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Porto Alegre, quinta-feira, 28 de dezembro de 2017.

Jornal do Comércio

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

Notícia da edição impressa de 29/12/2017. Alterada em 28/12 às 16h24min

O ano nos palcos: primeiro semestre produtivo

Chapeuzinho Vermelho, com direção de Camila Bauer, uma das estreias

Chapeuzinho Vermelho, com direção de Camila Bauer, uma das estreias


MARCELO G. RIBEIRO/MARCELO G. RIBEIRO/JC
Como em todos os anos, a temporada teatral da cidade, em 2017, iniciou-se com o Porto Verão Alegre, que propõe reprises e lançamentos variados, ao longo de cerca de 30 dias, em pleno verão, graças ao fato de que dispomos, atualmente, de casas de espetáculos com o ar refrigerado.
Da mostra deste ano que termina destacaram-se, não numa necessária hierarquia, espetáculos como Caio do céu, com textos de Caio Fernando Abreu, seleção e interpretação de Deborah Finnochiaro e direção de Luiz Arthur Nunes; o engraçado Um hippie, um punk, um rajneesh, de Bob Bahlis, que sempre traz, com criatividade, novas ideias; o parcialmente falho O que terá acontecido a Baby Jane?, com direção de Zé Adão Barbosa; e a atualizada versão de Sonho de uma noite de verão, com o Teatro Novo.
Foi preciso, contudo, esperar março para que a temporada propriamente dita se iniciasse, começando bem, aliás, com a montagem de A tempestade, pelo grupo Ói nóis aqui traveis, rediscutindo a herança do teatro de Augusto Boal e a perspectiva, dita não colonizada, do cubano Roberto Fernández Retamar. No mesmo mês, o primeiro espetáculo a nos visitar foi O impecável, comédia com Luiz Fernando Guimarães, com direção de Marcus Alvisi, em que o ator interpreta oito diferentes personagens.
Com direção de Liane Venturella, que sempre se arrisca em aventuras cênicas provocativas, tivemos, em seguida, a estreia de Ícaro, espetáculo escrito e interpretado por Luciano Mallmann, tetraplégico, trabalho que atravessou todo o ano em diferentes temporadas, chegando até o novo festival que se inicia logo nos próximos dias, e sendo uma das produções locais selecionadas para o Prêmio Braskem, durante o Porto Alegre em Cena.
Na passagem do mês, outro espetáculo de fora movimentou nossa cena: O último capítulo, sobre a telenovela brasileira, com Paulo Mathias e Mariana Xavier. Por seu lado, o comediante Paulo Gustavo, um dos grandes nomes da televisão nacional no momento, trouxe Online, com grande sucesso.
El juego de Antonia apresentou Luciana Paz e Sérgio Lulkin, afastado dos palcos há muitos anos, para um espetáculo curioso, ambientado em uma casa de família, em que uma mulher trama a morte do marido. No mesmo mês de abril, Como gostais, comédia de Shakespeare, dirigida por Daniel Fraga, retornou ao espaço do Teatro do Centro Histórico da Santa Casa. Trata-se de um espetáculo semiamador, bastante dinâmico, que havia sido premiado, inclusive, na temporada anterior. Assistimos, ainda, à estreia de Fala do silêncio: amor, naufrágio e rock'n'roll, com direção de Patrícia Fagundes, a partir de um texto de Harold Pinter. No mesmo mês, foram apresentados os espetáculos Sedimentos, de Júlia Kieling, e Valsa nº 6, de Nelson Rodrigues, com direção de Caco Coelho. O mês se completou com a estreia de A partícula de Deus, texto e direção de Júlio Conte; e, vindo do centro do País, a comédia Forever young, de Jarbas Homem de Mello, responsável, mais recentemente, por uma série de bons musicais produzidos no eixo Rio-São Paulo.
O mês de abril concentrou estreias variadas, como Longos beijos em ondas curtas, trabalho da oficina de montagem da Cia. de Teatro ao Quadrado; e Auê, espetáculo musical da Cia. Barca dos Corações, com direção de Duda Maia.
