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Porto Alegre, domingo, 21 de janeiro de 2018.

Jornal do Comércio

Geral

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Saúde

Notícia da edição impressa de 22/01/2018. Alterada em 21/01 às 21h34min

Para Gabbardo, ideal seria a ampliação da rede de saúde na Região Metropolitana

Secretário espera mudar a sede da Farmácia do Estado até o fim do trimestre

Secretário espera mudar a sede da Farmácia do Estado até o fim do trimestre


MARIANA CARLESSO/JC
Suzy Scarton
Desde que tomou posse, em 2015, o governador José Ivo Sartori enfrentou alguns tumultos e muitas greves devido a medidas drásticas, como o parcelamento de salários dos servidores. Embora também tenha sido alvo de críticas, o titular da Secretaria Estadual da Saúde, João Gabbardo dos Reis, foi um dos poucos secretários que não enfrentou tanta resistência. Os investimentos em saúde, embora tenham passado por percalços nos dois últimos anos, estão estáveis, na medida do possível. Em entrevista ao Jornal do Comércio, o médico pediatra versa sobre assuntos relevantes tratados nos seus três anos de gestão.
Jornal do Comércio - A gestão do governador José Ivo Sartori vem sendo amplamente criticada desde o primeiro ano. No entanto, a área da saúde foge à regra, mantendo-se longe dos holofotes negativos. Qual é o segredo para a aprovação?
João Gabbardo dos Reis - O Rio Grande do Sul é diferente de outros estados, como Santa Catarina ou São Paulo, onde a saúde pública é baseada nos serviços do próprio estado. Aqui, nosso modelo é baseado em contratos e convênios que temos com prestadores privados, em sua maioria filantrópicos. Quando há falta de pagamento, o problema atinge mais as secretarias de Segurança e de Educação, porque o gasto é basicamente na folha de pagamento. Para a da Saúde, o dinheiro é o custeio. Mas, aí, tem um problema também, porque, para nós, é custeio, mas, para os hospitais, é a folha de pagamento. Então, quando não repassamos os valores, criamos uma dificuldade para eles no sentido de manter o funcionamento, porque atrasam os salários dos médicos, dos enfermeiros, e gera crise em outra ponta, não na do funcionalismo. Além disso, o serviço é restrito - por exemplo, em Porto Alegre, a Secretaria Estadual de Saúde lida com o usuário basicamente na Farmácia de Medicamentos Especiais, que era um centro de reclamações constantes, com aquelas filas intermináveis, mas conseguimos equacionar. Hoje, estamos entregando alguns medicamentos na residência do paciente, e a informatização permite que o usuário fique sabendo, via aplicativo, quando o medicamento chega à farmácia.
JC - Existe uma promessa antiga em relação à mudança de sede da Farmácia do Estado.
Gabbardo - Vamos mudar de sede. Queremos um lugar maior e melhor. A dificuldade é grande até pela localização. Um caminhão não consegue chegar para levar medicamentos, por exemplo. Queremos mudar para um local no Centro da cidade, que seja mais amplo, com mais conforto para os pacientes. Pretendemos fazer isso ainda no primeiro trimestre de 2018 - no mais tardar, até a metade do ano. Está tudo encaminhado para fazermos essa parceria com os Correios, e eles farão entregas diárias de medicamentos aos municípios. Nosso caminhão faz um roteiro semanal e deixa os medicamentos na coordenadoria regional. Os municípios do entorno precisam ir buscá-los e, às vezes, não tem motorista ou carro, e os medicamentos não são retirados. Queremos mudar isso.
JC - Os hospitais da Capital reclamam de ter de atender pacientes de todo o Estado e, assim, ficam sobrecarregados. O que pode ser feito para mudar esse cenário?
Gabbardo - Isso é um mito. Todos os levantamentos que fazemos mostram que os pacientes do Interior representam 5% dos atendimentos na Capital. No entanto, eles consideram a Região Metropolitana como Interior, e, aí sim, esses pacientes representam 95% dos atendimentos. Cidades como Viamão, Cachoeirinha, Alvorada e Gravataí, por exemplo, não possuem atendimento suficiente, daí as pessoas precisam vir à Capital para fazer um parto. Não vejo motivo para me preocupar com esses 5% de pacientes do Interior. No entanto, estava no nosso plano, e no do governo passado, investir nesse cinturão da Capital: ampliar os hospitais de Alvorada, Gravataí, Viamão e Cachoeirinha. A crise não permitiu dar continuidade a isso, mas considero que seja a solução para esse problema.
