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Porto Alegre, segunda-feira, 19 de agosto de 2019.
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Jornal do Comércio

Empresas & Negócios

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mercado de trabalho

Edição impressa de 19/08/2019. Alterada em 19/08 às 03h00min

Desigualdade de gêneros atinge até o empreendedorismo

Elas estudam mais e, mesmo assim, ganham 22% a menos que os homens

Elas estudam mais e, mesmo assim, ganham 22% a menos que os homens


CREATIVEART - FREEPIK.COM/DIVULGAÇÃO/JC
Brasileiras abrem negócios tanto quanto os homens, mas ganham menos e suas empresas fecham mais rápido. Os dados são do relatório do Sebrae sobre empreendedorismo feminino. Segundo o estudo, mulheres são cerca da metade dos empreendedores iniciais (com negócios de até 3,5 anos). Elas correspondem a 49%, ou 11,9 milhões de empreendedores nessa etapa. Já entre os estabelecidos, cujos negócios estão consolidados, elas representam 43%. As empreendedoras, apesar de serem mais escolarizadas, ganham 22% menos que os homens, com rendimento mensal médio de R$ 1.831,00.
Brasileiras abrem negócios tanto quanto os homens, mas ganham menos e suas empresas fecham mais rápido. Os dados são do relatório do Sebrae sobre empreendedorismo feminino. Segundo o estudo, mulheres são cerca da metade dos empreendedores iniciais (com negócios de até 3,5 anos). Elas correspondem a 49%, ou 11,9 milhões de empreendedores nessa etapa. Já entre os estabelecidos, cujos negócios estão consolidados, elas representam 43%. As empreendedoras, apesar de serem mais escolarizadas, ganham 22% menos que os homens, com rendimento mensal médio de R$ 1.831,00.
Para a coordenadora nacional de empreendedorismo feminino do Sebrae, Renata Malheiros, um motivo que ajuda a explicar essa diferença é a maternidade e o papel da mulher na família. "As mulheres dedicam 18% menos horas ao negócio do que os homens. Isso porque cuidam da família e das tarefas domésticas, é uma questão cultural. Isso toma muita energia e tempo delas."
As empreendedoras dedicam, em média, 30,8 horas por semana ao seu negócio - para homens, esse tempo sobe para 37,5 horas. Ao mesmo tempo, 79% das empregadoras também fazem trabalho doméstico. "Precisamos olhar a sobrevivência dessas empresas, porque a maioria dos negócios que fecham no estado de São Paulo é de mulheres. Então essa coisa de dizer que está tudo certo, que 'agora é a vez delas', não é assim", exemplifica Junia Nogueira, da Rede Mulher Empreendedora.
Outra diferença é que a parcela de negócios por necessidade é maior entre as mulheres (44%), contra 32% para os homens. Isso significa que elas empreendem para fugir do desemprego ou porque não têm alternativa de renda, segundo Renata.
"Nesses casos, a pessoa não se planeja, é precário. Já o empreendedorismo de oportunidade, a pessoa vê uma chance de negócio, busca informação, se prepara. Esse é o empreendedorismo que precisa subir no Brasil."
De acordo com Renata, as empresas costumam empurrar as mulheres para o empreendedorismo, porque muitas são demitidas após a maternidade ou buscam horários mais flexíveis para conciliar com a família. A coordenadora do Sebrae destaca, ainda, outros fatores que podem pesar para o sucesso das empresas lideradas por mulheres, como a confiança e as barreiras culturais.
"As crenças limitantes são aquelas coisas que colocam na nossa cabeça ainda na infância, de que certas áreas não são para a mulher. Isso influencia as nossas escolhas e trajetórias." Ela cita a ideia de que as mulheres seriam piores em matemática. "É muito comum ver empreendedoras que delegam o setor financeiro da sua empresa para o marido ou para um contador. E o financeiro é o coração da empresa."
Renata afirma que mulheres empreendedoras tendem a ser menos confiantes do que homens nas mesmas posições. Apesar de terem conhecimento técnico por serem mais escolarizadas, elas precisam melhorar as competências socioemocionais, defende.
"Nós, mulheres, temos muito a avançar nas soft skills, como a capacidade de falar em público, fazer networking, defender uma ideia. É contraintuitivo, porque as mulheres são vistas como mais empáticas. Sim, em geral, elas são, mas essa não é uma competência muito valorizada no mercado de trabalho". Renata cita dificuldades para participar de encontros sociais relacionados ao trabalho: "Quantas vezes eu já ouvi minhas colegas perguntarem: 'você vai no happy hour depois do trabalho? Eu não queria ser a única mulher lá'. Por que isso é um problema?".
Um bar ou um almoço podem ser impedidos por certos estereótipos, afirma ela. "Coisas simples, como tomar uma cerveja depois do trabalho, são barradas porque a mulher tem um marido ciumento ou um filho pequeno esperando em casa. Ou ela tem medo de convidar um colega homem e ele achar que ela está paquerando", conta. A desvantagem também aparece no acesso ao crédito. Apesar dos índices de inadimplência mais baixos, as empreendedoras recebem empréstimos com valor médio de cerca de
R$ 13 mil a menos, e com juros mais altos, de 3,5 pontos percentuais.

