Comentar

Seu comentário está sujeito a moderação. Não serão aceitos comentários com ofensas pessoais, bem como usar o espaço para divulgar produtos, sites e serviços. Para sua segurança serão bloqueados comentários com números de telefone e e-mail.

500 caracteres restantes
Corrigir

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Porto Alegre, segunda-feira, 23 de março de 2020.
Dia Mundial do Meteorologista.

Jornal do Comércio

Porto Alegre, segunda-feira, 23 de março de 2020.

Empresas & Negócios

CORRIGIR

reportagem especial

Edição impressa de 23/03/2020. Alterada em 23/03 às 09h01min

Campanha gaúcha, terra da carne

Complexo da Armour operou de 1917 até 1980, impulsionando o mercado de carne

Complexo da Armour operou de 1917 até 1980, impulsionando o mercado de carne


ACERVO ARMOUR/DIVULGAÇÃO/JC
Rafael Vigna, de São Borja*
Dois municípios da Fronteira-Oeste do Rio Grande do Sul escondem uma espécie de elo perdido do processo de industrialização da carne no Brasil. Separadas por 104 quilômetros, Santana do Livramento, na divisa com o Uruguai, e Rosário do Sul, vivenciaram simultaneamente, a partir de 1917, o apogeu e a derrocada, na década de 1980, de duas multinacionais que influenciaram profundamente o modo de produção dos frigoríficos.
Dois municípios da Fronteira-Oeste do Rio Grande do Sul escondem uma espécie de elo perdido do processo de industrialização da carne no Brasil. Separadas por 104 quilômetros, Santana do Livramento, na divisa com o Uruguai, e Rosário do Sul, vivenciaram simultaneamente, a partir de 1917, o apogeu e a derrocada, na década de 1980, de duas multinacionais que influenciaram profundamente o modo de produção dos frigoríficos.
A história tem como ponto de partida os últimos anos do século XIX. Enquanto o Rio Grande do Sul buscava a reorganização política e a evolução dos processos nas velhas estâncias da pecuária apontava para o charque como o principal produto regional, dois açougueiros norte-americanos, Gustavus Swift e Phillip Armour, foram para Chicago (EUA).
{'nm_midia_inter_thumb1':'', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5c6f03d777ac4', 'cd_midia':8634598, 'ds_midia_link': 'https://www.jornaldocomercio.com/_midias/gif/2019/02/21/banner_whatsapp_280x50px_branco-8634598.gif', 'ds_midia': 'WhatsApp Conteúdo Link', 'ds_midia_credi': 'Thiago Machado / Arte JC', 'ds_midia_titlo': 'WhatsApp Conteúdo Link', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '280', 'cd_midia_h': '50', 'align': 'Center'}
Ao seu modo, ambos inventaram uma indústria que dominaria o mercado até a década de 1950. O negócio consistia, inicialmente, em acondicionar carnes em barris de salmoura. Deste modo, abasteciam o Oeste - onde após o auge da Corrida do Ouro, em meados de 1860, milhares de famílias norte-americanas ainda estavam instaladas em condições precárias. Após o advento da refrigeração, uma década mais tarde, as distâncias diminuíram para os visionários, até então concorrentes.
A fórmula do sucesso ganhou contornos mais complexos e a aposta, a partir da primeira metade do século XX, incluía o controle de linhas férreas. Para isso, foi necessário inovar. Juntos Armour e Swift somaram forças com outras companhias do ramo: Morris, Cudahy e Wilson. Passaram a ser conhecidos como os 'big five', ou os cinco grandes, de Chicago. Há na literatura especializada quem os considere um oligopólio. Outros, preferiram chamá-los de cartel, caso da historiadora santanense Vera Albornoz. Ela é autora do livro Armour - Uma aposta no Pampa. A obra, elaborada como base de sua dissertação de mestrado, foi publicada em 2000.
Entre as relíquias que ajudam a reconstruir com riquezas de detalhes este período está um exemplar do 'Chicago Journal of Commerce and Daily Financial Times'. O periódico, datado de sexta-feira, 14 de outubro de 1922, traz notícias sobre o impedimento legal para o ingresso da companhia na Nova Zelândia, por práticas inaceitáveis naquele país.
Fato é que, da primeira aspiração logística do grupo até a expansão dos mercados ao redor do mundo, bastou apenas um passo. E é aí que o Rio Grande do Sul cruza o caminho das cinco companhias que, juntas, já detinham 90% dos abates bovinos da América do Norte.
Em 1917, a Armour aportou em Santana do Livramento, adquirindo a área de um grande saladeiro (charqueada). No mesmo ano, a Swift ancorou em Rosário do Sul. Chegaram ao Estado depois de terem passado pela região do Prata. Vera Albornoz relata, em seu livro, que, inicialmente, os norte-americanos estabeleceram-se na Argentina, fixando a base da operação em Buenos Aires após adquirirem o Frigorífico La Plata, num arranjo societário que envolvia a Armour, a Swift e a Morris.
Avançaram, sempre em direção ao Norte, em busca de gado. Arribaram no Uruguai com a compra do Frigorífico Montevideo, em 1911, e o Frigorífico de Artigas, em 1917.
Em Rosário do Sul, a Cia. Swift do Brasil S/A emergiu na área que anteriormente abrigava a Sociedad Union del Rosário, fundada em 1912. Em Livramento, não foi diferente: a Armour & Company adquiriu a antiga Charqueda Livramento, em funcionamento desde 1904. A partir daí, o charque deu lugar à carne enlatada ou "corned-beef", em inglês.
A meta era reproduzir o modelo implantado nos Estados Unidos, com bois em abundância, apesar das carências sanitárias da época, e uma estratégia de controle logístico.
Só que, agora, o foco era o mercado externo. É bom lembrar que Santana do Livramento, através da vizinha Rivera, estava ligada por trilhos a Montevidéu. A rota até o porto da capital uruguaia foi fundamental para a escolha do local. Rosário do Sul, por sua vez, tinha conexão férrea com Livramento.
Vera também comenta que a opção aconteceu em razão de desonerações fiscais. Enquanto estados como Santa Catariana e Paraná concederam 14 anos de isenções, Rio Grande do Sul e São Paulo elevaram a oferta para três décadas. Por esta razão, em 1918, as multinacionais de carne enlatada possuíam seis frigoríficos no Brasil - dois em São Paulo e quatro no Estado.

