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Empresas & Negócios

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Opinião

- Publicada em 03h00min, 20/07/2020. Alterada em 03h00min, 20/07/2020.

O lado negativo do home office

Lisia Prado
Sócia da House of Feelings
Sócia da House of Feelings
No começo, parecia um sonho: trabalhar de casa, não perder tempo com deslocamento, estar mais próximo à família e ter a chance de encontrar um equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Mas com o passar do tempo, o outro lado do home office (HO) vem aparecendo. E a tendência que estou observando nas empresas para o pós-pandemia é a adoção definitiva do trabalho remoto.
No Brasil, conforme estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o home office deverá seguir, mesmo após a pandemia, em aproximadamente 23% das ocupações do país, atingindo cerca de 20 milhões de trabalhadores.
Como psicóloga e especialista em gestão das emoções, é necessário falar sobre os cuidados que temos que ter ao adotar tal mudança. Como será daqui para frente se, por acaso, as empresas realmente seguirem a tendência de adotarem esta prática como sendo definitiva?
Por vários aspectos, conseguimos pensar em pontos positivos, tanto para os colaboradores quanto para as empresas. Pontos estes, que aparecem em várias pesquisas recentemente divulgadas.
Mas e outro lado, como fica? Dizem assim "casa é casa, trabalho é trabalho". Mas agora tudo se mistura, viveremos em um mesmo ambiente, os dois personagens. E a verdade é que a lista de consequências negativas do trabalho remoto também pode ser longa.
Começando pela criatividade coletiva, que é prejudicada. Um estudo da Universidade Stanford, da Califórnia (EUA) mostrou que o trabalho a distância pode ganhar em produtividade, mas perder em benefícios mais difíceis de medir como a criatividade e o pensamento inovador do grupo. E não podemos desconsiderar que a criatividade coletiva é uma das formas que está totalmente ligada ao desenvolvimento pessoal do indivíduo.
Além disso, o trabalho em grupo - com contato físico social - gera um aspecto que nunca nos atentamos muito: a síndrome de pertencimento. Sentir que pertencemos a uma comunidade, a um grupo com objetivos comuns, que está junto em batalhas e conquistas, alémdos desafios diários que são compartilhados. Esse sentimento é importante para evitar com que outros, como a sensação de solidão sejam evitados.
Sem falar do quanto à troca que se estabelece entre pessoas em um contato físico e constante faz diferença. Não adianta falar que as reuniões ou o happy hour através das telas dos computadores ou celulares têm o mesmo efeito. A vida social é prejudicada e o isolamento,a longo prazo, pode desencadear uma série de problemas emocionais, como inclusive impactar na autoestima.
Afinal, em muitos casos perde-se até o asseio, por não precisar sequer se arrumar para sair de casa e encontrar outras pessoas fora da intimidade do nosso lar. Pode não parecer tão sério, mas isso está diretamente ligado à maneira como nos vemos. Se, em 90 dias, já engordamos, paramos os exercícios, estamos mais tempo sentados e ansiosos, como será daqui para frente se tal medida for adotada?
A pessoa com uma boa autoestima tem uma visão positiva de si, acredita em seu potencial, sabe lidar com os seus limites, tem disciplina e não deixa se abalar por mudanças externas. Ela é o que é, independente do lugar ou situação.
E por último, o que não estamos nos atentando é que a insegurança e o medo de perder o emprego aumentaram por conta do isolamento e por todas as notícias que ouvimos de demissões e fechamentos de empresas, e isto faz aumentar ainda mais o engajamento e consequentemente a produtividade. A partir do momento que o medo permanece, nós nos mantemos mais disponíveis para o gestor e mais focados no trabalho, afinal de contas ninguém quer ficar desempregado. Quando o isolamento é situacional, nós (colaboradores) entendemos que a empresa está precisando da minha dedicação nesse período urgente ou atípico, pelo qual estamos passando, topamos a travessia, pois somos comprometidos com o trabalho, com o time e com os resultados.
Este cenário nos faz trabalhar por 10, 12, 14 horas ou mais por dia. Mas quando entendermos que o HO será permanente, como será toda esta disponibilidade? Iremos eternamente nos dedicar 12, 14 horas ao trabalho por estarmos em casa, já que os espaços se misturaram?
Obviamente que não. Teremos ajustes nesta relação de tempo e espaço. Fico pensando que na rotina de ir trabalhar no escritório, minha vida pessoal já interfere no trabalho e vice-versa. Então, como será esta relação quando eu estiver em casa e no trabalho em um só lugar? É uma equação complicada de se pensar, mas que precisa ser muito bem avaliada e discutida, para não ser mais uma tentativa em vão, do RH, e cair em descrédito no futuro.
Adotar encontros de uma ou duas vezes na semana no escritório será o suficiente para dirimir os danos citados acima? Acho que ainda teremos muito o quê aprender e ajustar ao longo do caminho.
A sensação que tenho é que estamos "pegando onda" em um modismo do HO, onde em muitos países o HO funciona, por vários motivos e um deles é cultura deste país. Mas, e no Brasil? Um país com pessoas relacionais, amigáveis, festeiras, que adora um cafezinho para jogar conversa fora, do calor humano, clima tropical, etc. Como será?
O meu papel aqui é questionar, por que temos muito o quê amadurecer antes de decidir sobre a vida das pessoas e não pensar nas consequências. Para mim, a melhor palavra neste momento é cautela.
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