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Reportagem especial

- Publicada em 20h31min, 04/04/2021. Atualizada em 09h20min, 05/04/2021.

Crise ameaça casas noturnas do Vale dos Sinos

Fechada devido à pandemia, Inn Lounge Club é um 
dos dos nomes conhecidos nas baladas da região

Fechada devido à pandemia, Inn Lounge Club é um dos dos nomes conhecidos nas baladas da região


/Inn Lounge Club/Divulgação/JC
Felipe Faleiro, especial para o JC
Em dezembro do ano passado, uma usuária do Facebook perguntou, no grupo Novo Hamburgo Contemporânea, que tinha, no momento da publicação, cerca de 34 mil integrantes: "Quem lembra do Express Bond? Perto da antiga prefeitura?". Houve quase mil reações e mais de 400 comentários. A maioria das pessoas que respondeu lembra com carinho de uma época em que "borbulhavam" as festas temáticas nas casas noturnas no Vale do Sinos.
Em dezembro do ano passado, uma usuária do Facebook perguntou, no grupo Novo Hamburgo Contemporânea, que tinha, no momento da publicação, cerca de 34 mil integrantes: "Quem lembra do Express Bond? Perto da antiga prefeitura?". Houve quase mil reações e mais de 400 comentários. A maioria das pessoas que respondeu lembra com carinho de uma época em que "borbulhavam" as festas temáticas nas casas noturnas no Vale do Sinos.
E, se o leitor conhece esse grupo, sabe que perguntas assim se multiplicam na região. Express Bond, Happy End, Underground Disco, Adams Street, fora as boates pertencentes a sociedades, como as hamburguenses Atiradores, Ginástica e Aliança, a de Canto União (Cantun), em Estância Velha, de Canto Progresso, em Campo Bom, tinham seus nomes conhecidos não somente pelo público local.
Era comum que turmas formassem suas "caravanas" e rumassem de Porto Alegre, Caxias do Sul e tantas outras cidades do entorno para conhecer de perto as casas noturnas cuja fama ultrapassou as fronteiras do Vale. No auge, no começo da década de 1990, pelo menos cinco deles faziam sucesso ao mesmo tempo somente em Novo Hamburgo. Mas se é difícil precisar quantos haviam no Vale naquele período, mais fácil é recordar, com quem viveu no meio, de algumas de suas lendárias histórias, como no dia em que um encontro em uma casa noturna gerou um pedido de casamento 23 anos depois.
"Acredito que o momento atual, de privação de se reunir, gera um 'saudosismo' em relação à diversão entre amigos no passado. Relembrar as coisas boas é uma forma de reviver tudo isso", opina o advogado hamburguense Diogo Boos, 50 anos. Boos, também admirador de veículos clássicos, é um dos três administradores do Novo Hamburgo Contemporânea, e guarda, em casa, um convite do Underground, de cor dourada, e um cartão VIP do antigo Adams Street Bowling Bar. E, mesmo nestes tempos em que a dança do tempo parece ter parado seu ritmo, há quem preserve as lembranças como forma de afeto por uma época que não voltará mais.
Uma das casas mais antigas da região ainda existentes é o Abbey Road Bar, na avenida Pedro Adams Filho, uma das principais vias de Novo Hamburgo. O local, aberto em junho de 2000, é considerado referência em rock and roll no Vale. O Abbey, como é carinhosamente chamado, ainda hoje é gerenciado por seu fundador, Fernando Motta, 44 anos. Antes da abertura, Motta já era frequentador de espaços do gênero em outros locais, e o nome Abbey Road, imortalizado pelos Beatles, faz jus ao período de um ano em que ele morou em Londres.
"O rock se tornou um clássico, música para poucos. É necessário que o jovem tenha interesse em conhecer o gênero ou ser influenciado por alguém. Por isso, muito mais que clientes, nossa casa tem fãs", comenta. Hoje, o Abbey tem capacidade para 396 pessoas, segundo ele, e, seguindo os decretos estaduais, no momento está fechado ao público.

