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Porto Alegre, terça-feira, 21 de julho de 2020.

Jornal do Comércio

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Empresas & Negócios

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reportagem especial

- Publicada em 20h59min, 15/03/2020. Atualizada em 09h04min, 16/03/2020.

Pelotas e a indústria de conservas, uma potência da economia gaúcha

Em 1967, selos comemorativos celebravam a qualidade dos pêssegos em calda de Pelotas

Em 1967, selos comemorativos celebravam a qualidade dos pêssegos em calda de Pelotas


acervo antonio karini/divulgação/jc
*Álvaro Guimarães, de Pelotas
As raízes da indústria conserveira gaúcha espalham-se pelo interior de Pelotas, mais precisamente pelas colônias erguidas por imigrantes franceses e italianos que desembarcaram na região no final do século XIX. A falta de registros oficiais faz com que os pesquisadores dedicados ao tema tenham na tradição oral das comunidades a principal fonte para gravar a história da cultura do pêssego no Sul do Estado. Essas memórias contam que as primeiras mudas de pessegueiro chegaram por volta de 1880 na bagagem de famílias francesas como os Capdeboscq, os Crochemore e os Jouglard. Eles foram responsáveis, também, pela introdução da uva na região.
As raízes da indústria conserveira gaúcha espalham-se pelo interior de Pelotas, mais precisamente pelas colônias erguidas por imigrantes franceses e italianos que desembarcaram na região no final do século XIX. A falta de registros oficiais faz com que os pesquisadores dedicados ao tema tenham na tradição oral das comunidades a principal fonte para gravar a história da cultura do pêssego no Sul do Estado. Essas memórias contam que as primeiras mudas de pessegueiro chegaram por volta de 1880 na bagagem de famílias francesas como os Capdeboscq, os Crochemore e os Jouglard. Eles foram responsáveis, também, pela introdução da uva na região.
A boa adaptação do pêssego ao clima e ao solo das serras pelotenses, no entanto, despertou atenção do horticultor francês Ambrósio Perret, a quem se atribui o plantio do primeiro pomar em escala comercial do Brasil. "O próprio Perret encarregou-se de divulgar e disseminar a fruta em razão de seu interesse em expandir os negócios e aproveitar a presença das famílias francesas que se multiplicavam na região", registra o economista e pesquisador da Embrapa Clima Temperado João Carlos Madail, no capítulo que assina no livro Pessegueiro, organizado pela pesquisadora Maria do Carmo Bassols Raseira e lançado pela Embrapa em 2014.
De acordo com as descobertas de Madail, o empreendimento de Perret obteve sucesso e, com o aumento da oferta da fruta, surgiu a ideia de usá-la na elaboração de doces e compotas cujas receitas haviam atravessado o Atlântico com as mães e avós das colônias.
A produção artesanal ganhou impulso quando outro francês radicado no Brasil, o dentista Amadeo Gastal, desenvolveu a primeira lata de conserva nos últimos anos do século XIX - ele começou, então, a produção artesanal de compotas para comercialização. Pouco tempo depois, no primeiro ano do século XX, o italiano Domingos Pastorello funda, na colônia Santo Antônio, a primeira agroindústria voltada para a produção de pêssego em calda da região, a Quinta Pastorello, dando início à fabricação em escala industrial.
Desde então, só cresceu. Ao longo de mais de um século de existência, o setor conserveiro chegou a contar com 47 diferentes empresas instaladas na zona urbana de Pelotas - entre as décadas de 1960 e 1980, quando atingiu seu auge, coexistiram 21 fábricas na cidade.
"Antes da década de 1950, o consumo das compotas era baixo, local e regional. Além disso, a exportação em grande escala era inviável devido às estradas existentes, de difícil trânsito. Com a priorização e o incremento da malha rodoviária pelo governo Juscelino Kubitschek, no final de década de 1950 os entraves foram removidos, possibilitando a expansão dos negócios pelos produtores. Isso permitiu que as conservas pelotenses em geral, especialmente as de pêssego, chegassem aos grandes mercados do Centro do País, incluindo São Paulo e Rio de Janeiro", registrou Alcir Bach, geógrafo e professor da Universidade Federal de Pelotas que debruçou-se sobre o setor para escrever sua tese de doutorado intitulada Patrimônio agroindustrial: inventário das fábricas de compotas de pêssego na área urbana de Pelotas (1950-1990), publicada em 2017.
O boom da indústria foi acompanhado por um crescimento frenético da população e, consequentemente, por uma demanda maior por habitação, o que levou à ocupação de áreas periféricas dando origem a vilas e loteamentos que mudaram a paisagem urbana da cidade. Em 1950, a população de Pelotas era de 81,6 mil habitantes - 10 anos depois, saltou para 129,5 mil, um aumento de 60%.
Na esteira desse afluxo de novos moradores atraídos pelos empregos da indústria, especialmente no beneficiamento de alimentos como as conservas, brotaram ocupações e vilas como Santa Teresinha, Py Crespo, Lindóia e Vila Brod que, ao lado de outros loteamentos, hoje formam o bairro Três Vendas - como é chamada a Zona Norte de Pelotas, atualmente a maior e mais populosa área do município da Zona Sul do Estado.

