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Safra

- Publicada em 23 de Dezembro de 2021 às 19:41

Estiagem severa quebra safra de milho no RS

Lavoura de Marau já teve 90% da sua produção de milho perdida

Lavoura de Marau já teve 90% da sua produção de milho perdida


Felipe Fior/Arquivo Pessoal/JC
A safra 2021/22 do milho no Rio Grande do Sul está prejudicada. A questão, agora, é saber qual será a dimensão das perdas e torcer por chuvas generalizadas até o final do ano para completar o enchimento dos grãos na lavoura. Com o cenário atual, porém, são raras as projeções otimistas e está configurada a quebra da lavoura de milho.
A safra 2021/22 do milho no Rio Grande do Sul está prejudicada. A questão, agora, é saber qual será a dimensão das perdas e torcer por chuvas generalizadas até o final do ano para completar o enchimento dos grãos na lavoura. Com o cenário atual, porém, são raras as projeções otimistas e está configurada a quebra da lavoura de milho.
É difícil mensurar o impacto geral da seca no Estado. O último dado foi divulgado pela Federação das Cooperativas Agropecuárias (Fecoagro-RS), em um levantamento realizado em 29 de novembro, e aponta que pelo menos 29,6% da produção de milho já havia sido perdida no Estado. Desde então, choveu menos do que os produtores gostariam - e precisavam. Algumas lavouras foram quase completamente perdidas.
"Tem uma área que não sei o que vamos fazer. O agrônomo acha que tem que derrubar. Onde choveu um pouco, tem espiguinha muito pequena, e o restante nem saiu a espiga do milho. Na terra vermelha, que é mais seca, as plantas não dão um metro de altura", relata Felipe José Fior, produtor da região de Marau, no Norte gaúcho.
Felipe perdeu 90% de uma produção na qual ele investiu esperando uma grande colheita, e vai ter complicações para fechar as contas neste ano. "A nossa produção era para resultar em mais de 200 sacas por hectare (ha), e acho que vamos ter umas 20. Eu investi, e investi bastante. Para colher 220 sacas/ha, tive um custo de R$ 5,5 mil por hectare. Nós fizemos seguro agrícola, que cobre a tua despesa, mas a nossa renda a gente estava esperando colher esse ano para poder plantar no ano que vem", afirma ele. "Para nós, viver mais para a frente é complicado, todo mundo tem uma conta, um negócio que fez, é complicado passar o ano só com isso" lamenta Felipe José Fior.
Mesmo quando choveu na propriedade do agricultor, a água que caiu não veio inteiramente no estado físico desejado. Tempestades com granizo atingiram parte do Rio Grande do Sul nesta semana, incluindo a fazenda de 69 hectares do produtor, em Marau. "A última chuva aqui foi na segunda-feira (20) e, para 'ajudar', veio pedra junto. Não estragou a lavoura tanto quanto a seca, mas retalhou todo o milho e as folhas, que podem fazer a fotossíntese", relata Felipe.
A estiagem não castigou apenas as lavouras da região de Marau. Todo o Estado, de forma geral, sofre com o tempo seco em maiores ou menores proporções. "A questão é bastante diversa. Temos áreas com 100% de perda, que já foram destruídas, e temos regiões com chuvas mais frequentes, com potencial produtivo. Mas a maior parte das lavouras teve perdas bem consideráveis. E isso pode aumentar ainda. Caso não haja chuva no máximo nos próximos 10 dias, as áreas que ainda estão com plantações podem ter perdas também", descreve o gerente de produção vegetal da cooperativa Cotrijal, Alexandre Doneda.
Ele afirma que a questão é bastante diversa pois, na mesma região, há grandes diferenças de precipitação até mesmo entre fazendas vizinhas. As pancadas espaçadas são característica do verão gaúcho, que este ano estão sendo potencializadas pelo La Niña, evento climático natural que ocorre a partir do resfriamento das águas do Oceano Pacífico e faz com que ocorram menos e mais escassas chuvas no Estado.
A situação é bem variada, pode ir do céu ao inferno", define Doneda. Essa questão é visível para os produtores. Quem consegue perceber isso é Beno Lütkemeyer, produtor rural de Ernestina, cidade próxima a Passo Fundo. "Na última chuva que teve, caiu 12mm na minha lavoura e na de um amigo meu, a três quilômetros de distância, choveu 50mm. Ele vai colher mais de 100 sacas de milho por hectare, enquanto eu vou colher 50 se não chover bem até o final do ano", conta.
A produção de Beno não chegou a ser tão atingida pela estiagem quanto a de Felipe ou outros produtores vizinhos, mas terá, pelo menos, 50% de perda na safra. "Está praticamente definida a quebra na safra do milho. Até pode melhor, mas tem que chover. Um amigo está com a lavoura perdida em Não-Me-Toque. Lá, praticamente todo mundo cortou o milho fora porque não vai dar nada. Aqui, tinha expectativa de colher 180 sacas/ha, mas vamos colher no máximo 90. se não vier chuva, cai para 50 sacas/ha", completa Beno.

