Porto Alegre, sábado, 31 de julho de 2021.
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Com a palavra

- Publicada em 10h00min, 31/07/2021. Atualizada em 18h51min, 31/07/2021.

Expectativa para 2022 é de acomodação do preço das commodities

Presidente da AEB diz que mercado internacional é imprescindível ao País

Presidente da AEB diz que mercado internacional é imprescindível ao País


ANTONIO PAZ/ARQUIVO/JC
Guilherme Jacques
Como tradicionalmente ocorre, a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) divulgou em julho a revisão da balança comercial para 2021. Entre os destaques, a elevação de 28,7% no valor previsto de exportações, o que deve significar patamar recorde, com valor na casa dos US$ 270 bilhões. Como consequência disso e do menor crescimento das importações, o superávit comercial também deverá ser destaque, atingindo US$ 68 bilhões neste ano. Entretanto, a marca não é sinônimo de comemoração propriamente dita. Segundo o presidente da instituição, José Augusto de Castro, a forte dependência brasileira da exportação de commodities não deixa o País em uma posição confortável. Para ele, é necessário que o Brasil busque protagonismo no cenário internacional a partir da venda de manufaturados, que, atualmente, são pouco competitivos. 
Como tradicionalmente ocorre, a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) divulgou em julho a revisão da balança comercial para 2021. Entre os destaques, a elevação de 28,7% no valor previsto de exportações, o que deve significar patamar recorde, com valor na casa dos US$ 270 bilhões. Como consequência disso e do menor crescimento das importações, o superávit comercial também deverá ser destaque, atingindo US$ 68 bilhões neste ano. Entretanto, a marca não é sinônimo de comemoração propriamente dita. Segundo o presidente da instituição, José Augusto de Castro, a forte dependência brasileira da exportação de commodities não deixa o País em uma posição confortável. Para ele, é necessário que o Brasil busque protagonismo no cenário internacional a partir da venda de manufaturados, que, atualmente, são pouco competitivos. 
Empresas & Negócios - O que mudou a partir de 2020 e levou a revisão positiva da balança comercial para este ano?
José Augusto de Castro - Se eu falasse sobre números, isoladamente, poderíamos dizer que o Brasil melhorou muito. Realmente, melhorou. Só que os números não foram melhorados graças a nossa atuação, foi o mundo que melhorou os números. O Brasil apenas atendeu uma demanda do mercado internacional e, a partir desse atendimento, houve um aumento de preço que, consequentemente, aumentou a receita. A mudança ocorreu, basicamente, em função do forte aumento das commodities. Prevíamos o aumento, mas não tão forte como veio, especialmente de petróleo e minério. Então, na verdade, quando olhamos para esses dados de comércio exterior, vemos dados isolados bons, mas a qualidade dos dados como um todo não é boa. Hoje, cerca de 75% do que o Brasil exporta são commodities. Não temos exportação de manufaturados. Ou melhor, temos, mas em escala muito pequena. Nos anos 2000, 50% de tudo que o Brasil exportava eram produtos manufaturados. No ano passado, esse número caiu para 26%. Ou seja, deixamos de gerar empregos no Brasil, deixamos de ter competitividade, porque temos o famoso custo Brasil. Isoladamente, é um bom resultado, mas sem qualidade. O que precisamos é melhorar a qualidade destes números.
E&N - Quais são as variáveis que compõem o cenário de forte oscilação destacado pela AEB?
Castro - Além da pandemia, temos um outro grande problema que é a questão do transporte marítimo. Eu sempre brinco que o Brasil é um país exportador de peso e eu gostaria que essa frase tivesse um duplo sentido. Peso em quantidade e peso em importância. Só que importância, infelizmente, nós não temos. O Brasil é o 29º país exportador do mundo. Isso não é condizente com a economia, que deve estar em 12º lugar em termos de PIB mundial. Então, temos quantidade, mas falta importância. E, por isso, surgiu um problema que foi a desconfiguração, se é que podemos dizer assim, do transporte marítimo internacional. Hoje, você tem um produto para exportar, mas você não tem contêiner, não tem navio disponível. Isso fez com que o custo do frete tivesse uma fortíssima elevação. O contêiner custava, em média, US$ 1,8 mil e passou a custar US$ 8 mil, às vezes, US$9 mil, cada um. Isso, sim, pegou o mundo todo desprevenido. Esse problema prevalece e faz com que tenhamos uma forte oscilação de produto. Um exemplo claro: as importações do Brasil estão explodindo de preço porque, simplesmente, está sendo necessário importar produtos que, antes, você comprava no Brasil. Com a falta de componentes e peças, você acaba tendo que comprar o produto todo, e não apenas a peça. Isso faz com que tenhamos um forte aumento das importações e o PIB brasileiro não cresce a ponto de justificar um aumento tão forte de importações como está ocorrendo agora.