Quando maio chegou, a programação se intensificou. Era o momento do Palco Giratório, festival que há anos o Sesc promove em várias capitais brasileiras, a partir de uma seleção de espetáculos feita por diferentes curadores, através de todo o Brasil. Neste ano, tivemos alguns trabalhos verdadeiramente significativos, como A 2 passos, dirigido pelo russo Gennadi Bogdanov, reconhecido discípulo do diretor Meyerhold, com apoio na chamada biomecânica. Nesta mesma mostra, o grupo paulistano Tablado de Arruar trouxe a trilogia denominada Abnegação, discutindo a situação contemporânea da política brasileira, em especial o PT. Um dos mais significativos trabalhos foi Salina - A última vértebra, com direção de Ana Teixeira e Stéphanie Brodt, sobre uma África ancestral, marcada pelas tradições tribais e o sentimento de autoconservação. O mesmo grupo apresentou Os cadernos de Kindzu, baseado em Mia Couto. Foi um grande momento do festival, que incluiu outra proposta curiosa: duas montagens, com diretores diferentes, para um mesmo texto do dramaturgo alemão Wolfram Lotz, graças a uma iniciativa do Instituto Goethe.
Camilo de Lélis assinou uma das versões, enquanto Alexandre Dill responsabilizou-se pela outra, sendo ambos os espetáculos apresentados em datas próximas, possibilitando comparações e avaliações variadas. Outro momento inesquecível do festival foi a performance de Dinho Lima Flor, Ledores no breu. Ele trouxe um segundo espetáculo para a mostra, mas este trabalho, baseado no poeta Zé da Luz, tornou-se inesquecível, assim como Quem tem medo de travesti, codireção de Silvero Pereira e Jezebel de Carli, a respeito do universo travesti, um dos mais bonitos e tocantes espetáculos a que já se assistiu na cidade: perfeito e equilibrado, tocante e humano, uma montagem esteticamente afirmada e polemicamente provocadora.
Maio também nos trouxe de volta a atriz Nora Prado, afastada de nossos palcos há muitos anos. Acompanhada de seu companheiro, Gabriel Guimard, ela nos apresentou o poético Tem gato na tuba. Importante é que Nora Prado deve se fixar na cidade e, portanto, certamente, na próxima temporada, teremos novidades suas.
Durante o festival, outros espetáculos, sobretudo vindos de fora, continuaram chegando à cidade: Alexandre Nero trouxe O grande sucesso, com texto e direção de Diego Fortes; e o casal Lázaro Ramos e Taís Araújo emocionou com No topo da montanha, sobre o ativista Luther King, assassinado há algumas décadas, nos Estados Unidos.
O primeiro semestre encerrou-se com outros interessantes trabalhos, como Chapeuzinho vermelho, peça de Joël Pommerat, que recria o conto de Perrault-Grimm numa perspectiva psicológica, aqui num espetáculo dirigido por Camila Bauer. O mês, aliás, reservou um belo festival de teatro popular organizado pela Terreira da Tribo, com ênfase na dramaturgia e nos grupos dramáticos da América Latina, trazendo espetáculos como Nuestra Senhora de las Nuvens, propositadamente mesclando espanhol e português, pois é uma coprodução brasileira e colombiana; a mostra deste ano foi em homenagem ao dramaturgo Aristides Vargas, de quem se encenaram textos como Instrucciones para abrazar el aire e Flores arrancadas a la niebla. Para mim, contudo, a principal atração da mostra foi Nos tempos de Gungunhana, um espetáculo do moçambicano Klemente Tsamba, que encantou a todos, além do trabalho solo de Rubén Pagura, que idealizou e interpretou La historia de Ixquic.
No mês de junho, ainda estreou o poético Imobilhadas, do Grupo Máscara, com direção da sempre inesperada e inovadora Liane Venturella e, de fora (Joinville), recebemos Fadas, espetáculo de bonecos que encantou a todos que o viram.
Como o leitor observa facilmente, apesar de toda a crise, a temporada foi movimentada, variada e produtiva. Continuaremos a relembrá-la na próxima semana.
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