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Porto Alegre, quinta-feira, 19 de julho de 2018.
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Jornal do Comércio

Empresas & Negócios

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inovação

Edição impressa de 16/07/2018. Alterada em 19/07 às 11h33min

Startups turbinadas por mulheres

Empresas nascentes fundadas por empreendedoras faturam mais, aponta estudo

Empresas nascentes fundadas por empreendedoras faturam mais, aponta estudo


FOTOS DANIELA RADAVELLI/DIVULGAÇÃO/CIDADES
Startups fundadas por mulheres recebem muito menos investimento que as criadas por homens. Ainda assim, as empresas instituídas por elas dão um retorno maior em receita no longo prazo do que as criadas por eles. Essa é a conclusão de um novo estudo realizado pelo Boston Consulting Group (BCG) em parceria com a MassChallenge - rede de aceleradoras norte-americana que oferece mentoria e recursos para startups.
Ao analisar 350 empresas que foram aceleradas em programas do MassChallenge - sendo 258 fundadas por homens e 92, por mulheres -, o BCG observou que as empresas com fundadoras do sexo feminino receberam, em média, US$ 935 mil em investimentos. Enquanto isso, as companhias fundadas por homens receberam US$ 2,1 milhões, em média, em aportes de capital de risco.
A longo prazo, porém, elas geraram maior receita, apesar do baixo investimento inicial. Segundo o BCG, as companhias cofundadas por mulheres geraram 10% mais em renda acumulada em um período de cinco anos: foram US$ 730 mil contra US$ 662 mil, no caso dos homens. Em outras palavras, a cada US$ 1 investido na empresa, as mulheres geraram US$ 0,78, enquanto os homens geraram menos da metade: US$ 0,31.
Se as empresas fundadas por mulheres geram maior resultado, por que elas não conseguem levantar cifras similares às obtidas pelos empreendedores? Há vários fatores envolvidos, de acordo com o relatório, como o machismo. Segundo o estudo do BCG, empreendedoras são mais questionadas se têm o conhecimento técnico básico para liderar o negócio. "Os investidores simplesmente presumem que as mulheres fundadoras não têm esse conhecimento", diz o BCG, no estudo.
Nas apresentações feitas aos investidores, esse não é o único entrave. Elas também são olhadas com desconfiança, por não responderem diretamente a críticas. Outro fator está relacionado à ousadia: enquanto os homens fazem projeções mais arriscadas, as mulheres são mais conservadoras.
Ao longo dos últimos anos, tem crescido o número de mulheres que tiraram suas startups do papel. De acordo com a Ace, em 2017, o número de empresas fundadas por mulheres que foram aceleradas por lá passou para 29% do total - há cinco anos, a participação feminina nos programas era de 25%.
Segundo Ajnsztajn, esse foi um dos efeitos positivos da crise econômica: mais pessoas decidiram empreender, inclusive mulheres. "Também acho que é um reflexo do empoderamento feminino", afirma. "As mulheres estão lutando por melhores salários e querem superar os desafios da desigualdade."
Para quem está no front, a sensação é parecida. "Em 2009, quando fui contratada pela primeira vez em uma startup, era vista como uma alienígena pelas minhas amigas", conta a mineira Roberta Vasconcellos, de 30 anos, cofundadora e presidente executiva da startup Beer of Coffee. Na época, só havia mais uma mulher na empresa.
Na própria Beer or Coffee - que fundou, em 2016, com o irmão Pedro Vasconcellos -, o time já destoa da média brasileira. Dos 13 funcionários, sete são mulheres. O aplicativo, que oferece um passe livre em 400 espaços de trabalho compartilhado (coworkings) pelo País, já conta com 80 mil assinantes.
Para a empreendedora, ainda há vários paradigmas a serem quebrados pelas mulheres no ambiente de inovação, mas pesquisas recentes, como a do BCG, mostram que startups lideradas por mulheres são competitivas e até mesmo trazem resultados melhores em longo prazo.
"Acho que a mulher tem uma capacidade extraordinária de inovar e de gerenciar negócios, pois somos naturalmente multitarefa", afirma Márcia Malaquias, diretora de operações e cofundadora da startup Alluagro, que usa geolocalização para fazer a ponte entre donos de máquinas agrícolas e produtores rurais.
Mesmo trabalhando em um ambiente tradicionalmente masculino, ela diz não sentir dificuldades por ser mulher. "Ao entrar no mercado, vi que não era tão complicado", conta. "Ganhei a confiança dos prestadores de serviço."

