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Porto Alegre, segunda-feira, 05 de agosto de 2019.
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Jornal do Comércio

Empresas & Negócios

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Com a Palavra

Edição impressa de 05/08/2019. Alterada em 05/08 às 03h00min

Arroz, o alimento básico e de operação complexa

Elio Jorge CoradinI Filho é presidente do Sindicato das Indústria do Arroz e sócio da Coradine Alimentos

Elio Jorge CoradinI Filho é presidente do Sindicato das Indústria do Arroz e sócio da Coradine Alimentos


ARQUIVO PESSOAL/DIVULGAÇÃO/JC
Thiago Copetti
A orizicultura gaúcha enfrenta uma grande crise que, obviamente, não permite que a indústria passe imune por ela. Para permanecer no mercado, as empresas de beneficiamento do grão convivem com elevados custos brasileiros comparados aos concorrentes do Mercosul. Há também as guerras fiscais entre estados e até incentivos a importações que desestabilizam a competitividade da indústria gaúcha.
A orizicultura gaúcha enfrenta uma grande crise que, obviamente, não permite que a indústria passe imune por ela. Para permanecer no mercado, as empresas de beneficiamento do grão convivem com elevados custos brasileiros comparados aos concorrentes do Mercosul. Há também as guerras fiscais entre estados e até incentivos a importações que desestabilizam a competitividade da indústria gaúcha.
Para o diretor administrativo e de exportações da Coradini Alimentos, Elio Jorge Coradini Filho, também presidente do Sindicato da Indústria do Arroz, a equação é difícil, vem exigindo demissões para equilibrar a queda na demanda, mas também estimula parcerias com produtores, a desbravar novos produtos e até países.
Empresas & Negócios - O arroz é muito consumido no Brasil e fora daqui, e o Rio Grande do Sul o maior produtor nacional e um dos maiores polos depois da Ásia. De onde vem toda essa crise?
Elio Jorge Coradini Filho - Há uma dificuldade muito grande para enfrentar o custo Brasil que, no setor de produção de arroz, inclui, por exemplo, a grande tributação sobre os insumos, que fica muito acima do que ocorre nos outros países do Mercosul, que utilizam, no caso dos químicos, os mesmo princípios ativos que nós. Mas, apesar de eles terem acesso ao nosso mercado, nós não temos acesso aos mesmos produtos que eles. Também vale destacar que o custo da energia elétrica no Paraguai, outro grande produtor, é muito barata. E essa energia barata impacta tanto no setor da produção, nos custos com irrigação, como da indústria de beneficiamento. Também temos aqui um custo do Funrural e um grande passivo com ele, assim como valores elevados de frete, cujo tabelamento somos fortemente contra. E o frete encarece tanto o transporte do produtor para enviar à indústria quando da indústria para enviar o arroz ao supermercado. Também arcamos com a CDO (Contribuição para Desenvolvimento da Orizicultura), uma taxa que não temos como escapar e que incide apenas sobre o arroz industrializado aqui no Rio Grande do Sul, que produz quase todo o arroz brasileiro. A contribuição incide inclusive sobre o grão que sai do Estado para exportação. Apenas com o CDO, pagamos cerca de US$ 6 a US$ 7 por tonelada, o que significa perda de competitividade. Se começarmos a somar todos esses custos, perdemos no preço de vendas, certamente, ao menos 10% de competitividade.
Empresas & Negócios - Quais são os problemas para as empresas beneficiadoras?
Coradini Filho - Na industrialização, o desafio que temos com a recessão econômica é a redução da demanda que nos impôs reduzir custos e readequação das empresas para trabalhar com um menor volume apenas para manter um resultado positivo. Não estou nem falando em manter rentabilidade. Todas as indústrias vinham se preparando para crescer, não para reduzir. Então, cada uma hoje busca suas formas de reduzir os custos e conviver, dos portões para fora, com uma grande guerra fiscal. Cada estado quer comercializar o produto e não tem industrialização própria, tenta tirar suas fatias de ganhos do arroz e aumentar suas arrecadações, seja gerando emprego, seja com tributos. E criam, para isso, entraves na tentativa de forçar indústrias que não tenham operações locais a se instalar em seus estados. É o que faz, por exemplo, Pernambuco com o arroz que compra do Rio Grande do Sul. O produto sai daqui pagando entre 4% e 7% de ICMS e para entrar lá tem que pagar a diferença sobre 18% no estado de Pernambuco. Para quem tem um regime especial obtido para investimentos dentro de Pernambuco, que pode ser apenas empacotamento, há um desconto de 90% sobre esse extra.