A influência no desenvolvimento econômico das cidades da região

Gama de enlatados incluía, além da carne, o milho e a ervilha

Gama de enlatados incluía, além da carne, o milho e a ervilha


REPRODUÇÃO SWIFT/DIVULGAÇÃO/JC
Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, a produção mantida nas duas plantas da região da Campanha, antes endereçada aos cidadãos europeus de baixa renda, serviu como uma luva para alimentar as tropas combatentes. À esta altura, em Rosário, a gama de enlatados havia sido diversificada e incluía, além da carne, o milho e a ervilha. Em 1939, primeiro ano dos conflitos armados que perdurariam até 1945 por toda a Europa, a Swift exportou mais de 9 mil toneladas de alimentos. A Armour, em Livramento, entre 1939 a 1945, empregava 4 mil pessoas - o equivalente a 10% da população do município. A cidade respondia por 25% dos abates bovinos do Estado, em 1932, com 127.328 cabeças. Entre 1940 e 1945, elevou o volume em 30%.
É neste período que ambas as companhias fixaram de maneira mais duradoura as raízes no imaginário cultural das duas cidades. As velhas charqueadas haviam desaparecido. No pós-guerra, mesmo com volumes bastante inferiores aos registrados na década de 1940, os frigoríficos permaneciam dominantes no que se refere ao emprego e à renda nos dois municípios. Também passaram a exercer influência econômica e política na região.
Em seu documentário, a historiadora Tânia Valenzuela, afirma que "não é apenas coincidência que o hospital (ainda único da cidade, de 1925), a Biblioteca Municipal (1967), a construção da ponte Marechal José de Abreu (a maior de concreto contínuo da América Latina com 1.772 metros, de 1969), o Museu Municipal (1973) e clubes sociais, por exemplo, tenham sido erguidos no período de existência da Swift em Rosário". E conclui que isto demonstra que "este foi o ponto fundamental para a alteração do pensamento e dos costumes da cidade, das mudanças de hábito e dos desejos de culturalização".
Em Santana do Livramento, a área da Armour, além de dezenas de moradias para os funcionários a preços bem inferiores aos de mercado, a empresa oferecia escolas e, mais tarde, constituiu até mesmo um time de futebol. A cidade, neste período, passou a ser a quarta mais populosa do Estado. Em 1937, contava com 50 indústrias, vindas à reboque. A carne era comprada em praticamente toda a região.
 

