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Edição impressa de 10/02/2020. Alterada em 10/02 às 19h36min

Educação inclusiva do Trans Enem faz estudantes retomarem estudos

Anna, Leonardo, Charlie e professor Caio (da e para d) abordam temas que vão além da sala de aula

Anna, Leonardo, Charlie e professor Caio (da e para d) abordam temas que vão além da sala de aula


LUIZA PRADO/JC
João Pedro Rodrigues
No último ano de Ensino Médio, Anna largou o colégio e não voltou mais. Apesar das tentativas de retornar aos estudos, era sempre muito difícil de se inserir naquele meio social que a rejeitava e a fazia optar pela evasão escolar, destino comum a 82% das pessoas travestis e transexuais no Brasil, como estima uma pesquisa de 2016 conduzida pelo defensor público João Paulo Carvalho Dias, ex-presidente da Comissão de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil - seccional Mato Grosso. (OAB-MT).
No último ano de Ensino Médio, Anna largou o colégio e não voltou mais. Apesar das tentativas de retornar aos estudos, era sempre muito difícil de se inserir naquele meio social que a rejeitava e a fazia optar pela evasão escolar, destino comum a 82% das pessoas travestis e transexuais no Brasil, como estima uma pesquisa de 2016 conduzida pelo defensor público João Paulo Carvalho Dias, ex-presidente da Comissão de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil - seccional Mato Grosso. (OAB-MT).
Embora já tivesse trabalhado algumas de suas questões pessoais na terapia, ela ainda demonstrava dificuldade de se relacionar devido ao preconceito. Consequentemente, não conseguia ir atrás dos seus objetivos.
Ano passado, porém, decidiu entrar no Trans Enem, onde encontrou um ambiente propício para concluir o Ensino Médio através do Exame Nacional para Certificação de Competência de Jovens e Adultos (Encceja) e estudar para o vestibular. "Me senti tranquila e segura tanto para ser eu mesma quanto para poder fazer perguntas sobre qualquer coisa", conta ela, que, após a conclusão do curso, passou em Letras na Ufrgs e agora aguarda o início das aulas.
Baseado em outros coletivos de educação popular do Brasil, como o Prepara Enem, do Rio de Janeiro, e o Transformação, de São Paulo, o Trans Enem Porto Alegre surgiu em 2016 com o intuito de ser um espaço de educação seguro e acolhedor para a população trans na Capital, sejam elas educadoras ou alunas. Desde então, o curso ajudou pelo menos 20 das 50 pessoas que participaram ao longo dos anos a entrarem na universidade, além daquelas que também passaram no Encceja.
Ex aluno do Trans Enem, Leonardo conta que sempre foi muito bem tratado nas aulas e, por isso, conseguiu aprender bastante. "Às vezes eu ficava surpreso quando eu entendia algum tipo de questão". Ele e seu colega desde os tempos de escola, Charlie Konarzewski, se descobriram como pessoas trans no terceiro ano do Ensino Médio e, dali pra frente, mantiveram a amizade e o apoio nos momentos mais difíceis.
Onde estudavam, o desrespeito era constante, dificultando o convívio em sala e prejudicando a sua saúde mental. A todo o momento, tinham que corrigir tanto os professores quanto os colegas, que continuavam a usar os seus nomes e pronomes de maneira errada. "Eles se negavam a usar o nosso nome porque nós não tínhamos um papel para afirmar quem a gente era", diz Charlie. Frente a essa situação, depois de um certo tempo os dois também acabaram largando o colégio, mas, assim como Anna, encontraram no Trans Enem um ambiente receptivo e inclusivo para a continuação de seus estudos.
"A gente não vê educação como algo que se limita à sala de aula", explica Caio Tedesco, professor de história do grupo. O coletivo procura pensar em questões relacionadas à situação financeira dos alunos e às possibilidades de transporte e trabalho, desenvolvendo seminários como um realizado no ano passado a respeito da realidade do mercado para as pessoas trans.
Além disso, o grupo também procura criar redes de apoio através do Núcleo de Atenção Psicopedagógica e Social (NAPS), que trabalha questões de saúde mental e serviço social com os alunos. Tendo iniciado em 2017, o núcleo vai uma vez por semana no instituto para discutir a respeito de qualquer assunto que for de interesse da turma, a fim de proporcionar um momento de diálogo com os alunos. Para os professores, são feitas reuniões para trabalhar essas mesmas questões.
O coletivo, este ano, vai unir as turmas para realizar as atividades do curso preparatório para o Encceja junto do pré-vestibular e do pré-Enem. Essa união acaba sendo importante devido ao fato de muitos alunos terem evadido a escola e, por este motivo, não conseguiram adquirir o conhecimento necessário para dar continuidade aos estudos. Assim, segundo os componentes do grupo, com uma turma formada desde o início, a criação de vínculos será facilitada, viabilizando a rotina de estudos e aprendizagem mesmo com eventuais dificuldades.
O Trans Enem passou a incluir, desde outubro de 2017, o público LGBQI , de forma que pessoas que se encaixem nesse espectro possam se inscrever e fazer parte da turma. As aulas acontecem no Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), na rua Coronel Vicente, de segunda à sexta-feira de noite, e as inscrições para o curso ocorrem até o dia 13 de fevereiro, podendo ser feitas online através do link na página do coletivo no Facebook.
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