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Porto Alegre, segunda-feira, 30 de julho de 2018.

Jornal do Comércio

Empresas & Negócios

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gestão

Edição impressa de 30/07/2018. Alterada em 30/07 às 01h00min

Empreendedorismo de impacto social cresce no Brasil

APROXIMANDO CI/DIVULGAÇÃO/JC
Empreender para promover cidadania e resolver um problema social e ambiental. Esse propósito tem motivado o surgimento de várias organizações e startups, empresa de inovação e base tecnológica, que conjugam os resultados financeiros à geração de benefícios para uma comunidade carente de serviços básicos, como educação, saúde, moradia, emprego e outros.
O foco desse tipo de empreendimento, conhecido como negócio de impacto, está na base da pirâmide social brasileira, composta, principalmente, por classes menos favorecidas. No Brasil, cerca de 168 milhões de pessoas integram as camadas com faixas de renda mais baixas, segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Foi com o olhar nesta população que Kdu dos Anjos iniciou o projeto "Lá da Favelinha", no Aglomerado da Serra, maior comunidade de Belo Horizonte (MG), com 150 mil habitantes. Apaixonado por livros, o ator de teatro e cantor de rap montou, inicialmente, uma biblioteca popular em um pequeno espaço, que acabou se transformando em um ponto de formação educacional, cultural e gerador de renda para as famílias da comunidade.
No ritmo do passinho e com as rimas do rap, a organização cresceu promovendo eventos, oficinas, apresentação de artistas locais, palestras e vendendo roupas produzidas na região. Atualmente, cerca de 70 famílias têm renda a partir das atividades realizadas pela Favelinha, que também serve de apoio para encaminhar jovens para o mercado de trabalho formal.
"Por que investir na periferia? Hoje, 65% das crianças estão na periferia. Os resultados estão incríveis, desde o resultado social, do amor, da criança que já reprovou três vezes e, hoje em dia, é a melhor aluna da escola. Foi toda uma questão de empoderamento, e várias famílias estão gerando renda, gente que só tinha o tráfico ou o subemprego como destino", relata Kdu dos Anjos.
O Brasil tem 17 milhões de pequenos negócios, que representam 99% do total de empresas do País, 52% dos postos de trabalho e 27% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Dentro desse universo, houve crescimento, nos últimos 10 anos, do número de negócios de impacto no Brasil e no mundo.
Levantamento do Sebrae em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) identificou mais de 800 negócios de impacto social em todo o País. Boa parte dos novos negócios que prestam serviços sociais e geram desenvolvimento econômico são startups.
"Você pode ter um negócio que já existe há anos, que tem um modelo de gestão tradicional, mas que, ao mesmo tempo, gera um impacto. Agora, os que estão surgindo hoje, a grande maioria são startups, jovens que começam a olhar para a base da pirâmide como uma oportunidade para também atender ao anseio de contribuir para uma causa", explica Célio Cabral Sousa Júnior, gerente nacional de Inovação, Tecnologia e Sustentabilidade do Sebrae.
Os negócios de impacto social têm movimentado cerca de US$ 60 bilhões em nível global e registrado aumento aproximado de 7% ao ano, segundo levantamento da Ande Brasil (Aspen Network of Development Entrepreneurs), uma rede de empreendedores de países em desenvolvimento.
Ainda de acordo com a entidade, em outra pesquisa feita com a Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap), foram alocados US$ 1,3 bilhão em investimentos de impacto na América Latina em 2014 e 2015. O Brasil foi o segundo maior mercado da região.

Educação política ganha diferentes canais de ação

Outra organização que tem se destacado no empreendedorismo social no Brasil é a Politize, que incentiva ações de educação e cultura política. Idealizada por Diego Calegari, que se envolve com causas sociais desde os 17 anos, a Politize começou a atuar em 2014 com o objetivo de gerar conhecimento sobre política de uma forma fácil em diferentes canais.
"Sempre quis trabalhar com atividades que me conectassem com um propósito, que, de alguma maneira, me fizesse sentir que meu tempo, minha energia, minha história estavam sendo usados para uma causa maior. E escolhi uma que é pouco comum, a política, uma área bastante árida, que desperta sentimentos negativos na maioria das pessoas", conta Calegari.
Depois de três anos no mercado, a Politize tem 14 milhões de usuários, uma média de 2,8 milhões de acessos por mês, e disponibiliza mais de 1,3 mil conteúdos educativos em podcasts, vídeos, infográficos, textos e cursos, entre outros recursos. A organização desenvolve, também, uma estratégia off-line, por meio da atuação de mais de 80 embaixadores que visitam escolas, comunidades, universidades para falar sobre política e democracia de forma descontraída e didática.
"A reação é muito interessante, porque não é só uma transformação de conquista do conhecimento formal, mas de como a gente emocionalmente se conecta com política, deixando de ser algo feio, ruim, que se associa à corrupção, para algo extremamente necessário para a vida de cada um de nós", explica.
O empreendedor se queixa que, no Brasil, ainda há confusão desse tipo de negócio com filantropia e que o retorno social ainda é pouco visto como uma oportunidade de negócio. Ele também critica a questão jurídica de definição das empresas que atuam nessa área e a falta de profissionalismo do setor, que carece, muitas vezes, de metas, estratégias de gestão e condições para capacitar e remunerar a equipe.
"A gente vê um setor social muito informal ainda, muito na base da ajuda. Trabalho voluntário é sensacional, importante, mas existe um limite do que dá para fazer como voluntário. As pessoas que estão se dedicando à causa também precisam viver. Esperar que todo o trabalho social seja feito somente por voluntariado é um equívoco e limita muito o impacto de organizações que têm um trabalho muito legal", analisa Calegari.

