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DESENVOLVIMENTO

- Publicada em 10/10/2021 às 18h06min.

Despoluição do Rio Gravataí atrai investimentos para a região

Estudantes conhecem o Rio Gravataí em passeio de barco

Estudantes conhecem o Rio Gravataí em passeio de barco


AMBIENTAL METROSUL/DIVULGAÇÃO/JC
Eduardo Torres, especial para o JC
Os olhos de cada um dos passageiros do catamarã brilham ao se deparar com a paisagem do rio à medida em que avançam em direção às nascentes e revelam o tamanho da surpresa a cada viagem do barco-escola Rio Limpo, da ONG Associação de Preservação da Natureza-Vale do Gravataí (APN-VG), que atua no Rio Gravataí. São estudantes ao perceberem que o manancial, considerado um dos 10 mais poluídos do País, era um ilustre desconhecido para a maioria deles, mesmo que sejam vizinhos do rio. Invariavelmente, conta o jornalista e ambientalista Cláudio Wurlitzer, a frase mais repetida depois desta experiência é de que "não podemos deixar o rio morrer".
Os olhos de cada um dos passageiros do catamarã brilham ao se deparar com a paisagem do rio à medida em que avançam em direção às nascentes e revelam o tamanho da surpresa a cada viagem do barco-escola Rio Limpo, da ONG Associação de Preservação da Natureza-Vale do Gravataí (APN-VG), que atua no Rio Gravataí. São estudantes ao perceberem que o manancial, considerado um dos 10 mais poluídos do País, era um ilustre desconhecido para a maioria deles, mesmo que sejam vizinhos do rio. Invariavelmente, conta o jornalista e ambientalista Cláudio Wurlitzer, a frase mais repetida depois desta experiência é de que "não podemos deixar o rio morrer".
Um dos rios mais estudados no Rio Grande do Sul nas últimas três décadas, em cada análise, tem um diagnóstico repetido: é preciso investir em saneamento para salvar o manancial e recuperá-lo como um diferencial de infraestrutura para uma região que, considerando os nove municípios por onde o rio passa, de Santo Antônio da Patrulha a Porto Alegre, concentra até 25% do PIB gaúcho.
Pois os próximos 10 anos tendem a marcar a mudança que faltava. A Bacia Hidrográfica do Rio Gravataí deve receber uma injeção de R$ 2 bilhões em investimentos no saneamento para ações de avanço no tratamento de esgoto e para a execução de obras estruturais para recuperação do fluxo hídrico do rio, contra cheias e secas. A perspectiva é de que a maior fatia do investimento - R$ 1,4 bilhão - venha da iniciativa privada, pela parceria público-privada (PPP) do saneamento, firmada pela Corsan, e em torno de R$ 600 mil em recursos públicos estaduais e federais.
O Marco Legal do Saneamento foi um importante impulso. Considerando projeções da Confederação Nacional da Indústria (CNI) para os investimentos em saneamento no País, com os R$ 2 bilhões previstos para a próxima década, estima-se um acréscimo de até R$ 6,2 bilhões no valor bruto da produção econômica no entorno do Rio Gravataí.
Trata-se do menor rio em extensão - 39 quilômetros da nascente à foz - na região do Guaíba, com 2 mil km² de área na bacia hidrográfica, e que no entanto tem uma das principais concentrações populacionais do Estado. São 1,3 milhão de pessoas - 11% da população gaúcha - que dependem direta ou indiretamente do Gravataí.
A expectativa é de que os recursos ajudem a reequilibrar uma preocupante equação. Se o rio foi o diferencial no desenvolvimento da lavoura irrigada, foi um dos atrativos para a instalação do Distrito Industrial de Gravataí há cinco décadas, propiciou um boom imobiliário na Região Metropolitana e virou porta de entrada e saída da economia regional também com a navegação, há algum tempo a sua deterioração deixa marcas - e prejuízos - a todos estes setores.
"Não é possível falar de economia da região sem tratar do rio. A água precisa ser sempre avaliada como um fator determinante para a produção", define o presidente do Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio Gravataí, o geólogo Sérgio Cardoso. Ele salienta que a expectativa por novos investimentos, com a melhora dos índices de saneamento, quando se trata do Rio Gravataí, tem que ser acompanhada da evolução das ferramentas de gestão integrada da água.
"Com melhoria no tratamento de esgoto, temos a perspectiva de que novos loteamentos venham a ser licenciados, com moradores de fora. Haverá água para todos? Hoje ainda não sabemos quanto cada setor consome de água, por exemplo. E se para cada loteamento aprovado tivermos que cortar uma quadra de arroz plantado? Os setores usuários da água precisam encontrar o equilíbrio, e principalmente, planejamentos de cidades precisam se comunicar e pensar regionalmente, como bacia hidrográfica. O que um faz, afeta a todos", avalia Cardoso.

