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Jornal do Comércio

De Frente para o Guaíba

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DE FRENTE PARA O GUAÍBA

Notícia da edição impressa de 01/06/2018. Alterada em 21/03 às 16h31min

Não compramos um apartamento, compramos uma vista

Tatiana mora e trabalha de frente para o Guaíba

Tatiana mora e trabalha de frente para o Guaíba


/MARCELO G. RIBEIRO/JC
Deivison Ávila
Morar e trabalhar tendo como pano de fundo o Guaíba é o sonho de muitos porto-alegrenses. E a funcionária pública Tatiana Mafessoni conseguiu reunir as duas coisas. Do alto de seu apartamento, no 11º andar de um prédio da rua Silveiro, no coração do bairro Menino Deus, ela conta que o convívio diário com a vista acabou virando hobby. "Meus amigos questionavam por que eu não criava um Instagram para registrar fotos do pôr do sol, já que é só isso que tinha no meu perfil", explica. Resolveu seguir os conselhos e deu início ao @pordosolpoa.
Mesmo em uma manhã levemente cinzenta, com um sol tímido, a vista é deslumbrante ao longo dos seis metros de janela virados para o Guaíba. Tatiana conta que a família se mudou para lá há um ano e meio, mas que sempre conviveu olhando para o lago. Ela e o marido vieram de Passo Fundo há 15 anos e, por casualidade ou destino, sempre moraram com vista para o Guaíba.
"Primeiro, moramos na Luiz Afonso, na Cidade Baixa, onde tínhamos apenas um cantinho de vista. Depois, já no Menino Deus, na rua Rodolfo Gomes, também olhávamos para o Guaíba. Agora, aqui, dá para acompanhar todo o pôr do sol", diz, explicando que, com a aproximação do inverno, o astro rei se põe bem no centro da janela da sala. No verão, desaparece em meio ao Beira-Rio. Como a família é de gremistas, ela fala, em tom de brincadeira, que nem olha muito para o estádio do rival.
Mesmo que não exatamente à beira do lago, a família aproveita os arredores para fazer piqueniques no Parque Marinha do Brasil. "O meu marido, Tiago, convive ainda mais com o Guaíba do que eu. Ele pedala pela orla até a Tristeza", ressalta. A funcionária pública lembra de uma frase que ele sempre fala para quem chega e elogia a vista do local: "Não compramos um apartamento, compramos uma vista".
A pequena Letícia, de cinco anos, filha do casal, também acompanha o lago, do seu jeito - a menina se encanta com os passeios noturnos da embarcação turística Cisne Branco. "Como o barco está todo iluminado à noite, a Letícia fica acompanhando e nos mostrando. A vista noturna também é bem bacana, repleta de luzinhas", observa.
Após passar parte do dia com a vista de casa, Tatiana anda alguns quilômetros e chega ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região, onde trabalha. "A sala em que trabalho, no oitavo andar, é de frente para o lago. Mesmo que eu não queira, o Guaíba está ali", brinca.

'A orla de Ipanema era o pátio da minha casa'

Beatriz, que hoje vive 
no bairro Cavalhada, relembra os tempos em que tomava banho no lago
Beatriz, que hoje vive no bairro Cavalhada, relembra os tempos em que tomava banho no lago
MARCO QUINTANA/JC
Uma vida tendo o Guaíba como testemunha. A designer gráfica Beatriz Conceição não consegue esconder sua paixão pelo lago e por todas as histórias que viveu e vive à beira da orla de Ipanema. Hoje, aos 57 anos, mora no bairro Cavalhada, mas, quando surge a oportunidade, está lá, pertinho de onde se criou e fez amigos.
A reportagem do Jornal do Comércio convidou Beatriz a revisitar seu passado. Gentilmente, ela nos levou à casa onde viveu até 1997, às margens do calçadão de Ipanema. O imóvel está alugado para uma casa de repouso.
Entretanto, as lembranças seguem vivas. "Lembro como se fosse hoje: a mãe, aos gritos, nos chamando para almoçar, enquanto brincávamos e tomávamos banho no Guaíba. Sim, não era poluído como hoje, e vivíamos na água", recorda.
Beatriz conta ainda que as casas não tinham muros nem grades, afinal, eram tempos de segurança e pouca violência. "Ipanema era o pátio da minha casa", relembra com os olhos marejados. Os pais se mudaram para a Zona Sul em 1958 e ensinaram à família a amar o local. Atualmente, mesmo que distante alguns quilômetros da orla, Beatriz, toda vez que pode, passa pelo calçadão.
Sobre a opção de deixar a casa de frente para o Guaíba, ela conta que a segurança e o fato de lucrar com a locação colaboraram bastante, porém, a morte dos pais foi o fator determinante. "Achei melhor deixar as lembranças e o passado para trás. Enfim, é para frente que se anda. Os bons momentos não voltam mais, ficam guardados na memória."
Apaixonada pela Zona Sul, Beatriz luta contra um desejo antigo do marido de se mudar para uma área mais central da cidade. E, mesmo com sua paixão pela orla, levanta alguns pontos que a preocupam. "É impressionante o crescimento da violência e da prostituição. As pessoas que comandam a cidade têm tudo nas mãos para transformar a orla em um grande polo turístico. Temos um potencial muito mal explorado pelos gestores no Guaíba", lamenta.
 

Por causa de uma recomendação médica, família vive perto do Guaíba há quatro gerações

A empresária Gabriela Mota aproveita o momento com o seu pet
A empresária Gabriela Mota aproveita o momento com o seu pet
CLAITON DORNELLES /JC
Uma recomendação médica. Assim começou a paixão da família Ehlers pelo Guaíba, há quatro gerações. Hoje, a empresária Gabriela Mota tem as águas do lago praticamente nos fundos de casa. Ela, a mãe, a irmã e o filho moram em um condomínio fechado no bairro Tristeza. Há cerca de 50 anos, a vó Iara, como é conhecida, recebeu a indicação para morar próximo ao Guaíba, e assim o fez. Desde então, vive no bairro Assunção.
"A vó sofria com crises frequentes de asma. Com isso, o médico aconselhou que ela se mudasse para perto da água. Ela é apaixonada pelo bairro e pela vida na Zona Sul", conta Gabriela. Antes de parar na Tristeza, todos moravam na avenida Cavalhada, mas o desejo da mãe de voltar a viver perto do Guaíba falou mais alto.
Em outubro de 2014, a família se mudou para uma casa com vista para o Iate Clube Guaíba. Gabriela conta que a maioria dos vizinhos tem crianças pequenas e que todas brincam e interagem no condomínio. "Isso é muito bom. O Eric, meu filho de dois anos, já brinca com um monte de amiguinhos nessa paz que temos aqui."
Porém, nem tudo são flores. No início do ano, a casa foi arrombada. Ela e o filho estavam no segundo andar. O assaltante, flagrado por câmeras, roubou alguns objetos no térreo e saiu pelos fundos, o que obrigou o condomínio a cercar a área. "Nem mesmo este episódio triste faz com que a gente pense em se mudar. O que temos na orla dificilmente encontraremos em outro lugar de Porto Alegre", diz.
Outro problema apontado pela empresária é a sujeira que o Guaíba traz após períodos de fortes chuvas. Em duas ocasiões, o pátio foi invadido pelas águas, deixando uma enorme quantidade de lixo ao recuar. "As pessoas não tratam o Guaíba como deveriam. Falta muita conscientização", critica.
 
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