Diversão, histórias e nostalgia ocupam as pistas do Vale do Sinos

Galeria 304, em São Leopoldo, tem em seu DNA a presença marcante do público LGBTQIA
Galeria 304, em São Leopoldo, tem em seu DNA a presença marcante do público LGBTQIA
Galeria 304/Divulgação/JC
Pergunte a qualquer morador do Vale do Sinos com mais de 35 anos de idade a respeito do Talismã, Express Bond, Adams Street, Underground, Happy End, entre outras antigas casas noturnas que muito agitaram as noites da região. A resposta facilmente será baseada em um sentimento de nostalgia, dada a importância destes estabelecimentos na construção da identidade cultural do Vale.
Ainda que de grande parte dessas casas hoje reste apenas a saudade, o título de 'pistas de danças de excelência' permanece com o passar do tempo, tendo representantes como Inn Lounge Club, Abbey Road e Deck Haus.
Em toda essa linha do tempo, está um fato intrigante: há, e sempre houve, poucas mulheres envolvidas na produção das casas noturnas no Vale do Sinos. Brunna Kirsch, 31 anos, é uma das exceções. Hoje, ela é diretora de marketing da Galeria 304, casa localizada no Centro de São Leopoldo, e que tem, em seu DNA, a presença marcante do público LGBTQIA.
Este nicho, até poucos anos atrás, tinha relativa baixa representatividade nas casas regionais. "Acredito que a Galeria seja hoje a única que exista com esse perfil, Digamos que metade dos frequentadores era hétero e metade gay. Gente livre de preconceitos e menos exigente em relação a luxos. E talvez a galera mais descoladinha, na faixa de uns 25 anos e mais novinha", diz Brunna.
Há alguns anos, a região tinha outras festas voltadas a esta parcela dos frequentadores, por exemplo, nas casas noturnas hamburguenses Tr3s, que ainda existe, e Outside Club, cujas atividades foram encerradas em 2018.
Antes de atuar na Galeria 304, Brunna trabalhou na própria Tr3s, Na época, ela trouxe, na bagagem, a ideia de festas temáticas. A mais significativa delas tenha sido, talvez, o Baile Astral. "Vinham vans de Igrejinha, Gramado, e grande parte do público era de Canoas. Acho que o Vale viveu um hype forte de festas que atraíam as pessoas destes locais".
O sucesso do Astral foi tão grande no Vale do Sinos que o formato acabou "exportado" para casas de Porto Alegre, como o Cabaret, localizado na rua 7 de Setembro, no Centro Histórico da Capital, sempre com edições lotadas. No entanto, Brunna comenta que, em determinado momento, a oferta de festas no Vale foi tamanha que algumas se copiavam.
Itamar José Pacheco, o Ita, como é conhecido, 40 anos, trabalhou no Underground, em Novo Hamburgo e na Twin's, em Dois Irmãos, onde passou a ser gerente um tempo depois.
Em 2011, inaugurou a Velfarre, em Novo Hamburgo, que ficou aberta até 2014. "Sempre buscamos atingir o público de classe A, B e C em ambas as casas, e tínhamos como frequentadores empresários e jovens empresários. Era uma mistura bacana", recorda ele.
Ita diz que, hoje, o público tem se voltado a outros tipos de entretenimento, como pubs, cervejarias e espaços ao ar livre. "O mercado está diferente".
Recentemente, outro fator pode ter passado a concorrer com as casas: os aplicativos de namoro, como Tinder, Happn, Facebook Dating, nos quais é possível aos usuários flertar com outros sem sair de casa.

Talismã ocupa o posto de casa sertaneja pioneira no Rio Grande do Sul

No início de 1992, Paulo Ricardo Pioner e Rubem Andrade, o Rubinho, então DJ do Underground, abriram em Novo Hamburgo o Talismã, que ficou conhecido como a primeira danceteria sertaneja do Rio Grande do Sul. O sucesso foi imediato.
"As pessoas começaram a perguntar sobre música ao vivo, e fomos atrás de uma banda. Conseguimos uma com o irmão do Rubinho, que já tocava em bailes, e foi aí que surgiu o que chamamos de Talisbanda", conta Pioner. Segundo ele, tocaram no Talismã artistas como Rick & Renner, As Marcianas, João Paulo & Daniel, Tiãozinho & Alessandro, todos relativamente novos no cenário nacional nos anos 1990, além de atrações locais que buscavam seu lugar ao sol. "De 30% a 40% dos nossos frequentadores eram de Novo Hamburgo, e o resto de outros lugares, como Porto Alegre, Caxias do Sul, Gramado e Taquara".
No começo, às quartas e domingos, dias em que as duplas tocavam, e ainda havia o karaokê, a casa tinha boa presença de público. Com a banda, a lotação era ainda maior, e o Talismã chegava a receber por volta de mil pessoas nas sextas e sábados. Nos outros dias, de 600 a 800 pessoas, em média. A casa ainda passou por uma reforma geral e começou a concorrer com outras do gênero, abertas depois em Novo Hamburgo, como o Saloon, mas sempre teve um público fiel.
Pioner saiu do dia-a-dia do Talismã um ano e meio mais tarde, no segundo semestre de 1993, por "completo esgotamento", segundo ele. A casa trocou de sócios mais algumas vezes e fechou em definitivo por volta de 1994 ou 1995.
A época da inauguração do Talismã não poderia ser melhor, já que a febre das duplas sertanejas crescia no País todo, impulsionada pela mídia televisiva e rádios. Aí, na visão dele, residia o segredo para tamanha projeção na época.
"Investimos muito em anúncios nas emissoras e jornais locais, e isso fundamentalmente atingia este pessoal. Foi algo inédito, porque, até então, não existia outra danceteria sertaneja. E a maioria do público vindo de fora não foi algo exclusivo do nosso segmento. Novo Hamburgo não é uma cidade de grandes atrações, mas acredito que seja um polo importante para outros municípios do entorno", afirma Pioner.
A ideia de casas sertanejas depois também serviu de inspiração para locais como a Farm's, focada mais no estilo universitário, e que acabou fechada em agosto de 2020 devido à pandemia.
 