Ampliação do tratamento de esgoto pode atrair mais moradores

O fatalismo da observação dos meninos no catamarã está longe de ser força de expressão. O maior vilão é o esgoto urbano. Quatro meses atrás, o Rio Gravataí ficou verde, coberto por um verdadeiro tapete de plantas (macrófitas) em um longo trecho na altura da cidade de Gravataí. Era um sinal claro do que órgãos ambientais como a Fepam apontaram nesta última década. As macrófitas surgem em rios com alta concentração orgânica e baixíssima capacidade (pelo baixo volume de água e pela baixa qualidade dela) em dissolver tamanha carga de poluentes.

Estima-se que, a cada 24 horas, o Rio Gravataí receba uma descarga de 50 toneladas de efluentes, mas apenas 33% são tratados. Entre os sete pontos de coleta instalados pela Fepam ao longo do rio, metade apresentaram, entre 2010 e 2020, índices de qualidade da água abaixo da Classe 3, ou seja, impossíveis de uso sem um tratamento cada vez mais pesado.

"Estudos comprovam que cidades com esgoto tratado e mananciais despoluídos, tornam-se mais atraentes porque diminuem custos de produção, representam uma atratividade turística maior e aumentam seus índices de desenvolvimento humano. Por consequência, atraem moradores com qualidade de vida melhor e imóveis valorizados. É um ciclo todo que se movimenta", explica o diretor-presidente da Ambiental Metrosul, Ângelo Augusto Mendes.

A Ambiental Metrosul é o braço privado da PPP firmada pela Corsan na Região Metropolitana para cumprir metas de universalização do acesso a esgoto tratado na bacia do Gravataí. Serão R$ 1,4 bilhão investidos pela iniciativa privada e outros R$ 360 milhões pela estatal para chegar a 87% de esgoto tratado até 2031, ou antes, como faz questão de valorizar Ângelo Mendes. "Temos antecipado uma série de investimentos em toda a região", garante.

O último grande investimento em saneamento na região aconteceu no Pró-Guaíba, encerrado há 15 anos. Na década entre 1995 e 2005, foram R$ 378,4 milhões investidos na Região Metropolitana. No Vale do Gravataí, o programa finalizou com 24% do esgoto tratado. Depois, houve avanço de 9%.

Raio-x da Bacia do Rio Gravataí

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  • A Bacia Hidrográfica do Rio Gravataí é a menor na região do Guaíba, com 2 mil km² de área e 39 quilômetros de curso do rio.
  • Municípios da bacia: Santo Antônio da Patrulha, Glorinha, Taquara, Viamão, Gravataí, Alvorada, Cachoeirinha, Canoas e Porto Alegre.
  • Região concentra 1,3 milhão de habitantes (11% da população gaúcha) e 25% do PIB gaúcho.
  • 84% da demanda de água na bacia é para a irrigação, 13% para o abastecimento público e 3% para a indústria.
  • Diariamente, 50 toneladas de esgoto são lançadas no rio, e apenas 33% são tratados. A meta é chegar a aproximadamente 90% de tratamento de esgoto em 10 anos.
  • Previsão de investimentos de aproximadamente R$ 2 bilhões em 10 anos, que, conforme a CNI, poderão acrescentar R$ 6,2 bilhões ao valor bruto produtivo da economia da região.
Os trechos do rio:
  • Alto Gravataí (39% do território): Santo Antônio da Patrulha, Taquara, Glorinha e Viamão. Região dos banhados formadores do rio, com apenas 10% da sua área original.
  • Produção agrícola, com 1% do arroz gaúcho.
  • Único trecho do rio com qualidade de água Classe 1, considerada a mais alta, em algumas amostras da Fepam nos últimos 10 anos.
  • Investimento de R$ 15 milhões previsto para os próximos anos na construção de minibarramentos que recuperem as capacidades do banhado para regular o fluxo de água do rio.
  • Médio Gravataí (43% do terrítório): Gravataí, Viamão, Alvorada. Região onde fica o trecho alto do rio, no começo do canal.
  • Produção industrial, abastecimento/esgoto urbano.
  • Trecho com predomínio de amostras de água Classes 2 e 3, que impedem o uso de água sem tratamento prévio, nas amostras da Fepam nos últimos 10 anos.
  • Investimento de R$ 15 milhões para construção de minibarramentos que recuperem as capacidades do banhado para regular o fluxo de água do rio.
  • Investimento de R$ 1,7 bilhão na universalização da coleta e tratamento de esgoto na próxima década (junto com Baixo Gravataí).
  • Baixo Gravataí (18% do território): Gravataí, Alvorada, Cachoeirinha, Canoas, Porto Alegre. É o trecho com maior concentração populacional do rio.
  • Produção industrial, movimentação portuária, abastecimento/esgoto urbano.
  • Trecho com predomínio de amostras de água Classe 4 e até abaixo da classificação geral de qualidade da água, que exigem tratamento da água e ações de despoluição, nas amostras da Fepam nos últimos 10 anos.
  • Investimento de R$ 228 milhões na construção de um dique em Alvorada.
  • Investimento de R$ 1,7 bilhão na universalização da coleta e tratamento de esgoto na proxima década (junto com Médio Gravataí).

