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Porto Alegre, segunda-feira, 01 de julho de 2019.
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Opinião

Edição impressa de 01/07/2019. Alterada em 01/07 às 03h00min

Propósitos ou despropósitos?

Luiz Fernando Reginato
Clientes frustrados com produtos, serviços ou promessas, costumam reclamar, criticar e punir as empresas infratoras com o abandono ou danos à imagem da marca. Nada de novo, apenas comportamentos convencionais de clientes exercendo sua autonomia e barganha como consumidores.
Clientes frustrados com produtos, serviços ou promessas, costumam reclamar, criticar e punir as empresas infratoras com o abandono ou danos à imagem da marca. Nada de novo, apenas comportamentos convencionais de clientes exercendo sua autonomia e barganha como consumidores.
Mas, como explicar o comportamento de milhares de profissionais protestando contra suas próprias organizações, em desacordo com a ética duvidosa de suas práticas? E não se trata de questões trabalhistas: a indignação mira a falta de lisura das políticas ambientais e comerciais, incluindo protecionismos a executivos denunciados por assédio sexual.
O fato mais surpreendente são os autores da façanha. São jovens da geração Y, ou millennials - considerados recursos estratégicos para a inovação - contra empresas gigantes da tecnologia como Amazon, Google e Salesforce, para onde foram atraídos pela crença na fidelidade de propósitos de "fazer um mundo melhor".
Não é de hoje que as pessoas estão em busca de propósitos. Nos últimos 200 anos, na literatura de 11 países pesquisados, a expressão "um propósito para a vida" foi a mais recorrente, segundo Gabriel Grant, da Universidade de Yale. A comprovação da força dos propósitos abalou até a clássica hierarquia das necessidades de Maslow, pelo estudo do psiquiatra austríaco Viktor Frankl, ao comprovar que as pessoas estabelecem seus motivos de realização já na base da pirâmide e não no seu topo.
Essa revolução nas motivações humanas nos ajuda a entender o comportamento dos manifestantes que, ao buscarem significado maior para sua existência, dignificam seu tempo, seu trabalho, seus relacionamentos e sua própria maneira de viver. Um misto de hedonismo com altruísmo - de querer viver intensamente e de fazer a diferença no mundo - caracteriza essa geração. Assim, não mais distinguem vida e trabalho e, tampouco, ser profissional, consumidor ou cidadão. Daí sua postura de exigir maior transparência e respeito.
E é bom as organizações irem se acostumando com isso: qualquer dissintonia entre o discurso e a prática transforma os propósitos em despropósitos e o encantamento se desfaz. Propósitos fortes são sustentados pela integridade de quem os representa. Dessa busca por honestidade e autenticidade, como prega Joey Reiman em seu livro "Propósitos", não escapam governos, instituições nem empresas.
Permanece o histórico dilema empresarial: como equilibrar a busca do lucro e da sobrevivência com políticas éticas e sociais voltadas para a humanidade? Reflexões e proposições que faço em meu livro Ideias & Ideais para a Excelência e Integridade, ao colocar a ética, governança, talentos, liderança e clientes numa mesma perspectiva.
Apesar de vivermos numa ciranda do consumo e num mundo de consumidores, prefiro acreditar na evolução moral da sociedade e no relevante papel das organizações, convicto de que o mercado é apenas uma função da sociedade e, como tal, pode ser orientado por interesses mais nobres.
Um belo desafio para a governança corporativa!
Mestre em sociologia, sócio-diretor da RGM Consultoria Empresarial, reginato@rgmconsult.com.br
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