E&N - Como amenizar esse cenário?
Castro - Só o mercado pode fazer alguma coisa. Não há país A, B ou C, é o mercado que vai ter condições de resolver. À medida que o mercado vai reduzindo pouco a pouco, vamos ajustando esse cenário. Até porque não há falta de contêineres, mas locais distintos onde está a carga. Não faltam navios, eles apenas reduziram. As rotas foram ajustadas para onde tem carga. O navio custa, hoje, US$50 mil por dia, em média. Esse navio só vai parar em um porto se tiver carga suficiente que justifique se gastar esse valor. Temos a expectativa que ao final deste ano, início de 2022, o mercado já tenha se ajustado a essa nova realidade.
E&N - Mas a nível nacional o que se pode fazer para aumentar a competitividade?
Castro - A primeira coisa é reduzir o custo Brasil, que é o grande gargalo que temos hoje. Esse custo aparece tanto na exportação de manufaturados quanto na exportação de commodities. A diferença é que, nas commodities, as cotações estão em um patamar tão elevado que ele é absorvido. Então, hoje, o Brasil exporta pouco manufaturado porque não tem preço competitivo. Nosso mercado de manufaturados é basicamente a América do Sul. Mas grandes mercados importadores, como Estados Unidos, Europa e Ásia, principalmente a China, são mercados que não compram daqui. Ou compram muito pouco. Então, é preciso trabalhar para reduzir o custo Brasil. Como? A reforma tributária é essencial, a reforma administrativa, diminuir custo de transporte, reduzir a burocracia de importação e exportação, porque tudo isso são itens que compõem o custo Brasil. É um problema que ninguém mais no mundo pode nos ajudar a resolver. Atualmente, são as commodities que fazem o Brasil continuar exportando.
E&N - Falando de commodities, qual a expectativa para 2022?
Castro - Essa é a grande questão. Temos receio de que, como este ano está crescendo muito, no ano que vem se tenha uma acomodação de preços, fazendo com que as exportações caiam. Como neste ano as commodities estão subindo muito, em 2022, a princípio não há mais espaço para crescer. Inclusive, a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) já anunciou que vai aumentar a produção de petróleo. Isso, com certeza, vai reduzir o preço do petróleo. E vai fazer o Brasil, que é um grande exportador hoje, reduzir a exportação. Não podemos esquecer também que, neste ano, com a elevação dos preços, a inflação mundial está crescendo. E estão tentando evitar que essa inflação tenha impacto na economia dos países mais desenvolvidos. Isso é mais um motivo para avaliarmos que a receita do Brasil deve cair, porque, afinal, cerca de 75% do que o Brasil exporta são commodities. Nosso desenvolvimento econômico depende mais do mercado internacional do que do Brasil. O mundo define quanto nós vamos exportar e por quanto nós vamos exportar. Ainda não fizemos as projeções para 2022, mas achamos que vai ter um menor superávit comercial e uma queda nas exportações. E as importações, se o Brasil tiver um crescimento de PIB neste ano, em 2022, as importações vão ter um crescimento.
E&N - Os países asiáticos - China, principalmente - continuarão sendo os maiores mercados para nossos produtos?
Castro - Por enquanto, sim, a China é o grande país importador de produtos fornecidos pelo Brasil, especialmente na área de commodities. Mas nós não podemos esquecer da Índia, que é um país que está crescendo muito. Eu brinco que a Índia é a China de amanhã, só que sem infraestrutura. A Índia tem mais de um bilhão de habitantes e um espaço territorial muito pequeno, comparado com a China. Então, tudo que ela precisa, ela tem que importar. Índia e China são dois mercados que somam quase 2,5 bilhões de pessoas
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