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Porto Alegre, segunda-feira, 17 de setembro de 2018.
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Edição impressa de 17/09/2018. Alterada em 17/09 às 00h17min

Grupo debate conceitos e problemáticas enfrentadas por homens negros

ALISSON BATISTA/DIVULGAÇÃO/JC
Pedro Carrizo
Na década de 1970, a música Clube da Esquina nº2, eternizada pela voz do cantor Milton Nascimento, entoava a letra: "Porque se chamavam homens, também se chamavam sonhos, e sonhos não envelhecem". Dos versos para as discussões, a definição do ser homem, assim como do ser mulher, é uma construção constante e infinita. Em Porto Alegre, o grupo MilTons - Masculinidades Negras faz reuniões para discutir, justamente, o masculino, o ser negro e os fatores externos que os fazem como são. Mesmo sem conclusões ou respostas certeiras, novas descobertas sempre acontecem.
O grupo, formado por 12 integrantes - entre 26 e 37 anos -, realiza encontros todas as segundas-feiras e, a cada início de semana, acrescenta novos conceitos e nuances às problemáticas do homem negro. Entre elas, a hipersexualização, o trabalho, as relações com mulheres negras e brancas, a paternidade, a agressividade e as oportunidades de ensino são pautas corriqueiras no MilTons.
"O negro sempre esteve preocupado em sobreviver. Quando pode viver, não sabe. Nunca teve a oportunidade. Nossos pais trabalharam muito, e, agora, qual é o nosso papel? Estamos atrás da subjetividade em cada um", diz o jornalista Airan Albino, fundador do projeto.
Completando a fala de Albino, o estudante de Administração David D'vila ressalta que o projeto mudou a forma como ele se percebe em sociedade, e que a busca constante por respostas sobre o que é ser homem e o que é masculino ganham novas camadas a cada encontro. "Mesmo sabendo que não vamos encontrar respostas concretas, buscamos tanto que acabamos nos descobrindo no processo e evoluindo a discussão", diz D'vila, que participa do MilTons desde o segundo encontro.
Para que os participantes possam se abrir, considerando as complexidades de cada um, e de acordo com o que sentem no momento da reunião, a primeira etapa dos encontros é o check-in - momento em que os integrantes, um por um, falam como foi seu dia para os demais.
Segundo o psicólogo e integrante do MilTons Cainã Nascimento, a primeira etapa já os contextualiza a partir de uma vivência. "Se o David está irritado com algo que aconteceu na sua casa, por exemplo, ele pode estar mais intenso na reunião. Se está preocupado com alguma situação, pode ficar mais quieto. A partir disso, se estrutura a conversa", diz o psicólogo.
Nascimento afirma que, por mais acadêmico que o grupo seja, já que a maioria cursa ou já cursou Ensino Superior, eles não se baseiam em uma teoria para evoluir o diálogo. "Debatemos a partir de nossas relações, então o esquema é indutivo, não deduz nada. A gente fala sobre nossas experiências e começa a ver padrões", diz o psicólogo, acrescentando que, acima de tudo, o MilTons busca criar um ambiente de cuidado, acolhimento, segurança e honestidade.
Inspirado no Coletivo Atinuké, grupo de estudos formado por mulheres negras em Porto Alegre, o MilTons acaba de completar um ano e, agora, busca expandir sua atuação. Para além das reuniões semanais, em que os 12 amigos discutem a masculinidade e suas ramificações, estão sendo promovidos encontros mensais no Espaço Escola Africanamente para homens negros, fora do grupo, dispostos a participar. O MilTons também começa a ir a campo, realizando ações em outras instituições.
As primeiras atividades externas foram no Centro de Promoção da Criança e do Adolescente (CPCA), no bairro Lomba do Pinheiro; no Centro Infanto Juvenil Monteiro Lobato, no bairro Restinga; e na Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fase), no bairro Menino Deus. Durante as ações, o MilTons estabelece rodas de conversa e oficinas a fim de indagar os jovens, usando as masculinidades como ponto de partida.
"Nas três oportunidades, foram as coordenadoras das instituições que nos chamaram porque viam a necessidade daqueles guris conversarem com homens. Normalmente, só são mulheres. A assistente, a senhora, a dona", diz Albino, acrescentando que as ações também foram um movimento para que o MilTons saísse da bolha.
Na Fase, a proposta do grupo era levantar a representatividade nos cerca de 20 alunos que participaram das conversas e oficinas, durante três sextas-feiras. O escritor e membro do projeto Marlon Ramos teve a missão de provocar os jovens para só depois presenteá-los.
"Perguntei o que eles achavam dessa fase da vida, da Fase instituição e qual o pensamento de futuro que eles tinham. Dali, saiu uma poesia que tratava sobre possibilidades. No final, todos receberam o texto. Foi uma troca incrível", diz Ramos. Sobre o projeto MilTons - Masculinidades Negra, o escritor reflete: "Quando se chega no lugar certo, não existe atraso, só chegada. Então, formar o grupo foi uma certeza, um acerto, agora, só vai."
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