Porto Alegre, domingo, 12 de setembro de 2021.
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Reportagem especial

- Publicada em 15h00min, 05/09/2021. Atualizada em 19h44min, 12/09/2021.

Indústria metalmecânica movimenta economia de Canoas

Com 400 empresas instaladas na cidade, segmento metalmecânico responde por 16,4% da arrecadação municipal de impostos

Com 400 empresas instaladas na cidade, segmento metalmecânico responde por 16,4% da arrecadação municipal de impostos


AGCO/DIVULGAÇÃO/JC
Eduardo Torres, especial para o JC
Canoas, vizinha de Porto Alegre, tem somente 0,2% da sua população em área rural. Está longe de ser uma cidade caracterizada pela vida no campo. Curiosamente, é dali que sai boa parte da força que movimenta o agro. Pelo menos cinco em cada dez tratores vendidos este ano no Estado têm origem na fábrica da AGCO, uma das líderes do mercado de máquinas agrícolas da região sul do Brasil e, conforme o Sindicato das Indústrias Metal Mecânicas de Canoas e Nova Santa Rita (Simecan), a maior expoente do setor metalmecânico do município.
Canoas, vizinha de Porto Alegre, tem somente 0,2% da sua população em área rural. Está longe de ser uma cidade caracterizada pela vida no campo. Curiosamente, é dali que sai boa parte da força que movimenta o agro. Pelo menos cinco em cada dez tratores vendidos este ano no Estado têm origem na fábrica da AGCO, uma das líderes do mercado de máquinas agrícolas da região sul do Brasil e, conforme o Sindicato das Indústrias Metal Mecânicas de Canoas e Nova Santa Rita (Simecan), a maior expoente do setor metalmecânico do município.

A indústria metalmecânica, segundo a Secretaria Estadual da Fazenda, é uma das molas propulsoras da recuperação econômica do primeiro semestre do Rio Grande do Sul, com um aumento de 200% na arrecadação de ICMS em maio deste ano, e de 116% em junho. A produção de veículos automotores, máquinas e equipamentos, por exemplo, responde por 15,5% do PIB gaúcho. Em Canoas está concentrada pelo menos 25% da produção do setor no Estado.
"Com certeza, em qualquer produto que o consumidor gaúcho compra, pelo menos um elemento da cadeia produtiva, desde a máquina que produz o alimento ou o carro até o termômetro que mantém um produto congelado, saiu de Canoas", aponta o presidente do Simecan, Roberto Machemer.
Conforme a secretária municipal de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Inovação, Simone Sabin, 16,4% de toda a arrecadação da cidade vem justamente das 400 empresas do setor metalmecânico. Com um acréscimo, como ela valoriza: o metalmecânico abre portas para novos investimentos no setor de serviços da cidade.
"Aqui nós temos material humano qualificado, empresas destacadas, interesse em investimento e a logística que nos favorece, por estarmos ao lado da Capital, junto do aeroporto e com contato a todas as saídas rodoviárias para as demais regiões do Estado e do país. Queremos expandir e nos aproximarmos de Caxias do Sul neste ramo. Para isso, ainda estamos limitados em infraestrutura e burocracia, mas temos trabalhado nessa aproximação com o poder público para derrubarmos essas barreiras", completa Machemer.

Setor garante grande fatia dos empregos da cidade

Liess produz equipamentos utilizados em cervejarias do Brasil e da América Latina
Liess produz equipamentos utilizados em cervejarias do Brasil e da América Latina
liess/divulgação/jc

Hoje, de acordo com a prefeitura de Canoas, mesmo com a crise provocada pela pandemia - que também atingiu em cheio o setor que depende do aço como principal matéria-prima - são 12,8 mil empregos diretos entre estas indústrias, ou 17% de todos os empregos da cidade. Trabalhadores que ajudam a contar a evolução do setor, como o atual gerente comercial da Liess Máquinas e Equipamentos, Anselmo Parisenti, de 64 anos. Ele chegou à fábrica em 1975, apenas três anos depois da empresa instalar-se em Canoas.