Área de tecnologia ainda precisa ser mais explorada

Embora elas estejam se destacando na liderança, ainda existem áreas das startups em que ainda é difícil ver mulheres, como as ligadas ao desenvolvimento de tecnologia. Trata-se de um reflexo do baixo número de profissionais do sexo feminino que se formam nessa área. De acordo com a ONU Mulheres, apenas 18% dos graduados em Ciências da Computação no mundo são mulheres. "Culturalmente, a informática sempre foi vista como uma profissão para homens", diz Ajnsztajn, da Ace. Segundo ele, a maior parte das empreendedoras que conhece não são formadas em Computação.
Nicolle Stad, presidente da Inti, que oferece uma plataforma de venda de assinaturas e ingressos, conta que, dos nove funcionários da startup, somente três são mulheres, incluindo a presidente. "Todos os programadores são homens. Não cheguei a receber nenhum currículo de mulher para os cargos de tecnologia", afirma. Ela, por exemplo, é formada em Administração e deixou uma carreira no varejo para fundar a Inti, que focou na área de cultura e lazer. "Nossa plataforma se parece com o site do cliente, assim é mais fácil para ele manter o engajamento e coletar dados sobre seu público", explica a empreendedora.
Hoje, a startup gerencia o programa de parceria do Masp, do Museu de Arte do Rio de Janeiro e do Inhotim, e cuida até do passaporte para o torcedor do Palmeiras do Allianz Parque. "No primeiro ano, processamos R$ 10 milhões em transações e, no segundo, R$ 24 milhões", diz ela, orgulhosa. "Nossa meta é bater R$ 70 milhões em 2018."
 

Em busca de mais espaço


FREEPIK.COM/DIVULGAÇÃO/JC
A arquiteta paulistana Marcia Monteiro, fundadora da startup Upik, lançou o serviço Arquiteto de Bolso no ano passado. Ele funciona dentro do aplicativo de mensagens instantâneas Facebook
Messenger: depois de um robô virtual cadastrar o interessado, um arquiteto dá orientações sobre como reformar sua residência - a uma fração do preço geralmente cobrado no mercado. Em apenas cinco meses, a startup conseguiu fechar contratos com grandes varejistas de construção, como Leroy Merlin e C&C. A atenção do mercado ajudou Marcia a levantar R$ 350 mil para financiar a startup.
Marcia é exemplo de um grupo de mulheres brasileiras que está tomando a dianteira de startups no País. Apesar de os homens ainda representarem 74% da força de trabalho dessas empresas, de acordo com pesquisa da Associação Brasileira de Startups (ABStartups) em parceria com a consultoria Accenture, elas não têm se intimidado.
O lançamento do Arquiteto de Bolso encerrou um longo caminho para a Upik, que nasceu off-line. Quando Marcia abandonou o escritório de arquitetura onde trabalhava, em 2015, para fundar a empresa, ela colocou um trailer na rua para atender quem estava reformando a casa. Havia demanda, mas, em um ano, só atendeu 130 pessoas.
Para ampliar o negócio, só abraçando a internet. Assim, Marcia participou de um programa de aceleração de startups e, com orientação, transformou o serviço. "Percebi que deveríamos apostar em tecnologia, então abandonei o escritório móvel", conta Marcia. Desde então, o número de clientes atendidos pela Upik subiu para 480.
Isso só foi possível graças a muito suor e foco. Ao contrário de muitos empreendedores que podem trabalhar até as 22h todos os dias, Marcia não pode se dedicar tanto tempo, já que tem responsabilidades com a família. "Empreender é muito pesado, até para homens", diz ela. "Mas as mulheres ainda têm que conciliar a vida em casa, têm de levar os filhos para a escola."
Para o cofundador da aceleradora brasileira Ace, Mike Ajnsztajn, que apoiou a startup na "virada", a Upik está crescendo graças à capacidade de gestão de Marcia. Segundo ele, ela está na lista de "mulheres que fazem o trabalho equivalente ao de 20 homens".
A falta de familiaridade dos capitalistas de risco com os segmentos em que algumas delas atuam, como cuidados infantis e beleza, por exemplo, prejudica a obtenção de dinheiro. Apesar dos desafios, a situação tem melhorado, segundo a empreendedora carioca Fabíola Paes, de 34 anos, que fundou a startup Neomode em 2016. A empresa usa tecnologia para conectar canais físicos e digitais do varejo. "É preciso ser muito firme, mas vejo um movimento positivo de empreendedoras", conta.
Sob sua liderança, a Neomode conseguiu R$ 100 mil em investimento da fabricante de cosméticos L'Oréal em 2016. Desde então, a empresa já levantou sete investimentos-anjo e tem 15 clientes ativos, entre eles, a fabricante de cosméticos O Boticário. "Até agosto, pretendemos fechar uma nova rodada e levantar entre R$ 1 milhão e R$ 3 milhões", revela a executiva. A meta é chegar a 40 clientes até o final do ano.
Exemplos como o de Fabíola mostram que o cenário está começando a mudar para as mulheres. "Esse número de fundos e investidores-anjo que investem em mulheres vai melhorar quando tivermos mais empreendedoras prontas para desenvolver soluções que se conectam com essas oportunidades de negócios escaláveis", diz Danieli Junco, fundadora da aceleradora B2Mamy, que apoia mães empreendedoras.
Já para Amure Pinho, presidente da Associação Brasileira de Startups (ABStartups), aumentar a presença de investidoras no ecossistema é fundamental para mudar a realidade. "É uma questão de empatia, já que homens e mulheres têm jornadas diferentes", diz. "Se, na frente da empreendedora, estivesse uma mulher investidora, talvez ela se identificasse mais e investisse no projeto." Quem já investiu em mulheres reconhece a boa gestão das startups. "Até prefiro trabalhar com empreendedoras, pois elas costumam ter um foco maior", diz Ajnsztajn.
 