Indústria tem 50% da capacidade ociosa

Os dias atuais nem de longe lembram os áureos tempos para os fabricantes de conservas de Pelotas. Atualmente, a indústria local trabalha com apenas 50% da sua capacidade instalada, que totaliza 100 milhões de latas/ano. Um dos principais motivos da ociosidade são as baixas taxas de consumo do pêssego em calda no Brasil. "Atualmente, o consumo nacional é de 250 gramas per capita por ano, isso é muito pouco se comparado com países como Uruguai, onde cada habitante ingere, em média, de duas a três latas por ano", explica Paulo Crochemore, presidente do Sindicato das Indústrias de Doces e Conservas de Pelotas. Em comparação a outros países produtores, como Argentina e Chile, os números brasileiros ficam ainda piores. Os argentinos consomem 6,2 latas/ano e o consumo chileno chega a dez latas a cada 12 meses.

O mercado mudou por diversas razões. A concorrência de sobremesas como chocolates e sorvetes, e a diminuição da cultura do consumo de compotas são apontadas por Crochemore como fatores que contribuem para o desinteresse do brasileiro por doce em calda. Para tentar reverter o quadro negativo e despertar o interesse das novas gerações sobre o produto, surgem projetos como os que garantiram a inclusão obrigatória do pêssego e seus derivados - como as compotas - na merenda escolar dos alunos da rede pública de Pelotas e do Rio Grande do Sul.

"A escola tem grande importância na formação dos hábitos alimentares dos estudantes. Com a inclusão do pêssego, o Estado tem a oportunidade de melhorar a alimentação dos alunos com uma fruta tradicional para os gaúchos e ainda fortalecer uma cadeia produtiva expressiva", destaca o autor da lei no Rio Grande do Sul, deputado estadual Luiz Henrique Viana (PSDB). Tanto a legislação municipal como a estadual entraram em vigor em outubro passado.

Grandes marcas da época de ouro

Rótulos de empresas que disputavam espaço no mercado de doces

Rótulos de empresas que disputavam espaço no mercado de doces


/ACERVO UFPEL/DIVULGAÇÃO/JC
Naquelas décadas de ouro, o setor conserveiro pelotense atraiu o interesse de grandes empresas nacionais, como as paulistas Cica e Vega, que apostaram na diversificação do mix de produtos, implantaram pomares industriais, alteraram as relações com os produtores, disputaram espaço no mercado internacional e acabaram gerando uma nova cultura de negócios.
Isso terminou por influenciar a classe empresarial local, incentivando o surgimento de gigantes como a Agapê, a Leal Santos e a Almeida, as duas últimas com sede em Rio Grande e filiais em Pelotas.
Fundada em 1959 pelo engenheiro-agrônomo Hugo Poetsch, a Agapê chegou a ter uma linha com 21 produtos, que incluíam, além da compota de pêssego e de outras frutas, sucos, polpas para iogurte e sorvetes, molhos diversos, temperos e até feijoada enlatada. Com pesados investimentos em publicidade e merchandising, inclusive com a criação de produtos e embalagens especiais, kits natalinos, slogans como "Agapê as melhores conservas do Brasil" ou "Agapê um presente com carinho", propagandas de tevê em rede nacional e o patrocínio de eventos e times de futebol como o E. C. Pelotas, a Agapê liderou o mercado de conservas e figurou entre as sete maiores empresas do setor no Brasil, conforme ranking elaborado anualmente pela Gazeta Mercantil na década de 1980.