"Entrei como desenhista técnico e sempre participei ativamente do desenvolvimento dos produtos e intercambio com as empresas que por algum tempo detiveram o controle da Liess. Fui coordenador de projetos, gerente de engenharia e gerente técnico comercial até ocupar o meu atual cargo", conta Parisenti.

A Liess produz equipamentos de armazenagem, como tanques e tubulações, além de equipamentos utilizados na fase de produção de cervejas e refrigerantes. De Canoas, saem os materiais para cervejarias do Brasil e da América Latina.

A empresa, que chegou à cidade em 1972 com menos de 50 funcionários, hoje emprega 220. A maior empregadora do setor em Canoas é a AGCO, com 1.250 colaboradores. E a demanda é permanente, como demonstra o diretor-regional do Senai-RS, Carlos Trein. A cada ano, no Senai Canoas são formados, em média, 530 alunos entre cursos de aprendizagem industrial básica, e 75% deles são absorvidos pelo mercado local.

"Entre nós que moramos aqui, sempre tivemos a fábrica que hoje é da AGCO como um ícone na cidade, principalmente porque boa parte das metalúrgicas mais antigas encerraram as atividades. É difícil alguém em Canoas não conhecer uma pessoa que trabalha ou já trabalhou aqui. Quando cursei Engenharia Mecânica, por exemplo, já pensava em trabalhar com maquinário agrícola", conta Gilmar Hollerweger que, aos 46 anos, é gerente de manufatura na empresa.

Ele iniciou aos 20 anos, em abril de 1994, como estagiário de engenharia na área de manutenção da fábrica que, à época, era a Massey Ferguson. Nascido em Esteio, há 20 anos Hollerweger também mora em Canoas.

"Tudo mudou na fábrica desde então, e cada vez mais rapidamente. Na época ainda lidávamos basicamente com mecânica. O produto final tem muita eletrônica embarcada, muita evolução em comunicação e modernização", comenta o engenheiro.

O início da cadeia produtiva no chão de fábrica

AGCO é hoje a maior empresa do setor com instalações no município
AGCO é hoje a maior empresa do setor com instalações no município
AGCO/DIVULGAÇÃO/JC
A transformação de metais compreende desde serviços intermediários, como fundições, forjarias, oficinas de corte ou soldagem até a produção final, como bens de consumo, equipamentos, máquinas, veículos e material de transporte. Em Canoas, todas as etapas desta cadeia estão representadas. Uma história que remonta à década de 1950. Um dos pioneiros foi o setor de máquinas agrícolas, quando a primeira onda habitacional na zona norte de Porto Alegre empurrou projetos industriais para os municípios vizinhos.
Em 1952, sócios de uma distribuidora de automóveis perceberam o movimento e compraram um terreno no que viria a ser o Bairro Industrial, em Canoas. "Eles foram visionários, e já compraram o terreno com planos de se associarem a uma grande fabricante de máquinas", conta o atual diretor de operações da AGCO para a América do Sul, Alexandros Aravanis.
Oito anos depois, estabeleceu-se a parceria entre a Massey Ferguson e a Minuano, inicialmente, para a estamparia de implementos. Em 1969, a fábrica passou a produzir colheitadeiras. A partir de 1996, com a aquisição da Massey pela norte-americana AGCO, Canoas produz exclusivamente tratores. "Temos hoje a liderança na produção de tratores de baixa e média potência na América do Sul", valoriza Aravanis.
E a permanência na cidade, com planos de crescimento, é resultado justamente da cadeia que foi construída em mais de seis décadas na cidade. Um sistema que movimenta desde as gigantes do setor até pequenas e resistentes indústrias, como a Imecal, do empresário Melchiades Antônio Cervo, de 80 anos.
"Trabalhar neste setor é uma vocação. Faz mais de 40 anos que estou nisso, primeiro, com a venda de máquinas operatrizes, depois abrindo uma pequena empresa para manutenção industrial e pequenas e médias séries de peças para o mercado", conta.
Em 1996, Melchiades e o seu sócio decidiram sair de Porto Alegre. Instalaram-se em um terreno no Distrito Industrial Jorge Lanner, que surgia naquela época, para empresas pequenas e médias como a dele. São 30 pessoas empregadas na Imecal, que tem como carro-chefe a manutenção de peças.
"A competição, sendo uma empresa pequena neste meio, é enorme. Por isso, temos que nos modernizar sempre. No ano passado, investimos na ordem de R$ 1,5 milhão para termos duas novas máquinas", explica Melchiades. A maior parte da demanda para a Imecal vem da indústria de maquinário agrícola.
"Temos aqui uma boa base de sistemistas e fornecedores, que se desenvolveram em todas essas décadas de atuação em Canoas. Além disso, estamos em um grande mercado consumidor, que é o agro na Região Sul. Canoas é um lugar estratégico para nossas operações", valoriza o diretor da AGCO, Alexandros Aravanis.
Os números recentes mostram o quanto o mercado aqueceu. Neste ano, há um aumento de 30% na produção de tratores e a receita, em relação ao mesmo período do ano passado, aumentou em torno de 80% entre todas as operações da AGCO na América do Sul.