Os méritos que fazem a diferença e dão fama às casas da região

Prédio do antigo Bar Alternativo, na ERS-239, continua de pé, mesmo depois de dois anos do fechamento de um dos locais mais famosos da região
Prédio do antigo Bar Alternativo, na ERS-239, continua de pé, mesmo depois de dois anos do fechamento de um dos locais mais famosos da região
/Felipe Faleiro/Divulgação/JC
Diversos fatores contribuem para a história de sucesso das casas noturnas do Vale do Sinos. Geograficamente, Novo Hamburgo fica na metade do caminho entre a capital gaúcha e a Serra. Além disso, a região é um polo de importantes universidades, como a Feevale e a Unisinos. O Vale do Sinos também é cortado por movimentadas rodovias, a exemplo da BR-116 e da ERS-239.
Às margens desta última, a cerca de um quilômetro e meio do pedágio do município de Campo Bom, existia o Bar Alternativo, cujo encerramento das atividades, em fevereiro de 2019, depois de 17 anos aberto, ainda causa o sentimento saudosista em muitos de seus antigos frequentadores. Tanto que, em agosto do ano passado, a casa veio a público nas redes sociais negar qualquer pretensão de reabertura no mês de novembro seguinte.
Ainda hoje, há quem questione sobre o futuro daquele que foi conhecido pelos íntimos como "Alternas". A reportagem tentou contato com o proprietário, André Pedroso da Silva, mas ele não respondeu. Mas, ainda em 2019, no comunicado de seu encerramento, o Alternativo escreveu que "esta pausa não é o fim do nosso sonho".
Na ocasião do fechamento, havia rumores de que seria construído um condomínio no local, mas tudo indica que a ideia não saiu do papel. O prédio permanece lá, mas, da gigantesca placa na entrada do antigo estabelecimento, existe hoje apenas a estrutura de ferro. Ambos, quem sabe, aguardando o dia em que poderão recepcionar o público de toda a região novamente.
"Havia uma 'proposta' diferente nas casas noturnas do Vale do Sinos, o que, de certa forma, abria esta possibilidade de importar o público de outros locais", relata Alexandre Magno, que foi DJ de diversas casas antigas, como o Express Bond, onde havia um telhado de zinco que, eventualmente, abria durante as festas, permitindo que os frequentadores observassem o céu; Sauna, que funcionava junto à Sociedade Ginástica de Novo Hamburgo; e Underground.
Mas qual era esta proposta? Possivelmente, a mescla de um marketing eficiente com a qualificação dos próprios DJs, que viajavam em busca de tendências musicais de outros locais para tocar nas boates hamburguenses, numa época em que facilidades da internet não existiam.
"O DJ do Boliche (Adams Street) ia para São Paulo buscar músicas", relata Giovani Pereira, o Caju, 45 anos, atual comerciante, e antigo DJ do Express Bond e Vagão, na Sociedade Aliança.
Outra casa noturna, o Underground, também hamburguense, era frequentada pela "elite". Outros tempos, afinal, em que até a moda era outra. "Para se ter uma ideia, o pessoal ia para o 'Under' de terno e gravata. E reza a lenda que no Boliche (Adams Street), o dono tinha contrato com as maiores agências de modelos da região. Então as meninas iam lá para fazer o 'chamarisco'. Vinha também muito jogador de futebol para cá. O nível era fantástico", lembra Caju.
O músico e professor do curso de Produção Audiovisual da Universidade Feevale, Francisco Pereira, também acredita que a proximidade de Porto Alegre tenha influenciado no sucesso das casas do Vale, e acrescenta mais opiniões. "A qualidade dos estabelecimentos, e por ser um pouco mais barato que a Capital, por uma questão natural, é algo que sempre atraiu muita gente para estes locais daqui. O público das cidades vizinhas acabava se reunindo em São Leopoldo e Novo Hamburgo", comenta ele.
Pereira ainda afirma que as bandas ao vivo eram outro fator de interesse. "Eram de alta qualidade, e as pessoas às vezes iam ao local por causa desta banda, ainda que muitas vezes elas tocavam covers mesmo."
 

Tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria, apertou o cerco na fiscalização

A tragédia na Boate Kiss, em Santa Maria, em janeiro de 2013, ocasionou uma mudança importante nas legislações estadual e federal em relação à responsabilização de sinistros dentro das casas noturnas. A reportagem encaminhou alguns questionamentos sobre o assunto ao quartel do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul em Novo Hamburgo. "A responsabilidade foi dividida entre os entes envolvidos, engenheiros e/ou arquitetos, proprietários e o Corpo de Bombeiros Militar. Com isso, houve uma maior disseminação da informação referente ao assunto, assim sendo, trouxe mais segurança à população", afirmou o CBMRS, em nota.
Já desde aquela época, houve o reforço na importância de construir bons sistemas de evacuação e segurança, padronizar altura e capacidade máxima de lotação, para o caso de haver imprevistos como este. De toda forma, há diversas normativas técnicas que, atualmente, estão padronizadas para este intuito. Recentemente, a região teve um susto que, por pouco, não resultou em um grande acidente. Em março de 2019, uma danceteria onde estavam cerca de 350 pessoas teve um princípio de incêndio no bairro Liberdade, em Novo Hamburgo. Um DJ animava a noite no local. Não houve feridos, e, na época, o curto-circuito que pode ter causado as chamas destruiu o medidor de luz da casa noturna. Graças à ação rápida da corporação, o fogo foi controlado rapidamente e o público saiu às pressas.
O próprio Corpo de Bombeiros é o responsável por fiscalizar o cumprimento das normas de segurança, especialmente em razão da Lei Kiss, como ficou conhecida a Lei Complementar estadual 14.376/13, norma à qual as casas noturnas em geral devem se adequar imediatamente. Demais estabelecimentos públicos e privados ganharam quatro anos, a partir do final de 2019, para realizar as adequações necessárias. "Devido à peculiaridade desta ocupação, a fiscalização é rigorosa em todos os atos administrativos do processo de licenciamento da edificação e no decorrer do período de funcionamento", garante o CBMRS. As penalidades para o descumprimento da normativa começam com uma advertência e terminam na interdição e embargo dos imóveis, em caso de reincidência, além de multa na infração gravíssima que pode chegar a R$ 2.962,13 (140 Unidades de Padrão Fiscal, UPFs, em valores de 2021).
 

Setlists mantêm ativo clima das casas noturnas

Prédio no Centro de Novo Hamburgo, hoje abandonado, abrigou diversas referências boêmias, como o Happy End, Billboard e Gênesis
Prédio no Centro de Novo Hamburgo, hoje abandonado, abrigou diversas referências boêmias, como o Happy End, Billboard e Gênesis
/Felipe Faleiro/Divulgação/JC
O DJ Carlos Eduardo Soares, o Kadu Soares, 43 anos, tinha um sonho. "Tocar no Happy End, uma das casas mais conhecidas e badaladas da região. Um dia, eu e outros amigos DJs passamos na frente do Happy e eu disse para eles que tocaria ali", afirma ele. Kadu começou a frequentar as festas do local com apenas 14 anos de idade. E foi por meio de Paulo Renato Alves Marques, o Paulão, que o desejo do DJ se tornou realidade, algum tempo depois desta conversa com os amigos.
Na época, Marques era um dos dois sócios da casa, e antes disso, foi gerente do Express Bond. Neste ponto, também é digno de nota Jorge Valter Muller, popularmente chamado de Mestre Beleza, e o então disc jockey do Happy. Foi ele quem fez contato em uma sexta-feira para que Kadu ajudasse a tocar ainda naquele mesmo dia. Acabou que o DJ, de fato, tocou lá por três anos.
O Underground funcionou entre os anos de 1991 e 2000; a Coqueluche, matinê da Sociedade Atiradores hamburguense, é um pouco mais antiga: ficou aberta entre 1989 e 1994. O Adams Street abriu em setembro de 1995 e encerrou suas atividades em junho de 2001. Já o Happy End teve duas fases: abriu em 1990 e fechou em 1992, na avenida Nicolau Becker. No mesmo ano, reabriu na rua Domingos de Almeida, esquina com a Silveira Martins, e fechou em 2005.
O antigo prédio, hoje abandonado, tem história: ali funcionava primeiramente a fábrica de malas Schilling & Lampert, no final dos anos 1950, depois a empresa Calçados Nério, e em seguida a casa noturna Bad Wolf, antes de abrigar o "segundo" Happy.
Depois, ainda outros dois estabelecimentos do gênero: a Billboard e por último, a Gênesis. Portanto, é notória a ideia de que a região, e especialmente Novo Hamburgo, era recheada de casas noturnas, cada uma com seu estilo musical.
O clima da maioria delas é emulado no perfil de Caju em setlists temáticas no site Mixcloud. Na que homenageia a Sauna, tem Alphaville, Nena e David Bowie. Na Coqueluche, os sucessos de Clericó Con Cola, Terra W.A.N e The KLF. O Happy End é representado por Not Real Presence, A.B. Logic e 2 Unlimited. No Express Bond, tem B.G. The Prince Of Rap, C C Music Factory e S' Express.
Na playlist do Vagão, General Public, Culture Club e Ice T. No Underground, Jamiroquai, Robin S e Everything But The Girl. E no Adams Street, selecionou Funky Green Dogs, The Tamperer e Sweetbox. "Costumo dizer que têm coisas que tocaram no mundo inteiro, mas há músicas mais pontuais; então o que era ouvido no Bond não era no Vagão, ou na Coqueluche", exemplifica.