Empresas & Negócios - E quem tem se instalado lá, por exemplo, encontra uma operação viável?
Coradini Filho - O arroz sai daqui em contêiner ou a granel, em sacos de 50 quilos, para só empacotar em embalagens de 1 quilo. Mas esse "só" empacotar exige estrutura de movimentação de arroz, máquinas, filial, equipe de trabalho, carga e descarga, faturamento, contador... e essa estrutura não é barata. Para viabilizar esse investimento de empacotamento lá, a empresa precisa de uma grande escala de produção que ajude a dirimir esse custo, e nem todas conseguem. Isso fica restrito a 10 ou 15 indústrias que têm condições de fazer essa distribuição local, e o restante deixa de operar nesse mercado.
Empresas & Negócios - Em outros estados, ocorre o mesmo?
Coradini Filho - Em Goiás, que também protege muito operações locais, não se cobra imposto sobre o grão em casca. Mas cobram até 150% do valor do ICMS recolhido aqui, na origem, para o produto que entra embalado no estado de Goiás. Com tu vais competir com uma indústria que opera lá e ganha crédito sobre o grão comprado aqui e nós ainda pagamos a mais para vender lá? Não há como competir, por melhor que você seja. Em São Paulo e Minas Gerais, os dois maiores mercados, há proteções que inviabilizam a competição. Em Minas, tem isenção de ICMS para quem importar e empacotar lá dentro. No Rio Grande do Sul, pagaremos de 7% ou 12%. Ou seja, novamente ficamos fora do mercado. E aqui não há mais o que o estado do Rio Grande do Sul possa fazer dentro das regras do Confaz, não tem como conceder benefícios. O que teria de corrigir já não está no alcance do Estado, mas em uma reforma tributária nacional. Arrumar a casa não depende do Mercosul, precisamos primeiro criar um ambiente interno de homogeneização tributária, tanto para o importado como para a produção interna. Não só com ICMS, mas com CDO e com a próprio Funrural igual para o produtor doméstico e para o importado.
Empresas & Negócios - E como a Coradini tem conseguido enfrentar esse cenário tão adverso?
Coradini Filho - Temos organizado um plano de trabalho que inclui desde o produtor, estimulando a adoção de sementes em variedades especificas ao mercado desejado. Não adianta querer sempre o melhor arroz a um custo elevado e querer colocar em todos os mercados. Temos variedades medianas e outras muito boas. O que preconizamos é que o produtor não plante tudo de apenas uma variedade, mas distribua diferentes para que consiga ter uma boa produtividade equilibrada com o mercado que temos. Temos mercados exigentes, como o peruano, e menos exigentes, com o chileno e o africano. E agora se abrirá o mexicano, que também demanda um produto mediano. Temos de trabalhar com o desejo do comprador: uns querem qualidade e outros, preço.
Empresas & Negócios - Na indústria, que adaptações precisaram ser feitas?
Coradini Filho - Lamentavelmente tivemos de nos adequar às reduções de volumes beneficiados, com redução de 10% da equipe em uma unidade e 15% em outra. Automatizamos alguns processos de embarque em razão de novas regulamentações da área de trabalho. Assim, também reduzindo postos e cargos, ficando com menos custos. Passamos a economizar energia fazendo geração com queima da casca de arroz, em Bagé, reduzindo custos de 5% a 6% ao entrar no mercado livre, em Dom Pedrito. Aumentamos a equipe de vendas e passamos a comercializar também arroz e feijão, que entram nos mesmos canais de venda e nas mesmas gôndolas onde já entramos com o arroz.
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