Novas iniciativas ajudam a 'equilibrar' a balança

Após trabalhar 10 anos como consultora no setor de tecnologia, Carine Ross, de 32 anos, percebeu que podia ajudar outras mulheres que seguiam carreiras nessa área. No ano passado, ela cofundou o Programa Elas, uma escola de liderança feminina. Trata-se de uma das novas iniciativas no País para promover a igualdade de gêneros nas empresas.

"As mulheres têm uma educação que nos faz ter dificuldades diferentes das dos homens", diz Carine. "Ensinamos como aprender a lidar com o estresse, a ansiedade e a baixa autoestima."

As turmas do Elas são de 30 mulheres, e as aulas acontecem em um fim de semana por mês durante três meses. O processo é composto por avaliações pessoais e dinâmicas. "Depois da primeira turma, 30% das alunas foram promovidas", conta Carine. "É como se a gente as tivesse ensinado a 'hackear' o sistema."

Lidar com desafios específicos das mulheres também foi o que motivou Danieli Junco a empreender. Em 2015, após engravidar, ela sentiu que precisava trabalhar em algo com um propósito maior e que fosse possível conciliar com a maternidade. Assim, em 2016, nasceu a B2Mamy, aceleradora que dá mentoria para mães que querem empreender.

Segundo Danieli, as mães têm desafios diferentes das mulheres em geral. "Montamos um sistema de comunicação em que elas fiquem confortáveis em perguntar e aprender, mas mantemos a velocidade das startups", diz. Em dois anos, a B2Mamy já teve 75 empresas aceleradas.

Na outra ponta da cadeia de negócios está Maria Rita Spina. Em 2013, a diretora da Anjos do Brasil percebeu um incômodo: estava cercada somente por investidores homens. Então, ela deu início ao movimento Mulheres Investidoras-Anjo (MIA) ao lado de outras investidoras-anjo, como Ana Fontes, da Rede Mulher Empreendedora; e Camila Farani, da G2Capital.

Desde que foi fundado, o movimento viu sua base de investidoras-anjo cadastradas saltar de cinco para 28. Nesse período, o MIA já identificou, ao menos, 500 mulheres com potencial. "A mulher tem dificuldade de investir por desconhecimento, mas, depois que ela começa, deslancha", diz Maria Rita.

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