Importação liberada puxou a derrocada do setor

Chico Buarque em 1988, em jogo patrocinado pela Agapê: marca não resistiu à mudança do mercado

Chico Buarque em 1988, em jogo patrocinado pela Agapê: marca não resistiu à mudança do mercado


/SÉRGIO CABRAL/DIVULGAÇÃO/JC

Se, por um lado, o setor conserveiro de Pelotas já viveu dias melhores, com uma produção diversificada, que incluía frutas como morango e ameixa, e outros produtos de alto valor agregado como o aspargo, que disputaram espaço no mercado europeu na década de 1980, também já teve dias mais sombrios como aqueles que marcaram o encerramento das atividades da Cica, Agapê, Vega, Extrafruta, Leal Santos e Almeida, além de outras marcas abatidas pela falta de competitividade e pela abertura do mercado na Era Collor para produtos estrangeiros similares.

A primeira grande derrota veio com a implosão da produção de aspargos em conserva. Nos anos 1960, o produto abriu as portas de grandes mercados europeus como Alemanha e Bélgica, além dos Estados Unidos, Austrália e Japão para as fábricas pelotenses e, a partir da década seguinte, levou de carona outras iguarias, como pêssego, figo, abacaxi, ervilha e milho.

Contudo, a partir do governo de Fernando Collor, em 1990, o Brasil adotou uma política econômica com foco na abertura, deixando as portas para livre entrada de produtos manufaturados estrangeiros - incluindo, claro, conservas e doces beneficiados. A medida liquidou com lavouras e linhas de produção, que não conseguiram concorrer com os preços dos concorrentes, subsidiados por seus governos. A perda do mercado internacional foi um baque que não apenas desanimou, mas encolheu o setor.

A falência da cultura do aspargo foi o primeiro episódio da derrocada do setor conserveiro que, ainda no governo Collor, teve de enfrentar a invasão do pêssego grego, que desembarcava nos portos brasileiros com subsídio de 46% e preços até 0,20 centavos mais baratos. O resultado foi contundente: em 1994, o mercado brasileiro importou 16 milhões de latas e, no ano seguinte, esse número subiu para 30 milhões, o que equivalia a 50% da produção das fábricas gaúchas. Ao longo de toda a década de 1990, os industriais da região travaram duras batalhas contra a entrada do pêssego grego, sofrendo novas e pesadas perdas a cada safra.

Aliado a isso, a criação do Mercosul, em 1994, abriu as portas do mercado nacional para as compotas argentinas, enquanto a elevação dos juros e a sobrevalorização cambial do Plano Real agravaram ainda mais a situação da cadeia produtiva.

Em um esforço conjunto - e, até então, sem precedentes na região, que envolveu produtores, pesquisadores, empresários e lideranças políticas e ajudou a criar o embrião do que hoje se entende por cadeia produtiva do setor conserveiro de Pelotas - conseguiu-se, em 2000, que o governo federal adotasse uma sobretaxa ao pêssego grego que, àquela altura, inundava o mercado nacional com preço até 40% menor do que o praticado pelas indústrias gaúchas que vendiam suas latas por R$ 1,50 - o concorrente importado custava apenas R$ 0,90 por lata.

A taxa de importação subiu de 23% para 55%, e o produto grego foi incluído em uma lista de exceção da Câmara de Comércio Exterior. Dez anos depois, uma nova mobilização precisou ser desencadeada para garantir que a barreira de proteção fosse mantida.

Por essa mesma época, a cadeia produtiva consolidou-se no embate contra a entrada do produto argentino e obteve um inédito acordo internacional que limitou em 10,5 milhões o total de latas de compotas argentinas que poderiam entrar no Brasil. "Foi um grande feito para o setor, pois conseguimos sobreviver", comenta Crochemore.

A lição tirada desta última batalha travada é, para Crochemore, a de que a indústria conserveira de Pelotas ainda permanecerá ativa por muito tempo. Demonstrando otimismo ao falar das relações intersetoriais e esperança no futuro, o presidente do Sindocopel defende as mudanças feitas, como a adoção de uma política de preços baseada no mercado internacional para garantir a competitividade.

"Sofremos críticas por trabalhar com preços internacionais, pois o valor pago aos produtores diminuiu, mas ainda somos a cadeia que pratica os maiores preços nessa relação. Acredito que estamos fazendo a lição de casa e possibilitando um aumento gradativo e sólido da cadeia, um crescimento ordenado", declara ele.

O último balanço feito pelo Sindicato das Indústrias de Doces e Conservas de Pelotas (Sindocopel) registra, atualmente, 12 indústrias instaladas em três municípios: Pelotas (6), Morro Redondo (5) e Capão do Leão (1).