Cenário poderá ser pior que aquele visto em 2020

Produtor Felipe Fior, que perdeu praticamente toda a lavoura, substituirá milho por soja às pressas

Produtor Felipe Fior, que perdeu praticamente toda a lavoura, substituirá milho por soja às pressas


Felipe Fior/Acervo Pessoal/JC
A perda total de lavouras de milho ao redor do Rio Grande do Sul obriga produtores gaúchos a encontrarem alternativas para garantir o mínimo de rentabilidade na safra de verão 2021/22. Muitos deles optarão pelo caminho da soja. É o caso de Felipe Fior, de Marau, que já perdeu 90% de sua produção.
"Vamos derrubar a lavoura, onde o milho não cresceu e os grãos não incharam, e vamos colocar soja, para ver se conseguimos ter uma renda. Não vai ficar que nem aquela soja que foi plantada em outubro, mas alguma coisinha, se chover, ainda dá", relata Felipe.
Outra alternativa, que configura um teste, como ele mesmo definiu, será plantar feijão em uma parte da lavoura. É a primeira vez que o produtor vai trabalhar com com o grão. "Nosso clima, no Estado, é muito complicado para o feijão. O feijão é mais vil, tem que cuidar mais dele, não é como a soja rústica que tu larga ali e ela segura doença. Precisa de mais veneno, mais cuidado, e no clima seco aparece praga de tudo quanto é lado", preocupa-se Felipe.
Ele não está sozinho. Diversos produtores de milho no Estado estão derrubando suas plantações e migrando para a soja para conseguir garantir alguma produtividade neste verão.
O prazo, contudo, está apertado. Os produtores precisam torcer para chover ainda neste final de dezembro e início de janeiro para que seja possível fazer a semeadura com o solo úmido o suficiente para permitir a germinação dos grãos.
"Essa decisão de quando fazer a semeadura precisa ser bem planejada e depende da questão climática. Precisa ter uma boa quantidade de chuva para que possa ser satisfatório na soja e evoluir o ciclo vegetativo", explica o gerente de produção vegetal da cooperativa Cotrijal, Alexandre Doneda.
Para que a soja vingue, é extremamente necessário que ocorram chuvas volumosas em janeiro. Para os meses seguintes - fevereiro e março - a expectativa não poderia ser pior.
"Perspectiva, tem, para chover ainda em dezembro. Mas, quando a gente fala em volumes, seria no máximo de 15 a 30mm. É pouco. Vai estar calor e a água vai evaporar muito rápido para infiltrar na lavoura. Normalmente, em anos de La Niña, dezembro fica abaixo da média de precipitações", avisa a meteorologista Estael Sias, da MetSul. "As chuvas de janeiro podem salvar a soja, mas em fevereiro e março deveremos ter uma estiagem mais severa com bastante seca, além de ondas de calor castigando a lavoura com temperaturas que podem bater os 40ºC, o que acelera a perda de água das plantas", destaca ela.
Segundo ela, a situação para os próximos meses é ainda mais preocupante pelo que já ocorre atualmente. "Com a falta de chuva, alguns produtores de soja já falam em replantio - tirar a lavoura e plantar de novo. Mas, como a situação já começa ruim, com essa situação de seca, fica difícil", conta Estael. "Esse ano, parece termos uma situação pior do que no ano passado, pois o produtor tem dificuldades já no plantio, o que não ocorreu em 2020. Agora, não é mais questão de planejamento, não é mais decisão do produtor. É a chuva que vai definir a data de plantio", afirma a meteorologista.