Exportações de Canoas entre janeiro e julho de 2021

1º - Tratores: US$ 82,4 milhões
2º - Partes e acessórios de automóveis: US$ 9,89 milhões
3º - Transformadores elétricos: US$ 7,10 milhões
4º - Instrumentos e aparelhos de regulação: US$ 4,30 milhões
5º - Carrocerias: US$ 2,07 milhões
6º - Madeira serrada: US$ 1,82 milhão
7º - Máquinas de lavar louça, recipientes para lavar: US$ 1,59 milhão
8º - Aparelhos elétricos para telefonia: US$ 935 mil
9º - Outros móveis: US$ 787 mil
10º - Aparelhos mecânicos: US$ 696 mil

A força de Canoas

  • 25% da produção do setor metalmecânico gaúcho sai de Canoas
  • 8 dos 10 principais itens exportados pelo município são do setor metalmecânico
  • Canoas exportou US$ 119,86 milhões até julho, 61,3% a mais do que em 2020
  • 15º município exportador do Rio Grande do Sul

Tudo tem início com o aço, o insumo primordial

Na PS Zamprogna, o aço é transformado em chapas e perfis, sendo depois encaminhado a outras fábricas
Na PS Zamprogna, o aço é transformado em chapas e perfis, sendo depois encaminhado a outras fábricas
EDUARDO TORRES/DIVULGAÇÃO/JC
Diariamente, imensas bobinas, cada uma, com pelo menos 20 toneladas de aço, são descarregadas no enorme galpão industrial às margens da BR-116, no Bairro Industrial. É ali, entre as máquinas da PS Zamprogna, que a cadeia do setor metalmecânico de Canoas tem o seu primeiro processo. Aquele aço é transformado em chapas, perfis e cortado conforme a necessidade de cada tipo de produção - da indústria automotiva ou de peças, à moveleira ou a de fabricação de máquinas agrícolas.
"As fábricas, de um modo geral, não têm como receber essas bobinas e fazer a transformação. Precisam das chapas já transformadas e adaptadas aos seus padrões. É o que fazemos aqui", explica o proprietário da empresa, Paulo Sérgio Zamprogna. Com a pandemia e a explosão dos preços das commodities, empresas como a Zamprogna estão, como define Paulo Sérgio "entre o rochedo e o mar".
"O preço do aço, como outras matérias-primas, teve um salto neste período. Até tínhamos algum estoque, mas eu sou obrigado a repassar os custos. Alguns produtos que eu vendia a pouco mais de R$ 3 o quilo, hoje saem a mais de R$ 11. Mesmo assim, a demanda é constante e tem sido muito boa", conta o empresário.
Desde o começo do ano até junho, o preço da bobina de aço aumentou 69% no Brasil, enquanto o preço do aço laminado, desde junho de 2020, teve alta superior a 150%. Aços considerados especiais faltaram no mercado. Ainda assim, a produção na PS Zamprogna aumentou em torno de 30% no período.
"É um ambiente de muita insegurança. As commodities tiveram alta mundial pela redução de produção na pandemia, e de uma nova freada no começo deste ano. O aço que usamos aqui é, na sua maior parte, brasileiro, mas o setor siderúrgico é muito concentrado, com preços em dólar e com o imposto de importação em cima", explica o presidente do Simecan, Roberto Machemer.
A estimativa é de que, desde a produção do aço nas usinas até a chegada dele na indústria, passam-se três meses. A retomada acelerada do setor em 2020 causou um descompasso. Um levantamento da CNI no final de 2020 demonstrou que 70% das indústrias do setor já haviam retomado o ritmo de produção anteriores à pandemia. Com a dificuldade no começo desta cadeia, cada um teve que buscar uma solução. Na Imecal, por exemplo, o custo de produção na sua empresa, que trabalha o aço para especificações de peças aumentou 100%.
"Nós precisamos de aço com especificações únicas, e quando não há este produto no mercado, o nosso trabalho de usinagem para adaptar acaba sendo maior. Aí o custo de produção vai lá em cima", explica Melchiades Cervo.
Já a sul-coreana Dongwon, que desde 2019 produz em Canoas a moldura das portas para os carros da GM, depois de dois períodos de dificuldades para receber o produto já comprado antecipadamente, trocou seus fornecedores.
 