Fonte poluída representa maior gasto na indústria

Gravataí é considerado um dos 10 rios mais poluídos do Brasil; captação e tratamento de água com qualidade ruim do manancial encarecem atividades da indústria na bacia hidrográfica
Gravataí é considerado um dos 10 rios mais poluídos do Brasil; captação e tratamento de água com qualidade ruim do manancial encarecem atividades da indústria na bacia hidrográfica
/PREFEITURA DE GRAVATAÍ/DIVULGAÇÃO/JC

A solução exige pressa. O cenário dos últimos 10 anos não representa custo apenas para o tratamento da água que abastece a população. Imagine que uma indústria seja como uma casa. Significa que, antes de beber a água captada diretamente do rio, seja necessário passar pelo filtro. Quanto melhor estiver a água, menor a necessidade de filtrar antes do uso. A estimativa da CNI é de que, para cada R$ 1 investido na melhoria de redes e do tratamento de esgotos, R$ 2,50, que hoje são custos à produção, podem ser revertidos em investimentos.

"Nosso papel não é apenas o de investir no tratamento, mas também de trabalhar na conscientização de todos os usuários da água do quanto é importante estar ligado à rede de tratamento. É o papel de cada um para não apenas melhorar ambientalmente a região, como também para garantir mais emprego e movimentar melhor a economia", acrescenta Ângelo Mendes.

O Rio Gravataí tem situação alarmante, porque está entre os mananciais de 44% das cidades brasileiras que têm capacidade ruim, péssima ou nula para diluir a carga de poluentes que recebe, e ainda concentra um bolsão industrial produtivo. Para uma indústria funcionar na região, ela precisa incluir nos seus custos o tratamento prévio da água antes do uso nos seus processos internos. E aí o rio pesa na planilha de quem investe.

Conforme as declarações de empresas locais no Sistema de Outorga de Água do Rio Grande do Sul (SIOUT-RS), da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema), as indústrias do Vale do Gravataí que captam água diretamente do rio ou de arroios da região retiram pelo menos 1,5 bilhão de litros de água por ano - mais de 800 piscinas olímpicas - e representam 3% demanda.

Mesmo com sistemas cada vez mais modernos para reuso de água, gigantes como a Prometeon, que retira água do Arroio Demétrio, um dos principais afluentes do Rio Gravataí, consome, conforme a sua declaração ao SIOUT, 10,5 mil litros de água nas instalações para produzir uma tonelada de pneus.

Captação em locais mais distantes para "fugir" do Gravataí também custa caro

A crescente deterioração do Gravataí causa insegurança hídrica para a produção não apenas pela qualidade da água. Nos últimos verões, para garantir o abastecimento público, por exemplo, tem sido comuns as suspensões de captações de água para a indústria e a agricultura.