Definir um modelo de negócio é um dos desafios

Com a premissa de gerar lucro e melhorar a qualidade de vida da população, os negócios de impacto têm crescido no Brasil sob vários desafios. Os principais problemas enfrentados pelos empreendedores sociais foram debatidos durante o Startup Summit, primeiro evento nacional sobre empreendedorismo de inovação e tecnologia realizado neste mês, em Florianópolis.
A definição de um modelo de negócio, a falta de um marco legal específico para o negócio de impacto social e a forma de atração e captação de recursos foram os principais pontos levantados pelos especialistas e empreendedores sociais.
"Essa é uma agenda nova, mas a gente quer muito mais empreendedores de impacto social no Brasil, seja pelos problemas que a gente visualiza todo dia, mas, principalmente, para pensar como é que vocês podem trazer soluções inovadoras para resolver os problemas sociais no Brasil", disse Célia Cruz, economista e diretora do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), organização que articula empresários e investidores em torno de inovações sociais.
A especialista apontou que os principais atores da oferta de capital do País atuam por meio de doações ou investimentos diretos, e defendeu que o movimento deve crescer com a lógica de um negócio que gere impacto de forma inovadora e, ao mesmo tempo, tenha performance e sustentabilidade financeira.
Célia destacou, ainda, a importância de atrair a população-alvo para o desenho dos negócios e de mensurar, por meio de indicadores, o impacto real do investimento. A organização atua, também, no fortalecimento de intermediários, que podem ser fundos de investimentos ou universidades. "A gente acredita muito no papel da universidade para formar talentos que já nascem com essa cabeça de impacto e performance financeira", afirmou.
O ICE formou, recentemente, a Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto, que gerou 15 recomendações para o Brasil avançar no apoio ao empreendimento social. A aliança é a representante brasileira na rede global formada por 18 países que também estão atuando por políticas de desenvolvimento do setor.

Estratégia nacional busca apoio da União

Os principais atores do novo mercado se aproximaram do governo federal para conseguir apoio para o setor e criaram um grupo de trabalho composto por representantes de sete ministérios, entre eles, o de Desenvolvimento Social (MDS), da Indústria (Mdic), do Planejamento, além de organizações como Pnud, Sebrae e potenciais financiadores como o Bndes, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Caixa Econômica, Banco do Brasil, entre outros.
O grupo elaborou a Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto Social (Enimpacto), que pretende, em 10 anos, melhorar o ambiente de desenvolvimento das soluções sociais e promover iniciativas de inclusão desse tipo de negócio na cadeia de valor das empresas.
Além de participar dessa estratégia, o Sebrae desenvolve projetos em oito estados do País. A instituição oferece apoio aos empreendedores desde a concepção da ideia do empreendimento até a estruturação, validação do modelo de negócio e no processo de busca por investidor que possa dar o suporte necessário não só financeiro, mas também na gestão empresarial.
"Se a gente compara o Brasil com outros países, o nível de investimento que a gente tem em negócios de impacto é muito aquém do potencial que a gente teria. Um Brasil com 200 milhões de habitantes, com uma base da pirâmide formada sobretudo por comunidades de baixa renda, temos um volume enorme de pessoas que podem se beneficiar disso, ou seja, o mercado é enorme e tem muito a avançar", afirmou Célia.
Segundo o gerente, o Sebrae tem um orçamento de R$ 45 mi-
lhões para aplicar em fundos de investimentos em startups. A expectativa é que parte desses recursos sejam alocados diretamente nos negócios de impacto social e ambiental. O gerente afirmou, também, que vários fundos privados de investimentos têm demonstrado interesse na área e desenvolvido linhas direcionadas para empresas com objetivo social.

