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Porto Alegre, quarta-feira, 02 de maio de 2018.

Jornal do Comércio

Cultura

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LITERATURA

Notícia da edição impressa de 02/05/2018. Alterada em 02/05 às 12h02min

Mineira Conceição Evaristo é homenageada na 11ª FestiPoa Literária

Escritora Mineira Conceição Evaristo é a homenageada da 11ª FestiPoa Literária

Escritora Mineira Conceição Evaristo é a homenageada da 11ª FestiPoa Literária


JOYCE FONSECA/DIVULGAÇÃO/JC
Luiza Fritzen
Nascida em Belo Horizonte (MG), a escritora Maria da Conceição Evaristo de Brito é a homenageada da 11ª FestiPoa Literária, que começa hoje e termina no domingo, na Capital. Ela é a segunda entre nove irmãos. Em uma família na qual a maioria das mulheres trabalhava com atividades domésticas, a escritora, e também professora aposentada, migrou para o Rio de Janeiro na década de 1970, cidade na qual se formou em Letras, pela UFRJ (1990); se tornou mestre em Literatura Brasileira pela PUC-RJ (1996); e doutora em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense (2011). Atualmente, Conceição Evaristo já soma cinco livros publicados.
JC Panorama - Em uma autodefinição, quem é Conceição Evaristo?
Conceição Evaristo - Sou uma mulher de 71 anos, grata à vida por ter me permitido chegar até aqui, tenho mil e um planos e desejos ainda, inclusive projetos de escrita; mas, antes de tudo, sou uma mulher profundamente marcada e consciente de uma herança histórica que eu trago de mulheres ancestrais, que me fizeram desde o solo africano. Tenho muito orgulho disso. Ser mãe de Ainá (que está completando 37 anos e é uma menina, mesmo, considerada especial nessa sociedade) também me faz Conceição Evaristo.
Panorama - Como começou o seu contato com a literatura?
Conceição - Eu tenho dito que o meu contato com a literatura começou com a literatura oral. Gosto de afirmar muito que eu não nasci rodeada de livros, eu nasci rodeada de palavras. Eu afirmo isso porque vejo uma trajetória de outras escritoras e escritores que já nasceram em ambientes letrados. Alguns são até filhos ou netos de escritores já sacramentados; outros são apresentados às próprias editoras por outros escritores, são apadrinhados, já dentro do próprio mundo da literatura; outros, desde cedo, têm o contato com a cultura livresca. Não foi o meu caso, meu primeiro contato com a literatura foi através das contações de história da minha família. Eu só vou realmente ter mais contato com livros quando entro para a escola e durante a faculdade de Letras.
Panorama - Nas tuas obras, as mulheres estão presentes como protagonistas das histórias e são personagens fortes. Tu te consideras feminista?
Conceição - As pessoas me colocam nesse lugar de uma escritora feminista e coisa e tal. Não tenho nenhuma dificuldade de afirmar o meu lugar de posicionamento e de luta. Quando me consideram como feminista, eu gosto de me localizar no feminismo negro, que é uma história bastante diferenciada e muito necessária, tanto para enfrentarmos o machismo representado pelo homem branco quanto para enfrentarmos também uma postura de dominação que algumas mulheres brancas ainda querem manter sobre as mulheres negras, como em relações de subalternidades que ainda se veem entre patroas e empregadas.
Panorama - Com Olhos d'água, tu conquistas teu primeiro Prêmio Jabuti. Qual a importância desse prêmio?
Conceição - No momento em que recebi o Jabuti, o chamei de prêmio da solidão, porque eu olhava na cerimônia da premiação e contava no dedo as pessoas negras. Percebi, naquele momento, que a presença negra em determinados espaços ainda é rara, muito rara. Foi um prêmio que me deu uma visibilidade, pelo menos junto à mídia e também com alguns dos meus pares, escritoras e escritores, que eu já havia encontrado em várias situações de seminário. Foi preciso o prêmio para eu ser cumprimentada, para ser notada entre escritores e escritoras. Então parece que o Jabuti conferiu esse status de escritora a uma mulher negra.
Panorama - Qual o significado de ter sido escolhida a escritora homenageada na FestiPoa?
Conceição - É um reconhecimento que eu agradeço, mas também é um reconhecimento que não é só para mim, é para pensar também a escrita de outras mulheres negras. Essa diversidade é necessária justamente quando você pensa a literatura como um dos lugares de afirmação de nossa nacionalidade. Então eu acho que é um bom momento para o público de Porto Alegre ampliar o leque de leitura. Se vivemos em um País plurirracial, pluricultural, quanto mais tomarmos conhecimento de nós mesmos, o Sul tomar conhecimento do Nordeste e vice-versa, em termos de reconhecimento ou de conhecimento de outros lugares de fala, é importante para realmente vivermos democraticamente a nossa nacionalidade.