Já no final da década de 1990, este tema esteve no centro das discussões do investimento que mudou o perfil econômico da região, quando a General Motors optou pela instalação em Gravataí. Ao invés de ter em seu projeto um ponto de captação de água no Rio Gravataí ou em algum arroio afluente, a montadora teve como uma das garantias o fornecimento de água já tratada, mas não havia infraestrutura pronta naquela região da cidade. Foram quase R$ 8 milhões em investimentos públicos para a Corsan instalar uma nova estação de captação e de tratamento junto ao Complexo Industrial Automotivo. Hoje, 4% dos clientes da companhia são do setor industrial.

Conforme os dados do SIOUT, a Corsan retira, trata e distribui em torno de 200 milhões de litros de água por dia do rio, e abastece pouco mais de 600 mil pessoas. O esgotamento do Rio Gravataí nos últimos anos afastou até mesmo a companhia de saneamento, que capta água do Arroio das Garças - um antigo leito histórico do Gravataí, hoje territorialmente fora da bacia hidrográfica, em Canoas - para garantir água a parte da população da região.

A "fuga" do Gravataí, porém, não representa uma economia tão significativa para quem deixa de captar do rio. E encarece também o uso da água ao consumidor comum. Conforme o ranking do saneamento de 2021 do Instituto Trata Brasil, Canoas -
R$ 7,57/m³ - e Gravataí -
R$ 7,42/m³ - têm as duas tarifas médias mais caras por água tratada entre as 100 maiores cidades do Brasil. Seja pela maior demanda de produtos para o tratamento da água do Rio Gravataí ou pela distância maior para captar, o custo, segundo o instituto, é carregado para o usuário.

A despoluição e a regulação do regime hídrico do Rio Gravataí, que são os objetivos dos investimentos esperados para esta próxima década, terão o potencial de reduzir o custo deste tratamento e distribuição.

Avanço no tratamento impulsiona construção civil

Estação de Tratamento de Esgotos na bacia do Gravataí minimiza a poluição do rio e atrai investimentos
Estação de Tratamento de Esgotos na bacia do Gravataí minimiza a poluição do rio e atrai investimentos
/Ambiental Metrosul/DIVULGAÇÃO/JC

O setor imobiliário deve ser o primeiro a sentir o impacto dos esperados investimentos no saneamento. Desde 2018, todo novo loteamento residencial, para ser licenciado no Vale do Gravataí, precisa garantir a construção de estrutura de tratamento de esgoto ou de rede para levar os efluentes até uma estrutura já existente. Em Gravataí, somente 25% do esgoto é tratado, e a expansão urbana é prevista justamente para a região menos atendida por esta estrutura, ao longo da RS-030. Aí, os grandes empreendedores dão conta da exigência, os demais, ficam à espera.

"Já perdemos muitos investimentos por essa falta de estrutura na cidade. Mais de 15 empreendimentos imobiliários desistiram de investir aqui, e temos pelo menos seis em compasso de espera", afirma o prefeito Luiz Zaffalon.

Com obras já previstas pela Corsan, os bairros de Gravataí no entorno da RS-030 devem estar ligados à rede de coleta de esgoto até o final de 2023. Desde o começo do ano, a Ambiental Metrosul informa estar avançando em 4 mil ligações na cidade.

Conforme levantamento do Instituto Trata Brasil, um imóvel com estrutura completa de saneamento, na mesma região de outro, sem estes recursos, costuma ser até 18% mais valorizado. A estimativa do instituto é de que, no Rio Grande do Sul, caso as ações previstas a partir do Marco Legal do Sanemanto avancem como está previsto no Vale do Gravataí, a valorização média de todos os imóveis locais será de 4,1%.

Com mais de 2 mil casas, o Residencial Breno Jardim Garcia, considerado o maior loteamento popular do programa Minha Casa, Minha Vida do Sul do Brasil, fica em Gravataí, justamente na região não atendida pela coleta de esgoto. Para que o projeto de R$ 132 milhões saísse do papel, a construtora precisou incluir no projeto uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) própria, além de novo reservatório para garantir o abastecimento do novo bairro.

"Tudo isso encarece o produto final. Ao longo da RS-118 e da RS-030, temos diversos investidores aguardando as primeiras obras da PPP para darem início às suas ações. Para a cidade, isso vai gerar aumento de arrecadação e empregos", aponta o prefeito.

Segundo Zaffalon, o setor imobiliário responde atualmente entre 10% e 12% da geração de impostos da cidade.