Vagão, a boate cinquentenária de Novo Hamburgo

Casa noturna surgiu depois da Baiúca, empreendimento idealizado pelos irmãos gêmeos Pedro e Paulo Scherer
Casa noturna surgiu depois da Baiúca, empreendimento idealizado pelos irmãos gêmeos Pedro e Paulo Scherer
/Vagão/Divulgação/JC
A Sociedade Aliança fica no bairro Hamburgo Velho, e tem, entre suas atrações, o Monumento ao Imigrante, construído em 1927, para celebrar o centenário da imigração alemã no Rio Grande do Sul, comemorado três anos antes. O Aliança é uma fusão de três sociedades, sendo a mais antiga delas fundada em 1888, e fica no primeiro lote colonizado de Novo Hamburgo.
Ali, funciona ainda hoje, resistindo às mudanças do tempo, a boate Vagão, aberta em 1969, na gestão do ex-presidente da sociedade, Júlio Sauter. "Foi a falta de opções para a juventude hamburguense se divertir que desencadeou a aparição do Vagão", conta o jornalista de Novo Hamburgo e ex-diretor de Comunicação do Aliança, Martin Behrend. De acordo com ele, os primórdios da casa vêm de outra, chamada Baiúca, idealizada pelos irmãos gêmeos Pedro e Paulo Scherer.
O Baiúca ficava nos fundos da casa deles, no bairro Rio Branco, mas logo ficou pequeno para tanta procura. "Vinha gente de Porto Alegre e Caxias do Sul, e era preciso buscar um novo endereço para embalar as noitadas", relata Behrend. Ou seja, já naquela época havia a procura de pessoas de fora da região pelas boates do Vale do Sinos.
Os Scherer, então, conversaram com associados do Aliança e foram convidados a conhecer a desativada linha de tiro do clube. O projeto para instalação da casa foi aprovado, por intermédio de Pedro Scherer, Maria Elena Schwan e o sócio dela, Oswaldo Portella. "A inauguração ocorreu numa festa de gala e muita expectativa", lembra Behrend.
Ainda assim, há relatos de protestos por parte de alguns membros da velha guarda do Aliança, que não aceitavam a instalação da boate. "O Vagão era um espaço pequeno, praticamente um corredor onde em uma das paredes foi pintada uma locomotiva. Todo mundo se aglomerava. A pista de dança era inspirada nas casas noturnas americanas, com luzes no chão", conta a atual presidente da Sociedade Aliança, Gabriela Streb.
Entre as festas mais marcantes realizadas pelo espaço, ela destaca uma, inspirada na novela Que Rei Sou Eu?, exibida pela Rede Globo em 1989. O evento no Aliança teve a participação dos atores globais Edson Celulari, Cláudia Abreu e Ísis de Oliveira, que interpretavam personagens na trama.