Apesar dos diferentes modos de enxergar as relações e a cadeia, o tom otimista e sentimental do industrial é praticamente o mesmo usado por Scheunemann ao justificar sua crença na manutenção da cultura de produção do pêssego nas colônias de Pelotas. "Estamos há muito tempo fazendo isso, não podemos mudar de uma hora para outra. Alguns vão diversificar, outros que têm mais terra podem investir na soja, mas parar não vai, o pêssego faz parte da gente", conta Scheunemann.

Pêssego, uma tradição familiar na agricultura

Em busca de melhor preço, parte dos agricultores vende direto para o consumidor

Em busca de melhor preço, parte dos agricultores vende direto para o consumidor


CARLOS QUEIROZ/DIVULGAÇÃO/JC

Sobre o solo irregular das áreas montanhosas do interior de Pelotas, o pêssego é um negócio e uma tradição que passa de geração para geração. Conforme dados da Emater/Ascar, a maioria dos 5,3 mil hectares destinados ao cultivo da fruta está em propriedades familiares. A maior parte concentra-se dentro do município, onde 605 famílias produziram, na safra atual, 37,8 mil toneladas em 3,1 mil hectares. Canguçu é a cidade da região com a segunda maior produção, com 8,4 mil toneladas colhidas por 315 famílias nesta safra.

Dos pomares industriais iniciados na década de 1950, apenas dois ainda existem. Dessa forma, cabe aos pequenos agricultores a missão de abastecer as fábricas e garantir os estoques que enchem as prateleiras de supermercados de norte a sul do País. A relação produtor-indústria, todavia, sempre foi - e permanece - conflituosa. "O setor nunca adotou uma política de preço mínimo, isso gera tensões a cada nova safra e perpetua uma relação de exploração do produtor por parte da indústria", justifica o engenheiro-agrônomo Ellemar Wojahn, que, há duas décadas, atua como consultor de agroindústrias e cooperativas de produtores.

Antes do início da safra 2019-2020, os agricultores abriram as negociações com os empresários pedindo R$ 1,60 por quilo da fruta classificada como tipo extra (com diâmetro maior que 5,7 cm), e R$ 1,30 para cada quilo das frutas classificadas como especiais (com diâmetros entre 5,3 cm e 5,7 cm). Quando a colheita começou, a indústria aceitou pagar R$ 1,30 pelo tipo extra e R$ 1,05 pelo especial. "Isso nos frustrou muito, pois, como tivemos três anos de produção abaixo do esperado, achamos que a indústria poderia aumentar os valores já que os estoques estão baixos", comenta Mauro Scheunemann, presidente da Associação dos Produtores de Pêssego de Pelotas e Região, cuja família, há três gerações, dedica-se à persicultura.

As queixas só não foram maiores devido à quebra de 20% da safra de pêssego de mesa na região da Serra, causada por precipitações de granizo durante o inverno. A falta do produto no Norte do Rio Grande do Sul levou atravessadores e atacadistas a procurarem produtores da Zona Sul, que entregaram suas frutas por preços que variaram entre R$ 1,80 e R$ 2,00 o quilo. "Foi excelente, o melhor resultado que poderíamos esperar dentro do quadro atual", confirma Scheunemann.

O acompanhamento do setor feito pela Emater/Ascar mostra que, entre 2015 e 2018, o preço pago aos produtores sofreu uma queda brusca, despencando 50% - passou de R$ 1,60 para R$ 0,80. Ainda em 2018, a falta de frio no inverno fez a região colher uma das piores safras da história, com somente 26 mil toneladas.

Pessimistas com relação ao que classificam como falta de interesse da indústria, muitos produtores começam a apostar na venda das frutas in natura, seja para atacadistas ou diretamente ao consumidor. Pelas contas de Scheunemann, nesta última safra, parte optou por entregar apenas metade da produção às fábricas, destinando o restante para supermercados, atacados e feiras livres. "A gente percebe também uma procura pelo pêssego amarelo também para a mesa", explica Scheunemann.

Melhoramento genético incrementou a produção da fruta

Indústria conta com variedade desenvolvida pela Embrapa

Indústria conta com variedade desenvolvida pela Embrapa


VINICIUS PERACA/DIVULGAÇÃO/JC

Autora de uma das obras mais completas já publicadas no Brasil sobre a cultura do pêssego, a engenheira agrônoma e pesquisadora da Embrapa Clima Temperado Maria do Carmo Bassols Raseira conta que as primeiras pesquisas de melhoramento da fruta em solo brasileiro começaram a ser desenvolvidas no interior de São Paulo, a partir de 1947. Um pouco depois, em 1953, a Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul encarregou o pesquisador Sérgio Sachs de dar início a um programa gaúcho de melhoramento do pêssego na Estação Fitotécnica de Taquari. Cinco anos mais tarde, o projeto foi transferido para a Estação Experimental Pelotas (EEP) que, em 1972, se transformou na Embrapa Clima Temperado.