Panorama - Tu costumas falar muito sobre "escrevivência", que inclusive é a temática desta FestiPoa. Qual o significado desse termo?
Conceição - Meu projeto literário é escrever a partir de minha vivência, por isso o termo "escrevivência". É escrever a partir da minha experiência, da minha condição de mulher negra na sociedade brasileira. A minha "escrevivência" me faz compor um outro tipo de escrita, na qual eu construo esse lugar de fala, de escrita, que é um lugar diferenciado de outra escritora que não tenha vivido ou que não tenha minha experiência.
JC Panorama - O que significa ser uma mulher negra que escreve?
Conceição - Antes de tudo significa ser uma mulher negra. O fato de eu escrever, num círculo em que as pessoas sabem quem eu sou ou em determinados momentos, é o momento de euforia, de contentamento, de alimentação de ego. Mas quando eu saio desses ciclos eu sou tão vulnerável como uma outra mulher negra que não escreve, que não esteja nesse patamar. Por exemplo, eu acabei de fazer uma palestra no Itaú Cultural, quando eu saio de lá e voou para uma loja de departamento na avenida Paulista, sou acompanhada o tempo todo pelo segurança. Então, o fato de eu ser escritora não me livra de uma vulnerabilidade que as mulheres e pessoas negras estão sujeitas na sociedade brasileira, isso não me confere nenhuma discrição em determinados espaços
JC Panorama - O que a escrita representa pra ti e o que te leva a seguir escrevendo?
Conceição - Escrever é uma coisa que eu sempre fiz desde pequena. Eu queria entender determinadas coisas e essa escrita me permite questionar e ao mesmo tempo criar respostas. Sempre gostei de escrever e eu acho que a escrita é o espaço em que eu me coloco, que eu me digo. E não só do ponto de vista pessoal, mas porque a minha escrita tem realmente essa angústia coletiva, esse lugar coletivo, onde nós, pessoas negras, somos colocadas, mas há também esse lugar de possibilidade de enfrentamento, de questionamento do mundo.
JC Panorama – Tuas publicações sempre foram lançadas por editoras independentes. Qual a tua percepção sobre o mercado editorial para literatura afrobrasileira?
Conceição – Após a Lei 10.639/03, instituída ainda no governo Lula, criou também uma demanda de mercado sobre o estudo das culturas africanas e afro-brasileiras. Então há editoras que ficaram interessadas em publicações que trouxesse essa marca das culturas africanas transportadas para o Brasil e as culturas indígenas, principalmente no âmbito da literatura infantil e infantojuvenil. Já a ficção, a poesia e os romances, mais destinados a adultos, ainda não tem penetração nas grandes editoras. São as editoras médias ou as editoras de pequeníssimo porte que têm investido nessa autoria negra de homens e mulheres. A primeira editora que a gente teve foi a editora Mazza de Belo Horizonte, que nasce sob uma perspectiva de publicar a autoria negra, com a qual eu editei Ponciá Vicêncio e a primeira edição de Becos da memória. Depois surge a Nandyala, em BH, onde editei Insubmissas lágrimas de mulheres e Poemas da recordação e outros movimentos. Atualmente eu edito pela editora Malê que também nasce objetivando publicar essa autoria negra. A editora de um porte não tão pequeno e já bastante conhecida é a Pallas, que eu editei Olhos D’água.
JC Panorama – Tu sempre falas de quebrar os estereótipos dos negros na literatura brasileira.
Conceição – Há uma tendência de se construir uma literatura em relação ao negro da mesma maneira que a sociedade brasileira o vê. E se a gente pensa a literatura como um lugar de criação, de difusão, de construção de uma identidade nacional, nós vemos que, nessa identidade, o sujeito negro e indígena é construído de forma bastante distorcida e estereotipada, principalmente se for mulher. No caso da literatura, essas personagens negras estereotipadas não nos seduzem como leitoras. Quando você passa a ter um senso crítico maior você indaga: porque é que a Gabriela Cravo e Canela é uma personagem construída como se ela tivesse só corpo, só sexo? No caso de outras personagens como Bertoleza e Rita Baiana (de Aluísio Azevedo), são mulheres não fecundas, ou seja, que só tem o corpo para o sexo ou para o trabalho. Então lidar com esses esteriótipos que eu observo há muito tempo na literatura brasileira me faz também construir um desejo de não criar personagens estereotipadas e que também por um lado é um exercício que eu posso cair, porque é essa literatura que me formou, que eu aprendi.