De acordo com o vice-presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon-RS), Sérgio Bottini, o custo de uma estação de tratamento simples para um condomínio de proporções não muito grandes, chega a R$ 1 milhão. No caso do Breno Jardim Garcia, em que a ETE tem cinco grandes tanques, o valor é cinco vezes maior.

Segundo a Corsan, atualmente o Vale do Gravataí tem 21 ETEs construídas por empreendedores imobiliários em operação. Todas elas seguindo padrões determinados pela companhia.

Uma década para mudar a economia do município de Alvorada de patamar

No bolo de investimentos previstos para a próxima década, há a expectativa de que a economia de Alvorada experimente uma transformação. Se por baixo da terra está a previsão de avanço no tratamento de esgoto, que hoje só chega a 18% na cidade, por fora, é projetado um dique com mais de 20 quilômetros de extensão, avaliado em R$ 228 milhões já pactuado com o Ministério de Desenvolvimento Regional, considerado pioneiro na América Latina.

De acordo com o diretor de incentivo e desenvolvimento da Metroplan, Dilson Pila da Silva, a diferença em relação a outras obras deste tipo está em erguer a estrutura dentro da cidade, desde a margem do Arroio Feijó, no limite com Porto Alegre, até as margens do Rio Gravataí, no eixo da RS-118, onde fica o Distrito Industrial. O objetivo é acabar com a rotina de alagamentos que inviabiliza investimentos em comércio e indústria em boa parte do território de Alvorada.

"O dique será a solução para um dos maiores problemas de Alvorada. Vai valorizar muito os imóveis e as áreas para investimentos na cidade. Somado ao que está previsto com a PPP do tratamento de esgotos, vamos, sem dúvida, dar um salto em infraestrutura. Em Alvorada, nós sentimos o reflexo na economia dos nossos problemas estruturais", afirma o secretário municipal de Planejamento e Habitação, Éder Fraga.

Alvorada tem o menor PIB per capita (R$ 12,9 mil) e o menor IDH (0,699) entre as nove cidades do Vale do Gravataí. Para que se tenha uma ideia, na outra margem do rio, ficam Cachoeirinha e Canoas, que foram beneficiadas na década de 1990 com um dique, literalmente abrindo seus territórios para o avanço construtivo. Canoas tem o PIB per capita de R$ 55,5 mil - mais de quatro vezes maior que o de Alvorada - e Cachoeirinha tem o IDH de 0,757 - 8% superior ao de Alvorada.

A estimativa é de que, a partir da super populosa Vila Americana, mais de 20 mil pessoas sejam beneficiadas diretamente pela obra estrutural. No entanto, ainda não há data para que as obras do dique iniciem. Desde 2019, o projeto concebido pela Metroplan tem o EIA-Rima sob análise da Fepam.

Por enquanto, Fraga garante que o governo tem preparado o terreno para uma mudança real. Desde que a Ambiental Metrosul começou a atuar em conjunto com a Corsan na cidade, por exemplo, a prefeitura recebeu entre 10 e 15 solicitações de viabilidade para grandes empreendimentos habitacionais.

"Neste último ano, investimos pesado para a industrialização de Alvorada. Temos uma legislação já adaptada e as melhores áreas para investimentos industriais próximas à RS-118. Por outro lado, também temos nos concentrado, nos últimos dois ou três anos, em limpezas constantes no Arroio Feijó, e os alagamentos diminuíram muito", aponta o secretário.

A segunda parte desta mudança, esperam os administradores do município, vem com a qualificação nas condições da mão de obra local, como consequência das ações em saneamento.

O Instituto Trata Brasil aponta que, para cada R$ 1 investido em obras de saneamento, é gerado R$ 1,22 na economia local, com um ganho médio diretamente relacionado a estas ações de pelo menos 3,8% na renda do trabalhador. O mesmo estudo aponta que a probabilidade de uma pessoa com acesso à rede de esgoto se afastar das atividades por qualquer motivo é 6,5% menor do que a de uma pessoa que não tem este serviço.

Quando se trata de rede de esgoto, os sistemas são regionais e integrados. No caso de Alvorada, os investimentos serão vinculados com Viamão. Lá, menos de 10% do esgoto é tratado. Não é coincidência que o PIB per capita local, de R$ 14,7 mil, seja superior somente ao de Alvoradas entre todas as cidades da região.