Os tripeiros da Armour em Santana do Livramento

Peça de propaganda do frigorífico Armour

Peça de propaganda do frigorífico Armour


acervo armour/divulgação/jc
Tripeiros. Assim eram chamados os funcionários da Armour em Santana do Livramento - e há quem diga que com certa inveja, mas existem aqueles que conferem um teor de maior admiração ao apelido. O termo tem origem na tripa, ou seja, a matéria-prima para o feitio de linguiças.
Pedro Silva, hoje com 86 anos de idade, foi um dos longevos tripeiros da Armour. Trabalhou na companhia por 39 anos. Ingressou ainda na década de 1950, quando sequer havia completado 16 anos. Passou por várias funções até que obtivesse a aposentadoria, aos 57 anos, em cargo de diretoria, na década de 1990, quando as plantas foram negociadas com o Frigorífico Bordon.
Ele é uma das testemunhas oculares do período em que a as duas companhias assumiram a mesma denominação, após a fusão, e passaram a ser chamadas de Swift-Armour, em Livramento e Santa Rosa, por volta de 1958. "Só tive um emprego na vida. Fiz de tudo. Não tinha escolaridade acadêmica, mas ainda assim consegui uma boa posição", comenta.
Apesar do tempo de casa, Silva não se considera um dos tantos saudosistas pelo fechamento dos frigoríficos. "Funcionalmente, consegui me realizar e me aposentei em idade não muito avançada, meu dever foi cumprido", afirma.
Em seu depoimento para o livro de Vera Albornoz, reconstitui as rígida exigências para os funcionários. A Armour, além de tecnologia importada, implementou modos de produção regidos por modelos do Taylorismo. Tempo, padronização e técnica se tornaram os grandes aliados da produtividade. O pagamento dos funcionários era feito por hora trabalhada e a inspeção, comenta Silva, era exatamente severa. Segundo ele, muitos funcionários acabaram não prosperando por falta de adequação aos padrões.
 