Produção industrial se adapta conforme os movimentos de mercado

Paulo Sérgio Zamprogna mantém um mix de fornecedores de aço
Paulo Sérgio Zamprogna mantém um mix de fornecedores de aço
EDUARDO TORRES/DIVULGAÇÃO/JC

Mesmo com o período de parada na produção citado acima, a demanda da GM seguiu em alta. Quem atesta é o Paulo Sérgio Zamprogna, que mantém um mix de fornecedores de aço para dar conta. A montadora está entre os seus principais clientes. Na última semana de agosto, por exemplo, ele tinha estocadas mais de 1,4 mil toneladas de aço para a produção dos carros de Gravataí.

Negócios como este têm impulsionado a Zamprogna e todo o setor metalmecânico de Canoas a se modernizar. Neste ano, a indústria instalou uma nova linha de produção, e seguirá investindo.

"A tecnologia do aço está sempre em evolução. Hoje, a indústria requer um aço cada vez mais leve, fino e resistente, e para chegarmos a este produto, precisamos de outro tipo de maquinário", comenta Paulo Sérgio Zamprogna.

Mudanças para seguir em alta no setor não são novidades para ele, que hoje emprega 100 funcionários com a produção trabalhando em dois turnos. Em 1988 a empresa foi instalada no Bairro Industrial, saindo de Porto Alegre.

"Aqui, tínhamos um terreno muito bom e um distrito industrial. Diferente de Porto Alegre, onde as áreas comerciais se confundiam com residenciais, e isso nos traria transtornos", recorda o empresário.

Logo na chegada, Zamprogna tratou de entender o mercado para se fazer necessário. Passou a produzir estruturas metálicas e manter uma linha de montagem de máquinas para as indústrias que atuavam em Canoas. Aumentou a estrutura e passou a processar o aço. Hoje, atende especialmente Rio Grande do Sul e Santa Catarina, mas vai além. Virou um sistemista do aço. A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Klochner Metals têm seus centros de distribuição instalados na estrutura da PS Zamprogna.