"São duas cidades com IDH bem abaixo da média estadual e nacional. Temos um ponto de atenção especial não apenas com o trabalho estrutural, mas na atenção à inclusão social, econômica e educacional desta população", diz o diretor-presidente da Ambiental Metrosul, Ângelo Mendes.

Em Alvorada, este trabalho socioambiental já iniciou nas comunidades próximas às estações de tratamento de esgoto. Em Viamão, parte do investimento foi antecipado, iniciando obras para 330 novas ligações à rede de esgoto.

Vizinha do rio, indústria investe em alternativas

Dana é uma das indústrias na bacia do Rio Gravataí
Dana é uma das indústrias na bacia do Rio Gravataí
/DANA/DIVULGAÇÃO/JC

Há quase 50 anos, a proximidade do Rio Gravataí foi um dos elementos de infraestrutura que norteou o início das operações do Distrito Industrial de Gravataí. A partir de uma das margens do manancial, hoje pelo menos 48 empresas atuam no distrito. Com a deterioração acelerada do rio, captar, tratar e devolver a água tratada se tornou um processo caro e, em se tratando do Rio Gravataí, muitas vezes insuficiente, como observa o diretor de marketing da Dana, Luís Pedro Ferreira.

"A água que captávamos precisava passar por todo um tratamento antes de ser usada nos nossos processos. Decidimos não depender mais disso e ainda ajudarmos na recuperação do rio. Agora, com essa possibilidade de universalização do saneamento, tenho certeza que toda a economia da região vai ganhar", conta.

A empresa instalada há 43 anos na cidade tem 1.200 funcionários no seu complexo e, há mais de 10 anos, não retira água diretamente do rio, mas consome a partir da Corsan. A inovação é que também não a devolve in natura, depois da sua estação de tratamento de efluentes.

Foi implantado o modelo Zero Efluentes. Depois de filtrados os materiais resultantes da produção, a maior parte da água é reutilizada e efluente não prejudicial ao solo é usado como fertilizante na área verde mantida pela empresa, com um processo de fertirrigação. Significa que a água está sendo devolvida através do solo para o lençol freático do Rio Gravataí. A iniciativa é premiada como uma das cinco principais ações sustentáveis da indústria brasileira.

"Ao invés de jogarmos a água pura para o rio, e ela servir somente para filtrar poluentes que são lançados sem controle por outros usuários, estamos alimentando o aquífero. Hoje, a reutilização de água na produção é de quase 100%, e a nossa ideia é inspirar outras empresas, inclusive as dedicadas ao saneamento, a fazerem o mesmo. Porque o esgoto pode ser uma fonte de energia na nossa região, e não só poluição e lixo", avalia Ferreira.

De acordo com o diretor, houve economia nesta mudança, mas, segundo ele, o princípio, e não o corte de custos, foi o que mais contou.

"Hoje a água que consumimos é tratada pela Corsan, mas é usada basicamente para abastecer as pessoas que trabalham aqui. Para o resfriamento de peças e usinagem, temos um sistema fechado de reutilização", explica.

De soja a gás, o Gravataí movimenta 12% da carga portuária gaúcha

Quase 50% das importações de Canoas até agosto deste ano, totalizando US$ 200 milhões movimentados, foram de adubos e fertilizantes. Parece estranho? Não para quem convive nos bairros Niterói e Rio Branco e tem um pequeno trecho de 2,5 quilômetros na foz do Rio Gravataí como vizinho.

Ali, entre cinco terminais portuários privados e ainda o Cais Marcílio Dias, que faz parte do Porto da Capital, está uma importante porta de entrada e saída da economia gaúcha.

Segundo o diretor do Porto de Porto Alegre, Bruno Almeida, o Rio Gravataí movimenta 12% de todo o fluxo hidroviário do Estado. Em 2020, foram 7,4 milhões de toneladas movimentadas entre fertilizantes, grãos e óleo de soja, combustíveis e gás. "A cada mês, retiramos das estradas até 300 carretas", comenta o gerente executivo de Suprimentos e Trading GLP, da Copa Energia, Marcos Paulo Ferraz.

A companhia opera desde abril deste ano no Terminal de Gás do Sul (Tergasul), que existe desde a década de 1960. A partir dali, explica Ferraz, ingressam no Estado 20% da demanda de gás de cozinha (GLP) da companhia para todo o Sul do Brasil. Carga que chega a nove toneladas mensais, com até três navios carregados com gás recebidos por mês.