Produção de carne enlatada tinha como destino principal o mercado externo

Matéria-prima chegava de praticamente todo o Rio Grande do Sul

Matéria-prima chegava de praticamente todo o Rio Grande do Sul


MARCELLO CASAL JR/AGÊNCIA BRASIL/JC
Apesar da visível influência gerada pela presença de duas multinacionais na região da Campanha, com o crescimento econômico das cidades, o diretor-executivo do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados (Sicadergs), Zilmar Moussalle, garante que, de maneira geral, as plantas tiveram pouca influência para a organização da cadeia de carnes no Estado. 
Isso ocorre, segundo ele, porque a produção era basicamente puxada pelos enlatados. Produto de qualidade inferior, à base de carne moída, resfriada ou cozida, não encontrava demanda no mercado interno. Ainda assim, dificilmente, os volumes praticados pela Swift-Armour serão atingidos novamente.
Naquela época, o Rio Grande do Sul operava com abate de seis meses, em regime safrista também para o gado. Por outro lado, o "corned-beef" necessitava de industrialização contínua. Isso só era possível com o auxílio dos estoques da antiga Companhia Brasileira de Alimentação (Cobal). Os frigoríficos matavam, a estatal financiava o congelamento das carnes e possibilitava as operações também durante o inverno.
Moussalle explica que as compras vinham de praticamente todo Estado. Rosário do Sul, que tinha capacidade menor, abatia 800 cabeças diariamente, volume não encontrado em nenhuma planta contemporânea do Rio Grande do Sul. Quando o assunto é Livramento, a operação contemplava 1,1 mil animais/dia, o que representa quase o dobro da capacidade verificada no maior abatedouro dos tempos atuais, o Frigorífico Silva, em Santa Maria, na Região Central, com média de 600 abates diários.
No caso da Swift, em Rosário do Sul, os dados são imprecisos. Fala-se em 600 hectares de área. Sabe-se que a Armour, em Livramento, exibia proporções ainda maiores. A confusão se dá, justamente, pelos repetidos desmantelamentos de estrutura a cada troca de mãos a partir da década de 1960. Moussalle, que de meados de 1970 até 1980 exercia a chefia da inspeção federal do Ministério da Agricultura no Estado e realizava vistorias mensais nos frigoríficos, desenvolveu uma métrica pouco convencional e que não pertence ao Sistema Internacional de Medidas. No entanto, é capaz de pontuar devidamente a grandeza das gigantes da Campanha. "Não se conseguia visitar todas as áreas em 24 horas. Cansei de acompanhar missões estrangeiras, principalmente, dos Estados Unidos, e era algo muito desgastante, em função do esforço físico", resume.
A matéria-prima utilizada eram os chamados recortes. Sendo assim, os cortes nobres, depois de congelados, encontravam saída nas exportações para países de maior poder aquisitivo. O período Swift-Armour está vinculado ao início das vendas externas, ainda muito focadas no mercado europeu. Naquela ocasião, nos Estados Unidos, vigoravam proibições para o ingresso de carnes congeladas. A diferença é que, hoje, conforme lembra Moussalle, o Estado exporta proteína animal para 140 países.
Após a saída da Swift-Armour, a planta de Livramento foi adquirida pelo mesmo grupo proprietário do Frigorífico 3C, de Rio Pardo. Neste momento, nasceu a preocupação com o mercado interno. Como não tinham conhecimento, mantiveram apenas alguns clientes internacionais. Era uma espécie de herança do antigo conglomerado. "O Armour, quando chegou ao seu clímax, teve mais de 4 mil funcionários, era a maior indústria do Sul do Estado e tinha importância vital para a cidade de Livramento no que diz respeito a mão-de-obra", analisa Moussalle.
Atualmente, ainda existe produção nacional de carne enlatada. Boa parte dela está concentrada no frigorífico Pampeano, de Hulha Negra. Trata-se de uma planta originada a partir da aquisição do antigo frigorífico Bordon pela Marfrig. "Antes abatiam ovinos e bovinos, cerca de 500 ou 600 cabeças por dia. No Brasil, não existem mais do que 4 ou 5 fábricas de enlatados e o Pampeano deve ser o de maior produção", completa o presidente do Sicadergs.
 