Amor que começou em casa noturna resultou em casamento

Katia e Caju se conheceram em uma balada há mais de 20 anos
Katia e Caju se conheceram em uma balada há mais de 20 anos
/Arquivo Pessoal/JC
Em 1993, Caju conheceu Katia Sandrine Schling na boate Estação Hamburgo, casa que substituiu o Express Bond ao lado da atual Câmara Municipal, na rua Almirante Barroso, esquina com a General Osório, também no Centro. Atualmente, no local, funciona uma unidade da rede de restaurantes Madero. Flertaram e "ficaram", e não se viram mais depois disto.
Depois de três meses, ela começou a namorar com outro homem, com o qual ficou casada por 18 anos. O DJ e comerciante também casou com outra mulher, porém os dois casais se separaram. Katia em 20 de janeiro de 2013; Caju 10 dias mais tarde.
Em 26 de maio daquele ano, o Abbey Road recebeu a banda Sunset Riders, de Porto Alegre. Caju e Katia se encontraram por acaso no bar, e ficaram juntos novamente. "Antes de ir embora, eu queria ver uma música linda que me marcou muito na época do Vagão.
Ela queria deixar o local, e eu insisti que somente iria quando ouvisse a música em questão", relatou ele. A música dita por Caju era The Promise, balada lançada em 1988 pelo trio britânico When In Rome, e cuja letra tem um trecho que diz o seguinte, em tradução livre: "Sinto muito, mas estou apenas pensando nas palavras certas para dizer/[...]/Mas se você esperar um pouco eu vou fazer você se apaixonar por mim".
O comerciante já tinha ouvido a versão da Sunset, e ele conta que Katia "pirou" ao ouvi-la. Depois disto, o casal não se desgrudou mais. Tempos depois, Giovani se tornou um dos músicos e responsáveis pela festa Balão Mágico, que relembra os hits das décadas de 1970, 1980 e 1990.
Antes da primeira edição do evento, no NH Hall, em junho de 2016, ele e um amigo voltaram ao Abbey Road para falar com a mesma Sunset Riders, a fim de que a banda se apresentasse no local. Caju conta que, em algum momento da madrugada, teve um estalo. "Imagina que punk seria eu dar as alianças para minha mulher na hora em que eles tocassem?", comentou ele.
Em duas semanas, com a ajuda da própria mãe, um e outro amigo, e ainda da Sunset Riders, o plano foi combinado. "Nem contei para o dono da festa", relatou ele. Enquanto a última música da banda era executada, Giovani pediu Katia em casamento em cima do palco, e ouviu o "sim" dela na frente de cerca de mil participantes. Até hoje, eles moram juntos.
"Foi algo muito bacana, pegou todo mundo de surpresa. E o mais legal é que eu fui o personagem principal desta história. Depois, tive uns dois ou três minutos para me recuperar e fui tocar", disse Caju. Após o fato, ele esteve envolvido em mais duas edições da Balão Mágico, que ainda hoje existe, e faria sua 9ª edição no começo de 2020.
Caju acabou por sair do projeto por divergências profissionais e resolveu investir no próprio equipamento. Já Katia tem atualmente 42 anos, bem como uma filha de 14 anos (enteada de Caju) e trabalha como analista de desenvolvimento.

As novas tendências das casas contemporâneas

Ter uma playlist eclética, com músicas de todos os gêneros para agradar os mais diversos públicos, passou a ser prioridade
Ter uma playlist eclética, com músicas de todos os gêneros para agradar os mais diversos públicos, passou a ser prioridade
/wirestock/freepik/divulgação/jc
O tempo passa, e a música permanece em constante mudança. Percebendo este movimento, diversos estabelecimentos foram abertos, buscando atrair estes diferentes nichos. "Nós, como DJs, precisamos nos adaptar às tendências da música, então tivemos axé, funk, pagode, sertanejo universitário, pancadão, e agora entrou a pisadinha", lista Caju.
"Sempre buscamos fazer nosso melhor, evoluindo a todo momento, transmitindo alegria para quem está aproveitando a festa. O objetivo maior do DJ é trazer felicidade às pessoas", comenta ele.
Um exemplo vem dos bailões, cuja importância no cenário noturno da região é inquestionável. Estas casas de perfil mais popular, até a pandemia, englobavam um público de todas as idades. Muitas delas, se não sua totalidade, faziam as vezes de casa noturna, trazendo "bandinhas" regionais na chamada "1ª pista" e música eletrônica, funk, sertanejo, entre outras recentes tendências musicais na "2ª pista".
Como são ambientes de trânsito livre, estava-se observando que muitos jovens também se tornaram fãs das bandinhas, já que os próprios grupos que tocavam na 1ª pista buscaram se renovar para atingir este público específico. Um exemplo é o Rainha Musical, de Ivoti, presença regional célebre, e que completa 100 anos de fundação em 2021. Dos oito integrantes da banda, seis têm menos de 35 anos, entre eles o vocalista, Maurício Lima, com 33 anos.
Exemplos de casas recentes e mais antigas neste segmento não faltam: Gigante do Vale - depois Club do Vale - e Clube da Dança, em Novo Hamburgo, Musik's Club, em Dois Irmãos, Salão Gewehr, em Presidente Lucena, StarClub, em Sapiranga, salões Persch e Flach, em Bom Princípio, entre outras.
Também de perfil popular, o Bonanza, depois BNZ Club, em Novo Hamburgo, funcionou entre 1992 e 2018, e segundo um dos sócios, Eliseu Venites, 52 anos, foi a casa noturna que esteve por mais tempo em atividade na região. O outro sócio é seu irmão Gerson Venites. "Trabalhamos muito com a fidelidade do público. Nosso alvo eram as pessoas das classes sociais B e C", comenta Eliseu. O BNZ, que funcionou em três locais diferentes, sempre atingiu seu objetivo de atrair muitas pessoas.
"Chegamos a concentrar de 30% a 40% do público total que buscava casas noturnas em Novo Hamburgo, uma vez que éramos unanimidade na região até o começo da década de 2000, quando ingressou o Alternativo. Nosso diferencial sempre foi oferecer o máximo de qualidade possível com menor investimento para os clientes, programação bem variada e muito cuidado com a segurança", relata Eliseu.
Pela relevância da casa, ele conta que sempre houve respeito por parte de proprietários de outras festas, tanto na troca de informações quanto de experiências. "Fomos muito recíprocos, inclusive na luta pelos direitos da classe". Depois que a casa fechou, uma empresa de eventos tentou emplacar um novo projeto, porém, "não vingou", diz Eliseu.
Francisco Pereira, músico e professor da Universidade Feevale, afirma discordar que as casas noturnas influenciam o público frequentador, ou que estes estabelecimentos se moldem conforme as preferências de quem os visita. Na visão dele, outros players têm preponderância neste sentido.
"Existe todo um sistema da indústria musical moldado em cima de uma cultura de consumo, feita em cima de grupos de mídia, como rádios, agora também grandes serviços de streaming, a exemplo do Spotify e YouTube, e também grandes veículos de TV, ainda importantes", ilustra.
Mesmo com a opção de entretenimento digital hoje, para muita gente não há como substituir o calor único das pistas de dança. "Estamos rezando para que tudo volte ao normal o quanto antes", comenta, com esperança, o DJ Régis Almeida.

