxima safra. "As demais, que foram prejudicadas pela geada do ano passado, só estarão aptas a produzir a partir do ano que vem", diz o produtor. Os outros dois parreirais ficam em Nova Renânia, também no interior de Herval, a cinco quilômetros dali, com produção de Bordô e Merlot, e outro na Linha Tapera, com outras variedades da uva.
Antes de seguir com a história, um pequeno adendo. Speckhoff's Weingarten significa, em alemão, Vinícola de Speckhoff. Speckhoff é o nome da localidade de Boa Vista do Herval no idioma germânico, já que, segundo Carmen Grellmann Breunig, mestre em Letras pela Ufrgs e hoje professora da Unisinos, "todos iam comprar Speck (toucinho) no comerciante Hoff", isso, nos primórdios da colonização, em fins do século XIX. O projeto de Caberlon, que ingressou na prefeitura nos últimos dias, está sendo desenvolvido pela arquiteta e urbanista hervalense Diane Kuhn Voltz, cujo escritório também fica na ERS-373, e com a parceria da SG Facas Artesanais, de Gramado.
Quando o local estiver concluído, será algo "simples e enxuto", e o produtor considera que o pavimento da rodovia é de "substancial importância" para seu empreendimento. "Além de encurtar a distância para os que pretendem alcançar a Serra, certamente vai levar fluxo à região", opina o gramadense. Diane, por sua vez, afirma ter também outros projetos de empreendimentos no entorno, como um futuro condomínio com casas a 2 km de Gramado. Ele já está aprovado junto à administração e falta apenas a licença ambiental. "As pessoas irão cortar caminho por ali, em vez de vir por Três Coroas ou Picada Café. Acredito que haverá uma valorização dos terrenos", diz a arquiteta.
Porém, ela afirma haver um ponto negativo no projeto da rodovia. "As ruas são muito estreitas. É semelhante ao trajeto de Picada Café até Nova Petrópolis [via BR-116, em pista simples]. Há muitos morros e é difícil a ultrapassagem. [Com a pavimentação] poderá haver congestionamento e acidentes", avisa.
 

A transformação dos empreendimentos na rodovia

O casal Jaqueline Alles, 39 anos, e Rodrigo Machado Silveira, 38, está igualmente feliz. Em 16 de outubro de 2020, foi inaugurado em Boa Vista do Herval o Alles Haus (Casa Alles, em alemão). O empreendimento, ao lado da rodovia, é um pub e restaurante com pratos típicos da culinária germânica, shows ao vivo, e reúne frequentadores de diversos municípios do entorno. O local mistura o agito de locais do gênero com o caráter bucólico da região rural. "[A pavimentação] é uma oportunidade enorme para o desenvolvimento do município e do nosso estabelecimento", diz Jaqueline, também atual vice-presidente do Conselho Municipal de Turismo de Santa Maria do Herval, e, portanto, uma das moradoras locais que acompanham mais atentamente o projeto da pavimentação da 373.
No início, a residência em que hoje fica Alles Haus era a casa de campo da família. Com a chegada da filha do casal, que hoje tem três anos de idade, o imóvel foi ampliado com salão de festas e quarto. Com a pandemia, Jaqueline foi chamada para trabalhar na calçadista Usaflex, em Igrejinha. Rodrigo, que já trabalhava na empresa SAP, passou a atuar em home office. O casal trabalha na área da tecnologia. "Vimos que havia uma certa carência na região de opções noturnas para o pessoal curtir", diz ela, o que justificou os novos investimentos. Há pouco tempo, o Alles Haus inaugurou um deck, já projetando o aumento do movimento na área. "Cada vez mais, as pessoas buscam este contato com a natureza e o meio ambiente. É um lugar bonito, as pessoas querem voltar, só que o acesso é difícil, com toda esta poeira. Temos esperanças de que esta obra comece logo, ainda neste ano", afirma ela.
Já o proprietário de uma imobiliária em Santa Maria do Herval, José Flávio Vier, conta que subiu procura de pessoas por terrenos depois do anúncio da pavimentação. A empresa tem mais de 50 lotes de terra e sítios ofertados ao longo da rodovia. "O procurado são áreas para instalação de indústrias e chácaras", comenta ele. Isto vai ao encontro da expectativa da prefeita Mara Stoffel de, eventualmente, trazer negócios industriais para a área da via, na esteira da pavimentação. Contudo, o município, emancipado em 1988, somente agora está estruturando um Plano Diretor próprio.
Santa Maria do Herval, com cerca de 6,3 mil habitantes, é um dos maiores produtores de batata-inglesa do Rio Grande do Sul. De acordo com o relatório Produção Agrícola Municipal (PAM) 2020, do IBGE, o município ficou na 11ª posição em valor de produção no ano passado, com pouco mais de R$ 7 milhões. Em 2018, ano mais recente de divulgação, o PIB do município, conforme o Departamento de Economia e Estatística (DEE), foi de R$ 192,3 milhões. A 373, ao longo de seu trajeto, recebe diversos nomes: rua 25 de Julho, rua Willy Fernando Schaumloeffel, estes dois em Santa Maria do Herval; estrada Serra Grande e avenida 1º de Maio, ambos em Gramado.
A colonização na região é antiga. A rodovia passa por algumas igrejas históricas no interior. Santa Maria do Herval é também conhecida como Teewald, palavra do dialeto germânico Hunsrück, muito falado na região. E a via que corta as duas cidades conecta também uma população diversa atualmente em compasso de espera pela obra. A partir do final do ano que vem, quando espera-se que a pavimentação esteja praticamente concluída e a ERS-373 liberada para o tráfego, projeta-se uma via de referência para o turismo e o desenvolvimento regionais. Mas a população local não quer mais apenas palavras e promessas. Quer ações concretas.

*Felipe Faleiro é jornalista formado pela Universidade Feevale, de Novo Hamburgo. Nascido e criado no Vale do Sinos, trabalha desde 2016 em veículos de imprensa da região.
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