Apesar do saudosismo, desafios apontam para um novo modelo de negócios

Empresas responderam por boa parte dos empregos e da economia da região até a década de 1980

Empresas responderam por boa parte dos empregos e da economia da região até a década de 1980


Acervo mara regina de souza/divulgação/jc
Nas duas cidades, o saudosismo ainda impera. Isso acontece, sobretudo, no imaginário dos moradores mais antigos. Seja em Rosário ou em Livramento, é comum ouvir o questionamento: "E se os frigoríficos ainda estivessem aqui?"
Não é muito difícil entender a indagação. Em 2000, ano seguinte ao fechamento definitivo da Armour, Santana do Livramento, por exemplo, possuía 90,8 mil habitantes. De acordo com estimativas do IBGE, em 2019, eram 77.027 moradores. Em duas décadas sem o frigorífico, a cidade perdeu 15% de sua população.
Por outro lado, há quem conteste a pergunta. Para o vice-coordenador do Mestrado em Desenvolvimento Regional da Faculdades Integrada de Taquara (Faccat), Carlos Paiva, a lógica pode estar um pouco invertida. Com base em discussões que ainda vigoram a respeito da responsabilidade sobre fechamento das duas indústrias, ele aponta que há uma confusão sobre a crise destas multinacionais - que é, em parte, definida por dinâmicas próprias, e, em outra parcela, por suas estratégias de alocação de capital. Num primeiro momento, privilegiando a Argentina, depois o Centro-Oeste brasileiro e, mais tarde, a própria Austrália e a Nova Zelândia.
Por essa razão, Paiva, que também atuou na extinta Fundação Estadual de Economia e Estatística (FEE), afirma que a crise é, sim, da própria pecuária da Metade Sul. Trata-se hoje, segundo ele, de uma região que não consegue sustentar uma planta frigorífica expressiva em seu território. Não atrai BRF, Marfrig, JBS Friboi ou outros frigoríficos que foram ou são competitivos internacionalmente.
"A Metade Sul sempre pensa que o problema pode ser resolvido atraindo algo que não tem. A questão é: não tem, por quê? Por que até os irmãos-Ley (Joesley e Wesley Batista, da JBS) transformam açougues em multinacionais e, aqui, multinacionais viraram terra arrasada? E mais: por que ninguém consegue comprar a massa falida e fazer funcionar?", questiona. Ele também lembra que, em 2007, a própria JBS, uma multinacional brasileira, abocanhou o restante da Swift Co. A aquisição, avaliada em US$ 1,4 bilhão, levou a companhia à liderança mundial no mercado de carnes, com uma fatia superior a 20% do market share nos Estados Unidos.
Neste contexto, Paiva recorda que, atualmente, os frigoríficos gaúchos migraram para a Metade Norte e a Metade Leste. Aqui, faz um comparativo. Para o economista, alegar que a indústria não prosperou na Fronteira-Oeste em razão da falência das multinacionais é o mesmo que dizer que o setor vitivinícola não deu certo porque Cinzano, Dreher, Almadén e Marcus James não realizaram mais investimentos. "Não é isso. A indústria vinícola deu certo até mesmo porque conseguiu construir marcas próprias, como a Miolo e a Salton. Ela dá certo apesar da concorrência com o Chile e a Argentina. Ela dá certo por si mesma, não pela história das multinacionais. O atraso da pecuária gaúcha é dela mesma", critica.
O cenário, afirma o especialista em desenvolvimento regional, pode ser traduzido em uma nova postura. Ele defende, neste aspecto, que o tipo de criação praticada no Estado, isto é, que prima pela excelência e qualidade das raças e, consequentemente, da proteína animal, deveria contemplar o surgimento de boutiques de carnes. Menores, mas com potencial para agregar valor. Paiva explica que, no início do século passado, quando os frigoríficos multinacionais aportam no Estado, o movimento também era liderado pelos ingleses, que chegaram a reboque, tardiamente.
Deste modo, a carne da Região do Prata, na Argentina, ia para Inglaterra, e o processamento no Norte daquele país ocorria de maneira bem mais simplificada. Em função da Segunda Guerra Mundial, abre-se um mercado enorme e emergente. Não havia volume consistente para abastecê-lo. O Rio Grande do Sul estava no centro deste processo, com uma situação que apostava no charque. Como as fronteiras eram líquidas, ainda fartas de contrabando, por aqui, não se dependia de safra e entressafra. Na avaliação de Paiva, o cenário potencializa a produção local. Por outro lado, quando os Estados Unidos se consolidam, toda a movimentação começa a refluir. Nesse período, a própria Argentina entra em crise. A produção gaúcha, direcionada ao mercado externo, cresce, antes que se pense em atender à demanda interna. Com o passar do tempo, o processo de enlatar é substituído pelo processo de resfriamento e, em seguida, pelo congelamento.
Santana do Livramento e Rosário do Sul deixam de ser adequados logisticamente, deixando de interessar às multinacionais norte-americanas. O Anglo, frigorífico inglês, de Pelotas, dura mais tempo, pois ainda se beneficiava do Porto de Rio Grande. "É preciso entender que aquele movimento foi muito particular e a tendência é que não vá se repetir", finaliza Paiva. 
 