Dongwon depende de novos projetos da General Motors em Gravataí

Foi a logística e a disponibilidade de um prédio adequado que atraíram para Canoas, há três anos, um dos maiores investimentos do setor metalmecânico na década. A sul-coreana Dongwon investiu R$ 70 milhões para produzir, a partir da cidade, as chamadas door frames, que são as molduras das portas dos carros fabricados pela GM em Gravataí. A crise, que provocou a parada na produção do complexo automotivo, agora em fase de retomada, fez a empresa da Coreia do Sul considerar inclusive a reavaliação do seu investimento na cidade.
"A nossa operação está 100% atrelada à GM, então, a nossa permanência no Rio Grande do Sul e em Canoas depende de dois fatores: estarmos envolvidos em novos projetos da montadora, que tem mantido uma relação muito positiva conosco; e eventuais vantagens que nos vinculem a Canoas. Não estamos fechados a ofertas de outros municípios, ou que nos aproximem da GM", aponta o gerente da planta industrial, Diego Fernandes.
Desde que chegou, a Dongwon não recebeu qualquer incentivo do município.
A produção iniciou na cidade em setembro de 2019 e, no final daquele ano, saíam dali 1.300 peças por dia. Agora, com a retomada na produção das últimas semanas, saem 500. A crise também é refletida nos empregos. Quando iniciou a operação em Canoas, a Dongwon empregava 250 pessoas diretamente, e outras 30 indiretas. Hoje, são 184 diretas e 20 indiretas.
"Vamos ficar muito abaixo da nossa projeção para 2021. A média prevista deveria ser de 300 mil carros por ano, mas neste ano, se chegarmos a 140 mil, acredito que teremos motivo para comemorar", explica Bernardes.

Tecnologia gaúcha que auxilia no combate à Covid

Full Gauge mantém relação estratégica com o mercado externor
Full Gauge mantém relação estratégica com o mercado externor
FULL GAUGE/DIVULGAÇÃO/JC
Enquanto o mundo corria em busca da vacina contra o coronavírus, em Canoas, uma das expoentes do setor metalmecânico garantia uma parte importante neste processo. São da Full Gauge Controls, empresa que iniciou suas atividades em uma garagem de 20m² em 1985 e hoje emprega 300 funcionários no município, os controladores de temperatura que garantem a qualidade aos imunizantes do laboratório chinês Sinopharm, em um contrato com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Os equipamentos da Full Gauge, monitorados via internet, foram instalados em câmaras frias mantidas em Dubai, nos Emirados Árabes, onde a OMS tem o seu centro global logístico.
"A pandemia foi uma oportunidade para que os equipamentos fossem úteis neste esforço global, mas já vínhamos desenvolvendo ele para o controle de temperatura em câmaras frias específicas. Eram clientes com os quais nós já trabalhávamos", explica o vice-diretor comercial da Full Gauge, Rodnei Peres.
Os produtos da empresa canoense especializada em controladores hoje chegam a 60 países, o que garante, nos últimos dois anos, a Full Gauge como a quarta maior exportadora de Canoas. Dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços mostram que, entre janeiro e julho, Canoas exportou US$ 4,30 milhões em instrumentos e aparelhos para regulação de temperatura - 48,5% a mais do que no mesmo período de 2020.
O setor metalmecânico é o responsável por oito dos dez principais itens de exportação do município neste ano, e por todos os dez principais itens em 2020. Ao todo, Canoas exportou US$ 119,86 milhões até julho deste ano, 61,3% a mais do que nos primeiros sete meses do ano passado. O município é o 15º maior exportador do Rio Grande do Sul. A liderança local é dos tratores, que saem da AGCO e respondem por quase 70% das exportações da cidade. A empresa dedica 30% da sua produção em Canoas para o mercado externo.
No caso da Full Gauge, a relação com o mercado exterior é estratégica. A empresa mantém uma sede nos Estados Unidos e está em plena expansão em Canoas. Em 2020 a empresa experimentou um ano de alta lucratividade, com 30% de incremento, tendo ampliado 12,7% a sua produção.
"Nos últimos três anos, iniciamos uma estratégia de inovação com a produção de itens de maior valor agregado, não apenas controladores básicos. Expandimos nossa atuação para refrigeração comercial em áreas como supermercados, e ampliamos o perfil dos nossos clientes", detalha Rodnei Peres. Em Canoas, ao todo, serão investidos R$ 10 milhões em melhorias.
 

Diversidade da produção é marca do setor na cidade

Quando o presidente do Simecan, Roberto Machemer, comenta que, em qualquer produto consumido pelo gaúcho, há pelo menos um toque da indústria metalmecânica de Canoas, não é exagero. Se a produção local está no agro, no setor automobilístico, está até nas plataformas de petróleo em alto mar. E está inclusive na hora do churrasco. É que a diversidade da produção é uma das características do setor na cidade. Há seis anos, Murilo Vargas, que já atuava desde 2011 com a revenda online de facas e materiais de cutelaria, percebeu que havia demanda para que fossem atendidas as necessidades dos clientes por produtos mais personalizados e criou a Cutelaria Vargas.