Empreendedores relatam desafios, crises e oportunidades

Brunna cita medidas de combate à crise, como delivery
Brunna cita medidas de combate à crise, como delivery
/Galeria 304/Divulgação/JC
Em tese, a entidade que auxilia as casas noturnas do Vale em questões trabalhistas, como cálculo de dissídios, é o Sindicato de Gastronomia e Hotelaria - Novo Hamburgo, Estância Velha, Campo Bom, Sapiranga, Ivoti e Dois Irmãos (SindGastrHô). A reportagem buscou, junto ao sindicato, coletar dados sobre a quantidade atual de casas na região, mas seu presidente, Tomás Juchem, optou por não informar qualquer número.
Juchem disse ainda desconhecer a realidade atual dos estabelecimentos, já que, segundo ele, "não há participação" do setor nas atividades do SindGastrHô, ainda que o sindicato seja representante do mesmo. Porém, antes da pandemia, segundo o Corpo de Bombeiros Militar do RS, Novo Hamburgo tinha 21 casas noturnas cadastradas no sistema da corporação.
Tudo ia correndo bem no universo delas, mas havia algo com que produtores, DJs, trabalhadores e frequentadores da noite em geral não contavam: a Covid-19. Conforme mostrou outra reportagem do caderno Empresas & Negócios publicada há duas semanas, a recomendação do distanciamento social para evitar as contaminações atingiu o coração destes estabelecimentos.
Desta maneira, um retorno ao "normal de antes" parece impensável na atual situação de contágio acelerado. Produtor de casas como as hamburguenses Valen Club, de temática erótica, e INN Lounge Bar, com uma proposta mais voltada a um pub, Rafael Costa, de 38 anos, conta que, antes da pandemia, ambas eram negócios sólidos.
"Fizemos uma leitura rápida de que não voltaríamos em menos de seis meses, então usamos o caixa da empresa para pagar os direitos dos funcionários, para não correr o risco de deixá-los na mão. Já com nossos fornecedores, negociamos prazos e descontos", comenta ele. Fernando Motta, do Abbey Road, acredita não haver retomada a curto e médio prazos, porque, na visão dele, "não há interesse do poder público".
"Temos total noção das nossas responsabilidades e do risco que há, por exemplo, em uma casa noturna, ainda que 'oficial', ou seja, aquela que cumpre com todas suas obrigações em dia", afirma Motta.
De acordo com o proprietário do Abbey, muitas foram as ideias para a manutenção das atividades, mas, segundo ele, não houve diálogo, ou troca de ideias sobre a segurança destes estabelecimentos. "Nosso setor é marginalizado. Nunca a cultura foi prioridade em nenhum governo, nunca ganhamos nenhum benefício. Mas desta vez foi o extremo do descaso".
Profissionais agregados que também dependem da realização das casas noturnas abertas dizem que a Covid trouxe inúmeras complicações. É o caso de Rafael Atz, fotógrafo que vive em Estância Velha. "A pandemia freou diversos planos profissionais e pessoais na minha vida, como de adquirir novas coisas", afirma ele, relatando que precisou procurar um psicólogo e psiquiatra em razão do tempo em que permaneceu em casa.
Atz conta que, por volta de setembro de 2020, até havia retornado a trabalhar com fotos em pubs da região, contudo, com os novos decretos, novamente houve restrições que impediram o serviço. "Acho que as coisas vão voltar ao normal somente lá por junho ou julho, ou apenas depois que o povo estiver vacinado".
Um dos coordenadores do grupo Unidos pela Volta do Entretenimento RS, Laércio Jacoby, proprietário do Clube Tradição, de Canoas, acredita que, atualmente, os estabelecimentos do setor estão mais seguros do que antes, porém reconhece que a bandeira preta no Modelo de Distanciamento Controlado torna o trabalho das casas noturnas "inviável".