Reformulação do mercado diversifica a cadeia produtiva

Durante o processo de derrocada dos grandes frigoríficos, já emergiam pequenas plantas de abate municipais. Muitas delas, vinculadas ao processo de cooperativismo. Com isso, abriram inúmeros outros frigoríficos no Rio Grande do Sul. Atualmente, o Estado detém o maior número de pontos de abate do Brasil, com mais de 300 locais cadastrados, seja com certificação municipal, estadual ou federal. Neste aspecto, enquanto no restante do País, a média de Serviços de Inspeção Municipal (SIM) é de 6,4% do frigoríficos, no Estado supera os 12,4%.

Na opinião do diretor-executivo do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados (Sicadergs), Zilmar Moussalle, o fechamento de ambas, de certa forma, beneficiou a cadeia. Trouxe mais diversificação. O que acontece é que, de 2000 em diante, houve um programa de governo que passou a incentivar animais mais jovens na indústria. Criou-se subsídio de ICMS para quem abatesse novilhos.

"Naquela época se mantava aos 4 ou 5 anos de idade. Hoje a maioria é entre dois anos e três. São dois tombos, quando antes era um só. Ainda assim, crescemos de 1 milhão de cabeça ao ano para 2,2 milhões. Aí sim pecuária gaúcha foi catapultada", comenta ele.

O movimento, recorda Moussalle, também beneficiou aspectos primordiais para a formação de preços, pois a desconcentração do setor encerrou a era do "poder de barganha" das antigas multinacionais. Com a opção por animais mais jovens, os novilhos passaram a receber bônus que podem superar em até 10% o valor de mercado, em muitos casos. Por outro lado, o fim das atividades nos frigoríficos da Fronteira-Oeste, além de fatores prejudiciais ligados ao emprego e a renda em uma região hoje empobrecida, determinou uma multiplicidade maior em números, mas uma capacidade menor de produção.

Raio-X de cada frigorífico

Cia. Swift do Brasil S/A

  • Instalado em Rosário do Sul
  • Operação: de 1917 a 1982.
  • Capacidade de abate: Na última década, cerca de 800 cabeças por dia
  • Produção: Corned-beef (carne enlatada), milho e ervilha em lata
  • Principal destino: exportação para Europa
  • Empregos: Cerca de 3 mil funcionários

Armour & Company

  • Instalado em Santana do Livramento
  • Operação: também de 1917 a 1982
  • Capacidade de abate: Na última década, cerca de 1,1 mil cabeças por dia.
  • Produção: Corned-beef (carne enlatada) e cortes congelados.
  • Principal destino: exportação para Europa
  • Empregos: Cerca de 4 mil funcionários
* Rafael Vigna é formado em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande sul em 2009. Vencedor do Prêmio BMF&Bovespa em 2014 e 2015, atuou como repórter on-line e de economia no Jornal do Comércio de 2009 a 2015. Atualmente reside em São Borja, onde dirige o departamento de Jornalismo das Rádios Fronteira FM e Cultura AM.
leia mais notícias de Empresas & Negócios
CORRIGIR