"Naquela época a propagação era feita por sementes. Quando Sérgio Sachs iniciou o trabalho em Pelotas, pôde selecionar mais de 100 clones na zona produtora de pêssegos para a indústria. Estes clones, somados às cultivares introduzidas, constituíram o material genético básico para o programa de melhoramento. Em 1957, milhares de sementes híbridas ou resultantes de polinizações abertas foram trazidas da Flórida, Geórgia, Carolina do Norte, Califórnia e, principalmente, da Universidade de Rutgers, em New Jersey, regiões dos Estados Unidos. Atualmente este é um dos maiores e mais completos programas de melhoramento genético do pessegueiro do mundo", descreve a cientista.

O programa de pesquisa possui, hoje, um banco de germoplasma (para conservação de material genético) com mais de 900 acessos, nos quais estão genótipos resistentes às principais doenças e pragas que costumam afetar a planta e capazes de produzir frutos de alta qualidade. A cultivar Diamante, lançada pelo programa em 1973, por exemplo, é a "mãe" do pêssego produzido no México e as plantas descendentes das primeiras mudas ainda lideram a produção do pêssego mexicano in natura.

Para a produção local, uma das grandes contribuições do programa da Embrapa Clima Temperado foi conseguir aumentar o tempo de safra. Com as cultivares até então utilizadas e as condições climáticas, as safras na região duravam entre 15 e 20 dias no mês de dezembro. A citada cultivar Diamante mudou esse cenário no fim dos anos 1970: ela é capaz de produzir uma safra de quase 100 dias, distribuídos entre outubro e dezembro. "Este foi o segundo grande momento da pesquisa de melhoramento do pêssego. Um marco, tanto na pesquisa quanto na cadeia produtiva", diz Maria do Carmo.

Antes disso, o primeiro marco foi a cultivar Aldrighi (que leva o sobrenome do agricultor que a descobriu) na década de 1940. A nova espécie multiplicada por Aldrighi mostrou-se muito bem adaptada ao clima e ao solo da região, bem como alta produtividade, o que acabou por popularizá-la entre os produtores da região a ponto de dominar quase que completamente os pomares até os anos 1970. A cultivar Aldrighi também foi o ponto de partida para o programa de melhoramento do pêssego destinado às conservas, desenvolvido por Sachs e que levou gerou a cultivar Diamante, em uso ainda hoje.

Em 2009, o time da Embrapa Clima Temperado lançou a cultivar BRS Libra, a primeira tipo indústria protegida do Brasil. Essa variedade tem como principal mérito a capacidade de amadurecer até o início de outubro, antecipando em cerca de 50 dias o início da safra em comparação com o período existente quando o programa de melhoramento surgiu. Os trunfos colecionados ao longo destas seis décadas de pesquisas, todavia, não diminuem os desafios dos cientistas que apontam ter ainda um longo caminho pela frente.

Cidade das festas

A euforia embalada em Pelotas pelos resultados positivos do setor conserveiro originou, no final do século XX, os apelidos Cidade do Pêssego e Capital Nacional do Doce, até hoje citados com orgulho pela população pelotense. Também surgiram a Feira Nacional do Pêssego (Fenapêssego) e a Feira Nacional do Doce (Fenadoce).

A Fenadoce, realizada pela primeira vez em 1985, teve três edições e deixou de ser promovida até 1992, quando foi incorporada pela Câmara de Dirigentes Lojistas. Hoje, é a maior atração turística da cidade e, apenas no ano passado, em sua 27ª edição, atraiu 246 mil visitantes.

Já a Fenapêssego ocorreu apenas duas vezes, em 1973 e 1974, mas não prosperou e deixou de ser realizada. Na tentativa de recuperar um pouco deste patrimônio cultural, a prefeitura passou a promover, desde 2013, a Quinzena do Pêssego, na qual são realizadas feiras fixas e itinerantes para comercialização da fruta in natura.

* Álvaro Guimarães é natural de Rio Grande e formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pelotas. Tem no currículo quatro prêmios Direitos Humanos em Jornalismo, um prêmio ADI/Sebrae de Excelência Editorial e um Prêmio Ari de Jornalismo. Atualmente, trabalha como assessor de comunicação e repórter freelancer.
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