Confira a programação completa da 11ª FestiPoa

Dia 2 de maio – Quarta-feira

Abertura da FestiPoa Literária 2018: Salão de Atos da Ufrgs (av. Paulo Gama, 110)
  • 18h30min: Conceição Evaristo (escritora homenageada) conversa com Jeferson Tenório e Jarid Arraes
  • 19h50min: Apresentação das slammers Cristal Rocha e a Morghana Benevenuto
  • 20h: Exibição do documentário Olhos d'água riscados de sol
  • 20h10min: Conversa com Djamila Ribeiro e Winnie Bueno
  • 21h30min: sessão de autógrafos com Djamila Ribeiro, Jarid Arraes, Jeferson Tenório e Conceição Evaristo

Dia 3 de maio – Quinta-feira

Salão de atos da Ufrgs
  • 10h: Conversa de MV Bill e Rafa Rafuagi com mediação de Carol Anchieta
  • 19h: Palavra é poder, conversa poética com Elisa Lucinda
  • 21h: Chico César e Bárbara Santos no show Camaradas - Ingressos de R$ 25,00 a R$ 70,00
Auditório do Prédio 9 da Pucrs (av. Ipiranga, 6.681)
  • 15h: Encontro com Conceição Evaristo e Regina Dalcastagnè

Dia 4 de maio – Sexta-feira

Instituto de Cultura da Pucrs (av. Ipiranga, 6.681)
  • 17h: Périplo Poético - conversa com Chacal
Auditório Goethe-Institut Porto Alegre (24 de Outubro, 112)
  • 18h30: Entrega do Prêmio Marô Barbieri
  • 19h: Participação do slammer Afrovulto
  • 19h10: Homenagem à historiadora Beatriz Nascimento com participações de Conceição Evaristo, Fernanda Bastos e Tom Farias
  • 20h20: Catharina Conte apresenta poemas de Augusto Britto
  • 20h30: Performance Para que despierten las mujeres todas, com Dedy Ricardo
  • 20h40: Mesa de debate com as convidadas Lélia Almeida, Veronica Stigger e Luci Collin. Debatedoras: Moema Vilela e Priscila Pasko
Agulha (Conselheiro Camargo, 300)
  • 22h30: Projeto Concha apresenta Luedji Luna. Abertura poética com Mel Duarte, Cristal Rocha e Luna Vitrolira - Ingressos De R$ 35,00 a R$ 70,00

Dia 5 de maio - Sábado

Agulha (Conselheiro Camargo, 300)
  • 15h às 22h: Feira Geleia Geral com a participação de editoras independentes
  • 16h: Lançamento dos livros Dessa cor de Fernanda Bastos e Pequeno espólio do mal, de Luiz Maurício Azevedo
  • 16h30: Lançamento do livro Carolina, uma biografia de Tom Farias
  • 16h45: Lançamento do livro Aquenda de Luna Vitrolira
  • 17h: Lançamento do livro Forte apache de Marcelo Montenegro. Leituras com Marcelo Montenegro e convidados
  • 17h15: Lançamento do livro Jrnls80s: poemas, letras, cartas, anotações e cartões-postais, com Lee Ranaldo
  • 18h: Mesa de conversa com Mel Duarte, LuNa Vitrolira e Eliane Marques, com mediação de Marcio Junqueira
  • 19h30: Pocket show de Florência Otero
  • 20h30: Exibição do documentário Olhos d'água riscados de sol
  • 21h30: Vocabulário com Paulo Scott, Marcelino Freire, Marcelo Montenegro e Chacal
  • 23h: Coletivo Bronx: Djs Clara Soares e Rhuan Santos
Aldeia (Santana, 252)
  • 21h: Priscila Meira interpreta Gilka Machado

Dia 6 de maio - Domingo

Agulha 
  • 16h às 21h: Feira Geleia Geral com a participação de editoras independentes
  • 16h30:Slam Peleia - edição especial
  • 19h: Recital Mormaço, com Elizeu Braga
  • 19h30: Projeto FLU / 4NAZZO & PAULO SCOTT - Poemas e improviso
  • 20h30: Encerramento da FestiPoa - conversa com Linn da Quebrada 
Aldeia
  • 20h30: Priscila Meira interpreta Gilka Machado

Oficinas

Aldeia
  • Oficina de Escrita Criativa para mulheres com Clara Averbuck: 2 e 3 de maio das 13h às 17h - R$ 220,00
  • Oficina de Criação Poética com Luci Collin: 3 e 4 de maio das 9h às 12h - R$ 150,00
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