Startup reúne mulheres para impulsionar oportunidades de unir negócios e maternidade

Pesquisa da Rede Mulher Empreendedora aponta que 75% das mulheres que empreendem fazem isso depois que os filhos chegam

Pesquisa da Rede Mulher Empreendedora aponta que 75% das mulheres que empreendem fazem isso depois que os filhos chegam


/SENIVPETRO - FREEPIK.COM/DIVULGAÇÃO/JC

Apesar de ainda conquistarem remuneração inferior à dos homens, o empreendedorismo segue atraindo o público feminino como alternativa de renda. A necessidade de estar mais perto dos filhos fez Juliana Barbosa dos Santos, de 39 anos, deixar o mercado formal de trabalho e desenvolver a sua própria empresa. Há quatro anos, ela deu uma nova cara para o dindin - conhecido também como geladinho ou sacolé - e, hoje, vende o produto em feiras, clubes, festas infantis e até casamentos.

"A minha mãe já fazia, há muito tempo, para ajudar nas despesas da casa. Com o tempo, fui desenvolvendo a ideia e inovando um pouco mais. Temos vários sabores - de frutas, chocolates e até alcoólicos, para festas de adultos", contou. A Vila do Dindin nasceu quando seu filho mais novo tinha um ano. "Nasceu dessa necessidade de estar perto deles, que, às vezes, trabalhando fora, eu não conseguia. E está dando certo", disse ela, que é mãe de três filhos.

Juliana participou, neste mês, de uma feira de mulheres empreendedoras, em Brasília, promovida pela rede Maternativa, primeira startup (pequena empresa focada em tecnologia para novos modelos de negócios) de impacto social voltada ao empreendedorismo materno no Brasil. Cerca de 20 mulheres apresentaram seus produtos e serviços durante o evento.

Essa foi a terceira edição da feira, que já passou por Recife (PE) e São Paulo (SP), com workshops e palestras gratuitas para as mães empreendedoras. "Precisamos mostrar para a sociedade que mulheres mães estão à frente dos mais diversos tipos de negócios e que, quando você direciona sua compra para uma mãe empreendedora, está fomentando uma economia extremamente colaborativa", explicou Vivian Abukater, sócia da Maternativa.

Segundo ela, mulheres mães que têm dinheiro e independência financeira investem na educação dos filhos, no cuidado e no bem-estar da família. "A ideia é promover, em Brasília, esse pensamento, de fortalecer essa economia e ajudar as mulheres mães a encontrar independência financeira", explicou.