Em 1977, Arlindo Bianchini, hoje com 80 anos, iniciou as operações da Bianchini entre a foz do Gravataí e do Sinos, também em Canoas. Esta ano, com a supersafra da soja, a empresa, que emprega 340 pessoas, lidera, ao lado da Oleoplan, o volume de carga movimentada entre os terminais privados do Gravataí.

Recebe a soja que vem por via rodoviária ou ferroviária do interior e beneficia o produto em farelo ou óleo de soja. No terminal, é feito o início da exportação, rumo a Rio Grande. Em média, explica Bianchini, são exportadas 700 mil toneladas de soja em farelo e óleo por ano em Canoas, com 12 a 15 barcos circulando por mês no terminal. Um rendimento que pode chegar a R$ 1,4 bilhão no ano.

"Pena que o rio não seja mais e melhor aproveitado para movimentar a economia. Entre os anos 1970 e 1980, tínhamos muito mais empresas na beira do rio. Fomos dos poucos resistentes, mesmo que esta seja solução logística muito mais barata", comenta Bianchini.

Faz parte da foz do Gravataí, em Porto Alegre, o trecho do porto chamado Cais Marcílio Dias, entre a antiga ponte do Guaíba e o limite com Canoas. A região, que hoje tem áreas cedidas para a Marinha, o Comando Ambiental da Brigada Militar e os clubes náuticos, tem uma área de expansão de 28 mil m². Segundo Bruno Almeida, há projeto de implantação de terminal de granéis líquidos no local.

Mas o setor tem problemas com a deterioração do Rio Gravataí, e o investimento esperado para os próximos 10 anos será fundamental. Na foz, a água é considerada de Classe 4 ou pior. Não bastasse a carga de poluentes que vem dos trechos mais altos em direção à foz, em Canoas, 59% do esgoto é despejado no rio sem tratamento e, na Zona Norte de Porto Alegre, ainda há o "reforço" de até 40% do esgoto descarregado entre as regiões dos arroios Areia, Sarandi e bairro Navegantes. Na prática, o grande obstáculo para a operação hidroviária no trecho é a dificuldade na dragagem. "O valor dessa dragagem pode triplicar pelo intenso monitoramento ambiental requerido", diz o diretor do porto.

Com uma dragagem mais barata e permanente, possivelmente a produtividade dos terminais aumentaria. "Hoje, só conseguimos operar com navios de até cinco metros de calado. Isso significa que eles operam com 30% da sua capacidade de armazenamento ociosa. Se tivéssemos um maior calado, ampliaríamos o uso do Tergasul", garante Ferraz.