O resultado, como conta o gerente Pedro Diehl, foi imediato. "Como já atuávamos no e-commerce, eu diria que seguimos um caminho inverso ao que a maioria tem seguido. Quando as vendas online cresceram, nós já estávamos neste ambiente", comenta.

Hoje, a cutelaria de Canoas está entre as maiores do Brasil e é uma das lojas oficiais do Mercado Livre. Toda a venda é feita por este meio. Não à toa, em 2020, em plena pandemia, as vendas da Cutelaria Vargas aumentaram 30% em relação a 2019. Com 21 funcionários, a empresa do Bairro São Luís garante a produção de facas exclusiva, com especificações como cabos personalizados ao uso do chamado aço damasco. E há os chamados modelos padronizados. São 20 deles, cada um em quatro ou cinco tamanhos.

As boas vendas ajudaram, por exemplo, a manter o preço mesmo com uma alta que chegou a 200% no preço do aço específico para a cutelaria no ano passado. De acordo com Pedro Diehl, não repassar os custos ao consumidor foi uma decisão da empresa, mesmo com um cenário preocupante.

Neste ano, afirma o gerente, os custos já tiveram nova alta de 50%. Por enquanto, e com a perspectiva de manter o mercado de facas personalizadas em alta, a Cutelaria Vargas espera fechar 2021 ainda mais aquecido.

Inovação para garantir futuros resultados

matéria especial polo metalmecânico de Canoas - fábrica da AGCO - massey ferguson
Após a pandemia, especialistas acreditam que próxima crise para o setor produtivo será a climática
AGCO/DIVULGAÇÃO/JC
Aos 27 anos, o engenheiro Pedro Hilzendeger chegou à AGCO há pouco menos de um ano, e tem no DNA aquilo que hoje é fundamental para as indústrias do setor metalmecânico: a inovação. Ele atua como engenheiro de processos e tem entre as suas atribuições os novos projetos para a adaptação à chamada indústria 4.0 e à transformação digital na fabricação de tratores.
"Toda a nossa atividade é voltada à melhoria de processos na produção. O gerenciamento de uma indústria hoje exige muito mais visibilidade e transparência da eficiência. É a partir das informações que a automação, a conectividade, a robótica e os sistemas ciberfísicos recolhem, que as decisões da empresa se tornam muito mais acertivas e rápidas", explica.
O resultado da adaptação das linhas de produção a um meio muito mais digital e automatizado se traduz em eficiência. Não é à toa. Analistas do setor já apontam que, após a crise da pandemia, na próxima década a indústria metalmecânica vai deparar com a crise das mudanças climáticas. A saída apontada é justamente o investimento em tecnologias digitais que criem novas respostas, com o uso inteligente de recursos naturais, sem perdas. A transformação digital do chão de fábrica é um dos pilares da mudança. No caso da AGCO, ela começou em 2007, como conta o CEO da Sequor, Alpheu Pereira Cardoso, também de Canoas, que trouxe para a indústria este conceito. Segundo ele, desde o início do trabalho, a empresa economizou R$ 200 milhões em seus processos, com um aumento de pelo menos 10% da produção.
Foram desenvolvidos dois softwares específicos. Um deles faz toda a testagem dos sistemas da cabine do trator, outro, testa o índice de patinação, que analisa a funcionalidade do câmbio e tracionamento. Entre as indústrias do setor metalmecânico de Canoas, a Sequor também atende à Midea Carrier, com os softwares da linha de montagem dos aparelhos de ar-condicionado.
"Não é um processo para eliminar as pessoas, mas para produzir mais rápido, com mais eficiência e redução de falhas. A nossa missão é conectar dados com dados, fazer uma máquina conversar com outra. Trata-se de gestão industrial de informações", explica Cardoso.
Segundo ele, a procura por especialistas como a Sequor para esta adaptação das plantas industriais já existente é crescente. No ano passado, a empresa criada em 2005 e que há cinco anos faz parte do grupo multinacional SNEF, faturou R$ 20 milhões, e a projeção é chegar a R$ 30 milhões neste ano.
"Quando se fala em indústria 4.0, a referência é a um modelo que começa do zero, com máquinas novas, próprias para uma indústria onde a informação transita normalmente de máquina para máquina, mas aqui, não é disso que se trata. A modernização que estamos experimentando é como um elo entre a velha escola e a 4.0, porque as máquinas e a fábrica antigas estão ali. Nossa tarefa é fazê-las serem mais eficientes", aponta o especialista.
 