O grupo foi criado para pleitear, junto ao governo do Estado, soluções para uma volta segura das atividades em casas de shows, casas noturnas e eventos em geral. De fato, algumas ideias chegaram a ser discutidas e aprovadas. "Estamos confiantes de que, em breve, este cenário irá passar e poderemos recomeçar nossos trabalhos novamente com todos os protocolos seguros sendo executados e total segurança de nossos colaboradores e clientes", salienta ele.
Por enquanto, quem pôde se reinventar, o fez. No Abbey Road, por exemplo, Fernando Motta conta que estão sendo feitos leilões de quadros da casa e lives, entre outras atividades para obter renda e manter a operação. "Nosso público tem nos apoiado nesse momento em todas as ações que criamos a modo de não termos que encerrar as atividades", comenta ele.
Já Brunna Kirsch, diretora de marketing da Galeria 304, em São Leopoldo, diz que, no começo da pandemia, a Galeria 304 abriu um delivery de drinks e burgers, e a casa está sendo estruturada para se transformar em um pub, em um futuro próximo. "As festas em si acredito que ainda vão demorar um tempo", afirma ela. A Deck Haus, casa de estilo lounge de Campo Bom, abriu com boa presença de público, em 2020, e logo se viu às voltas com a Covid-19.
Entre as ações feitas após os decretos de fechamento, o local criou um kit especial, contendo uma caipirinha, um copo personalizado e um ingresso, válido para quando as festas puderem retornar. A ideia é arrecadar fundos para ajudar a manter vivo o estabelecimento, e, especialmente, oferecer ajuda financeira aos funcionários que não têm outras fontes de renda.
Segundo o gerente comercial, Cássio Braun, que trabalha há oito anos na área, dois dos atuais cinco sócios do Deck necessitam diretamente da renda dos negócios da casa para sobreviver.
"Dos 40 funcionários, uns 15 dependem de nós. Tínhamos certo faturamento, mas sobrava o suficiente. Quando fechou, não tínhamos como seguir pagando. Então fizemos alternativas para ganhar dinheiro agora, sem obter em troca, para ajudar em cestas básicas, alguma conta de luz. Agora, a gente está sem possibilidade de sonhar", afirma Braun, que, antes do Deck, exerceu a mesma função na Farm's.
Ele diz que deverá esperar até o final deste ano para ver como as coisas se ajeitam, caso contrário, afirma que irá "chutar o balde" e deixar em definitivo a área de eventos, indo buscar especialização em outro setor.
Apesar do horizonte ainda nebuloso, engana-se quem pensa que o mercado de casas noturnas não pode voltar com força no Vale. A reportagem apurou que, ao menos um grande empreendimento será inaugurado em breve em Novo Hamburgo, na mesma ERS-239 que, um dia, abrigou o Bar Alternativo. O prédio será no bairro Alpes do Vale e já está em construção.
No momento, a Covid-19 faz com que as casas noturnas do Vale do Sinos estejam mais silenciosas como nunca antes. E, para muitos profissionais, a reinvenção também passou a fazer parte do dicionário nos tempos atuais de pandemia.
Na falta destes estabelecimentos, alguns DJs, como Régis, Caju e Kadu, também realizam lives periódicas no Facebook, algumas delas solidárias, trazendo aos saudosistas daquela época um pouco do ambiente destes locais, mesmo que de maneira virtual. Tem dado certo, já que estas apresentações recebem grande engajamento.

*Felipe Faleiro

Jornalista formado pela Universidade Feevale, de Novo Hamburgo, Felipe Faleiro é nascido e criado no Vale do Sinos, trabalha desde 2016 como repórter em veículos da região.
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