A dificuldade que teve durante a amamentação do filho fez a enfermeira Juliana Gomes, de 28 anos, desenvolver sua própria consultoria em amamentação, a Seio Materno. Formada há quatro anos, ela ainda busca um trabalho no mercado formal, mas espera agregar renda com o novo negócio. "Na primeira semana de nascimento do meu filho, tive problemas, e uma pessoa me auxiliou e me abriu esse olhar para a consultoria de amamentação, que eu nem sabia que existia. Fiz o curso e me especializei", disse, contando que o trabalho flexível também pode ser conciliado com a maternidade.

Há um ano e meio, a funcionária pública Moara Giasson, de 40 anos, teve seu primeiro filho e, com o marido, desenvolveu a Moaralê Saboaria Natural. O casal usa óleos e extratos do Cerrado e compra a matéria-prima de extrativistas e agricultores familiares, buscando valorizar essa cadeia com produtos de qualidade a preços acessíveis.

O novo negócio também foi um refúgio para Moara durante a licença-maternidade. "No início, a criança demanda 100% do seu tempo, mas ter essa outra responsabilidade era um momento de estar pensando em mim, apesar de ser a empresa, de sair desse ciclo de ser só a provedora (do filho). Às vezes, eu fazia mídia social na madrugada, enquanto estava amamentando", contou.

A sócia da Maternativa, Vivan Abukater, citou pesquisa da Fundação Getulio Vargas que mostra que 48% das mulheres deixam o mercado de trabalho antes do filho completar um ano de idade. Por outro lado, pesquisa da Rede Mulher Empreendedora aponta que 75% das mulheres que empreendem fazem isso depois que os filhos chegam.

De acordo com Vivian, esse é um empreendedorismo de necessidade, não de oportunidade, e, por isso, nem sempre elas têm o conhecimento necessário para gerir o novo negócio. "Dentro da rede Maternativa, elas desenvolvem com outras mães todas aquelas coisas que estão faltando", explicou.

A rede nasceu em 2015, quando duas amigas começaram a enfrentar dificuldade, já durante a gestação, em relação ao mercado de trabalho. Elas, então, organizaram um grupo no Facebook para trocar experiências sobre o assunto. Em um mês, reuniram 600 mulheres. Hoje, são 24 mil. "Naquele momento, ficou muito claro que existe uma penalidade materna quando a gente olha para o mercado de trabalho, e que não era questão privada delas, mas uma questão pública e sistêmica", explicou Vivian.

No grupo, as mulheres trocam informações sobre empreendedorismo materno e como é possível se manter ativa no mercado de trabalho conciliando maternidade e carreira. "Quando uma mulher se torna mãe, ela leva essa potência da maternidade para todas as áreas da vida dela, inclusive para o trabalho", disse Vivian, que é mãe e ex-executiva de uma grande empresa.

No início deste ano, a Maternativa ganhou um prêmio do Facebook como uma das 100 comunidades com maior impacto social do mundo. "Apesar de não sermos um grupo muito grande - enquanto a médias de outros grupos é de 8% a 10% de engajamento, o nosso tem 80% de engajamento, então essa é a riqueza -, é uma troca, quem faz a Maternativa existir são as mulheres mães", ressaltou Vivian.

Além de promover a troca de conhecimento e experiência entre as mães no ambiente virtual e presencial, com feiras e palestras, o modelo de negócio da Maternativa busca engajar a iniciativa privada no processo de transformação do mercado de trabalho para as mulheres e na redução da penalidade materna. As organizadoras da rede prestam consultoria, fazem palestra e desenvolvem conteúdo para marcas e empresas.

De acordo com Vivian, cada vez mais estão surgindo comitês de igualdade de gênero dentro das empresas, e o mercado começa a discutir a questão da penalidade materna, da barreira que as mães têm para crescer profissionalmente e ocupar cargos de liderança. A sócia da Maternativa destaca, entretanto, que, quando se torna mãe, a mulher fortalece várias habilidades.

"A mulher se torna altamente focada, ela vira detector de bobagem, tudo que não é importante ela tira da frente e foca no que é importante", explicou. A capacidade de liderar e trabalhar em equipe, a autonomia, a proatividade e a empatia com as equipes são outras habilidades que as mães levam para o seu ambiente de trabalho.

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