'Queremos alcançar Caxias do Sul', diz secretária de Desenvolvimento

Imagem aérea de Canoas. Foto Arquivo Secom-PMC
Cidade quer ser destaque também em inovação e terá um data center de R$ 400 milhões
ARQUIVO SECOM - PME/DIVULGAÇÃO/JC
A aposta da prefeitura de Canoas para o futuro do setor metalmecânico é arrojada, como define a secretária municipal de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Inovação, Simone Sabin: "Queremos alcançar Caxias do Sul. Estamos parelhos em arrecadação, agora é o momento de modernizarmos e atrairmos ainda mais empresas para cá", informa ela.
E a estratégia se concentra em três frentes: política de incentivos, revisão do Plano Diretor para melhorias dos distritos industriais já existentes e inovação. Este último item é a menina dos olhos da atual administração de Canoas, com o fortalecimento do Parque Canoas de Inovação (PCI). Ali, já estão instaladas três empresas e está em fase de instalação a empresa O Quântico, que deve significar um marco para a atração de novos empreendimentos a Canoas, pela facilidade de terem lá o maior data center da América Latina, um investimento de R$ 400 milhões.
"Já temos projetadas cinco novas empresas a se instalarem no PCI em breve. É um movimento natural rumo à modernização da nossa indústria e de toda a nossa economia. O mercado exige isso, e Canoas está preparada", garante a secretária. Segundo ela, diariamente o município recebe de três a quatro sondagens de interessados em novos investimentos. E aí entra em ação outra das frentes econômicas do município.
"Temos em Canoas o Fumdecan. A empresa traz o seu projeto e nós avaliamos o que pode ser feito. Desde a facilitação no preparo de um terreno até isenções de impostos municipais, dependendo do interesse do município e da relevância do projeto", explica Simone Sabin.
Neste ano, duas empresas estão sob análise. O Fundo Municipal de Desenvolvimento de Canoas (Fumdecan) foi criado em 2011 e prevê isenção de ISSQN sobre edificações, isenção de até dez anos sobre o IPTU, além da devolução do valor pago pelo IPTU em até 18 meses. Há três anos, o município também reduziu a alíquota de ISSQN de 3% para 2,5% em 19 setores considerados estratégicos.
Atualmente, o governo municipal discute internamente, com a criação de um grupo de trabalho envolvendo diversas secretarias, e com o setor industrial possíveis adaptações ao Plano Diretor. Na pauta, estão revisões em regras de mitigação e de viabilidade para novos empreendimentos e ampliações dos já existentes.
Está em fase de estudos a expansão industrial nos atuais distritos. No caso do Bairro Industrial, onde o setor metalmecânico iniciou seu desenvolvimento na década de 1950, a intenção é ampliar as áreas particulares passíveis de construção industrial, com a criação de condomínios empresariais, que possivelmente barateariam a instalação de empresas.
Já no Distrito Jorge Lanner, no Bairro Niterói, as áreas são públicas e a ideia do governo é desmembrá-las, chegando a até 300 lotes, além de mudar o acesso, que atualmente passa por dentro do bairro residencial. Hoje, 65 empresas já estão operando no Jorge Lanner.

* Eduardo Torres é jornalista, com passagens pelos jornais Zero Hora, Diário Gaúcho e Correio de Gravataí
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