Um plano para "fazer água" no Rio Gravataí

Rio Gravataí
Projetos para ajudar na preservação do manancial unem poder público, agricultores e ambientalistas
/PREFEITURA DE GRAVATAÍ/DIVULGAÇÃO/JC
Os registros do verão de 2005 mostram o pior retrato possível nas relações entre os usos econômicos da água do menor rio da região hidrográfica do Guaíba. O Gravataí literalmente secou em praticamente todas as regiões. O episódio, que alertou autoridades do Estado para o que acontecia no Rio Gravataí, expôs especialmente o setor arrozeiro, que tem o seu sustento na região do banhado e responde por 84% da demanda de água do rio, nas nascentes do manancial. Esta relação, porém, pode estar prestes a uma reconciliação.
Inciativa liderada pelo agricultor Marino Cestari, 72 anos, é encarada na região como o início de uma série de pequenas obras que prometem deixar aquela seca no passado. Desde o começo do inverno está concluído um minibarramento com pedras no curso do rio, na altura da Fazenda Quatro Irmãos, em Glorinha, à beira do Banhado Grande. A função é reter a água por mais tempo na região de solo alagadiço na parte alta do rio. E, com isso iniciar a regularização do fluxo de água para todo o restante do manancial.
"Precisamos recuperar o banhado. Quanto mais açudes e barramentos, melhor para o solo recuperar a característica de retenção de água. Com o banhado seco, o problema econômico é de todos, não só da agricultura", diz Cestari.
O projeto, custeado pelo agricultor, mas licenciado pela Fepam e aprovado pelo Comitê Gravataí - unindo ambientalistas e arrozeiros -, é a primeira experiência relacionada ao projeto da Metroplan que tem R$ 15 milhões do Ministério de Desenvolvimento Regional para que sejam erguidos 13 minibarramentos no trecho alto do rio. A intenção é que o manancial recupere as antigas características. No momento, a Metroplan aguarda liberação de parte do recurso para dar início ao EIA-Rima.
A necessidade de reconciliação é bem anterior a 2005. Na década de 1970, com planos de expansão da área plantada na região de banhados, o antigo Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) abriu um canal principal com 20 quilômetros que enxugou a água acumulada em boa parte do terreno alagadiço. "Virou uma espécie de ralo, que reduziu a característica do banhado de servir como uma esponja para o rio. Era essa esponja que garantia a liberação gradual de água no verão e no inverno. Sem ela, a água não fica no trecho alto do rio durante as chuvas, e, sem água retida, na seca, não tem água para todos e nem suficiente a para dissolver poluentes na parte urbana do rio", explica o geólogo Sérgio Cardoso.
Hoje restam somente 10% da área original dos banhados formadores do Rio Gravataí, e ainda assim a região responde por 1% do arroz produzido no Estado. Na safra 2020/21, foram semeados pouco mais de 10 mil hectares.
A relação do Vale do Gravataí com o plantio de arroz é antiga. Foi nas terras de Alberto Bins, hoje no território de Cachoeirinha, que surgiu o Irga. E mesmo com a péssima qualidade da água próximo à foz do rio, ainda há pequenas áreas de plantio em Canoas, Cachoeirinha, Porto Alegre e Alvorada. O que não se sabia há 50 anos, quando a ordem era avançar a lavoura, é que a insegurança hídrica provocada por aquela ação representa prejuízo a todos os setores econômicos.
"Nos últimos anos, com períodos de baixo índice pluviométrico, o debate sobre o uso e manejo racional da água tem sido maior. Isso levou produtores a diminuírem suas áreas, priorizando as de maior potencial produtivo, e também com a entrada da soja em rotação e valorização da pecuária", explica o coordenador regional do Irga, Vagner Martini dos Santos.
Segundo ele, 15% dos produtores ainda captam água do rio, enquanto 85% fazem uso de açudes. Ainda assim, em relatório sobre a qualidade do Rio Gravataí, a Fepam alerta que, entre 1985 e 2016, a área plantada aumentou 116%, e a piora na qualidade da água nos trechos mais altos do rio indica a alta no uso de agrotóxicos em uma área sensível como o Banhado Grande, desde 1998 uma Área de Preservação Ambiental (APA).

Um rio para se ver, conviver e navegar

Os números não chegam empolgar, mas Cachoeirinha tem 53% do seu esgoto coletado e tratado. Na região, fica atrás somente de Porto Alegre. Por isso, o prefeito Miki Breier (ouvido pela reportagem antes do seu afastamento) está com olhos no futuro. Sonha alinhar os investimentos desta próxima década com uma espécie de reencontro da cidade com o Rio Gravataí. E se Cachoeirinha tivesse um terminal de transporte hidroviário de passageiros? Ou se a população tiver no rio uma alternativa de rota turística?

O projeto existe. Em 2014, a Metroplan organizou o Plano Hidroviário Metropolitano, que considerou a possibilidade de avanço deste transporte do centro de Porto Alegre em direção ao Rio Gravataí, com a previsão inicial de terminais em Canoas, próximo à Arena do Grêmio, em Cachoeirinha, junto à ponte que limita com Porto Alegre, e em Alvorada, junto à foz do Arroio Feijó, também no limite com a Capital.

A avaliação na época foi de que os custos para manutenção do calado e a baixa altura sob a ponte da BR-116 não compensariam. No entanto, a possibilidade de uma rota turística ficou aberta. Dependendo, é claro, de uma transformação paisagística com ações de despoluição do trecho baixo do rio.

Há dois anos, a prefeitura inaugurou a Praça do Ecoturismo à beira do rio, com um pequeno atracadouro, exatamente no ponto em que seria o terminal na cidade. Há ainda pelo menos um projeto urbanístico de criação de uma marina em uma área privada de 4 hectares entre a Freeway e o rio.

"A origem do nosso município é a várzea do rio, que acabou esquecida por muitos anos.

Sobre o autor

*Eduardo Torres é jornalista, com passagens pelos jornais Zero Hora, Diário Gaúcho e Correio de Gravataí
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