JC - Muito se fala sobre a informatização das Unidades Básicas de Saúde. É uma das bandeiras do prefeito da Capital, Nelson Marchezan Júnior, e algo que o ministro da Saúde, Ricardo Barros, vem citando com frequência. Qual é a relevância da medida na prática?
Gabbardo - Muda muito. Qualifica o atendimento, reduz gastos e amplia o conforto do paciente. Veja o cenário: um paciente busca a emergência e faz uma série de exames quando é atendido. Ele vai para casa e, uma semana depois, volta a sentir os mesmos sintomas, mas vai se consultar em outro lugar. Quem atendê-lo pela segunda vez não terá as informações dos exames anteriores, e vai pedir todos eles de novo. É um exemplo de irracionalidade e de gastos desnecessários no sistema. Se houver um prontuário eletrônico, isso acaba. Além disso, se o sistema estiver integrado, o paciente já sai da unidade com a consulta com especialista agendada, caso necessário. O prefeito Marchezan acerta nisso. Outra medida que considero acertada foi a ampliação dos horários de atendimento nos postos de saúde. É necessário que pelo menos um funcione até as 22h. O horário comercial dos postos contribui para lotar as emergências. Outra causa dessa superlotação é a falta de leitos de retaguarda. As emergências lotam porque chega um momento em que a retaguarda está lotada de pessoas que precisam ser internadas e não há leito nos hospitais.
JC - Há alguma previsão de retomada do Incentivo de Cofinanciamento da Assistência Hospitalar (Ihosp), que foi suspenso na gestão do governador Sartori?
Gabbardo - Não há previsão de retomada. Se hoje ainda temos déficit, não conseguimos pagar em dia todos os hospitais, não faz sentido dar um aumento e fazer com que essa dívida cresça. Os hospitais sabem que, em 2017, não demos aumento para ninguém. Todos os contratos renovados ou foram reduzidos, ou se mantiveram no mesmo valor. Se pegarmos os gastos da pasta com hospitais, prefeituras, compra de medicamentos e manutenção da estrutura da secretaria, gastamos em torno de R$ 190 milhões por mês. Nosso orçamento é de R$ 150 milhões, ou seja, há, todos os meses, um déficit de R$ 40 milhões. Temos a expectativa de que a recuperação do Estado e a venda das ações do Banrisul possam ampliar o investimento em saúde e conferir certo equilíbrio às contas.
JC - Na sua opinião, seria interessante que a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) fosse retomada?
Gabbardo - Que é preciso mais dinheiro, não tenho dúvidas, mas não sei se é o melhor mecanismo. Deixo para que os especialistas em economia façam esse cálculo. Os municípios têm sido penalizados porque colocam mais recursos - a bomba estoura lá, perto dos prefeitos. Mesmo assim, a União mantém os pagamentos, mas há uma defasagem nos valores. O que o Ministério da Saúde investe é muito menor, percentualmente, do que aquilo que aumenta nos municípios e nos estados. No Rio Grande do Sul, temos essa questão emblemática do investimento obrigatório de 12%. O Estado coloca, mas inclui, nesse valor, gastos que, em tese, não poderiam ser computados, como IPE, Hospital da Brigada Militar, serviços que servem para apenas uma clientela. Mas não temos dinheiro para completar os 12% dessa forma, e isso já acontece há muitos governos.
JC - Faltam médicos no Rio Grande do Sul?
Gabbardo - Estão mal distribuídos. Com o número de médicos que temos, poderíamos ter um atendimento e uma assistência muito melhores. Às vezes, por falta de condições adequadas para trabalhar, ou por falta de estímulo salarial, ou pelo hábito de alguns profissionais, que não querem cumprir horário. Gostaríamos que ficassem nas unidades, que fossem atendendo as pessoas que chegassem por critério de gravidade e que houvesse um trabalho de promoção à saúde. Por exemplo, pacientes com diabetes e hipertensão deveriam ser buscados em casa se não aparecessem às consultas. Se os mantivéssemos com a doença controlada, reduziríamos o número de internações e de óbitos - por infarto, por acidente vascular cerebral, por complicações derivadas de amputações. Nossa assistência primária deveria ter condições de acompanhar esses pacientes. Aumentaríamos a expectativa de vida e reduziríamos as internações e os gastos em saúde.
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