Cerca de 2 milhões de menores são explorados como mão de obra

Há 716 mil crianças que trabalham para consumo próprio, diz o Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil

Há 716 mil crianças que trabalham para consumo próprio, diz o Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil


/ALI AL-SAADI/AFP PHOTO/JC
O Estatuto da Criança e do Adolescente comemorou 28 anos neste mês. Apesar de ser considerado um marco importante para a defesa dos direitos desses grupos vulneráveis, de acordo com dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), de 2016, o Brasil tinha 1,8 milhão de crianças e adolescentes em situação de trabalho.
Segundo a Abrinq, existe um outro dado importante que deve ser levado em conta: há 716 mil crianças trabalhando para consumo próprio, segundo o Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (Fnpeti).
Ainda de acordo com a Abrinq, há 93 atividades categorizadas na lista das piores formas de trabalho infantil no País, entre elas, exploração sexual, tráfico de drogas, trabalho informal urbano, agrícola, doméstico e na construção civil, além de aliciamento para atividades ilícitas e formas análogas à escravidão, como sujeição por dívida, servidão e trabalho compulsório.
Uma das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU é a erradicação do trabalho infantil em todas as suas formas até 2025.
Um dos tópicos da pesquisa realizada pela Abrinq mostra a que agentes os consumidores atribuem responsabilidade sobre questões sociais e ambientais. Na maioria dos casos, os entrevistados apontam para uma responsabilidade compartilhada entre governo e empresas.
Segundo a pesquisa, 69% dos consumidores entendem que empresas e instâncias de governo são corresponsáveis pela não utilização de mão de obra infantil, e 64% acham que o cumprimento das cotas de aprendizagem também é responsabilidade de ambos.
Para 57%, empresas e governo também devem ajudar a reduzir a distância entre ricos e pobres, e, para 56%, os dois têm responsabilidade de reduzir violações de direitos humanos.

Atuação social influencia escolha do consumidor

A atuação social das companhias influencia o consumo de seus produtos e elas são responsáveis, junto com o governo, pelo combate ao uso de mão de obra infantil. As conclusões são baseadas em pesquisa encomendada pela Abrinq, organização que defende direitos e exercício da cidadania de crianças e adolescentes. Foram entrevistadas 1.068 pessoas em todas as regiões do País, homens e mulheres com idade entre 25 e 70 anos, em dezembro de 2017.
O levantamento buscou avaliar também que iniciativas estimulam a formação de uma imagem positiva das empresas junto aos consumidores. Entre as mais votadas estão: manter programas de aprendizagem para jovens (34%); colaborar com escolas, postos de saúde e entidades sociais (32%); não colocar em campanhas grupos sociais em situações constrangedoras, preconceituosas ou abusivas (28%); adotar práticas de combate à poluição (24%); e atacar a violência contra crianças e adolescentes (24%).
Segundo a pesquisa, o consumidor valoriza empresas que atuem na promoção da educação, do meio ambiente, da saúde e do combate ao trabalho infantil. Ganham valor aos olhos dos consumidores as empresas que colaboram com a limpeza do meio ambiente (48%); melhoram cuidados com a saúde da população (44%); melhoram a educação (41%); trabalham para prevenir aumento da criminalidade (38%); e ajudam a oferecer uma educação infantil de qualidade (37%).
Desde 1995, a Abrinq tem uma iniciativa específica para engajar o setor empresarial na prevenção e combate à exploração da mão de obra infantil e estimular o investimento social privado, o Programa Empresa Amiga da Criança (Peac).
Podem participar da iniciativa empresas que têm como compromissos não explorar o trabalho infantil e não permitir esse tipo de atividade em sua cadeia produtiva; realizar ações sociais em benefício de crianças e adolescentes, e promover a formação profissional e o acesso ao emprego protegido para adolescentes. Além disso, estão vetadas empresas produtoras, beneficiárias e comerciantes de fumo, armas de fogo e bebidas alcoólicas.

Combate ao trabalho infantil inclui fornecedores

Uma das maneiras de combate ao trabalho infantil - medida que é bem-vista pelos consumidores - é ampliar o veto a toda a cadeia de fornecedores, destaca pesquisa encomendada pela Abrinq, organização que defende direitos e exercício da cidadania de crianças e adolescentes. É nesse aspecto que a atuação de grandes empresas pode encontrar maior repercussão. Para colocar isso em prática, as empresas são aconselhadas a inserir uma cláusula em contrato que encerra negócios com o fornecedor caso ocorra trabalho infantil. A ideia tem encontrado respaldo: 62% das participantes declaram que inserem a cláusula nos seus contratos.

A pesquisa realizada com consumidores aponta que 80% deixariam de comprar produtos e ou serviços de empresas que utilizassem mão de obra infantil, 13% não deixariam e 7% não sabem. O programa recomenda também ações educativas e de esclarecimento junto a clientes, funcionários e comunidade para o combate do trabalho infantil e a contratação de aprendizes.

A Abrinq estimula a prática da aprendizagem como forma de combate à contratação ilegal dos jovens. Entre as empresas participantes, 64% dizem ter obrigação legal de contratação de jovens aprendizes.

Para avaliar os resultados obtidos ao longo dos 23 anos de iniciativa, a Abrinq fez um mapeamento interno de suas associadas e um levantamento com consumidores.

"O que nos chamou a atenção foi que o consumidor está hoje mais interessado em como as empresas se posicionam e o que elas estão fazendo. E isso direciona a compra", avalia Denise Rosário, gerente executiva da Abrinq. "Em condições iguais de produto e preço, as pessoas dão preferência aos produtos de empresas com compromisso social e ético", diz. "O consumidor cada vez mais entende que as empresas têm de ajudar a diminuir as distâncias entre pobres e ricos."

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