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Porto Alegre, domingo, 19 de novembro de 2017.

Jornal do Comércio

Política

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Entrevista Especial

Notícia da edição impressa de 20/11/2017. Alterada em 20/11 às 00h56min

Terreiros atendem a papel que seria do Estado, avalia Sandrali Bueno

"O Estado, enquanto gestor, não assume que 54% da população (brasileira) é negra", diz Ialorixá

"O Estado, enquanto gestor, não assume que 54% da população (brasileira) é negra", diz Ialorixá


MARCELO G. RIBEIRO/JC
Bruna Suptitz e Camila Silva
O Rio Grande do Sul é o Estado com maior índice de autodeclaração, por domicílio, de pessoas adeptas a religiões de matriz africana, como a Umbanda e o Candomblé, por exemplo. O dado, do censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), amparou a demanda feita por pais e mães de santo para a criação do Conselho do Povo de Terreiro do Estado do Rio Grande do Sul, sendo a primeira e atualmente a única instância com esse caráter no País. "Nos apropriamos desse dado (para cobrar mais espaço)", conta Sandrali de Campos Bueno, Ialorixá e secretária executiva do conselho.
Ela destaca, contudo, que o amparo na religião não pode resumir a atuação do conselho, que foi instituído em junho de 2014 com o propósito de propor e elaborar "políticas públicas voltadas ao povo de terreiro e às populações de ascendência africana". Nem mesmo os terreiros, destaca Sandrali, limitam sua representação no âmbito religioso. Por vezes, observa, ocupam as lacunas deixadas pelo poder público. "O Estado, enquanto gestor, não assume que 54% da população (brasileira) é negra. Então também não consegue ter a sensibilidade política de que é com essa população que precisa se preocupar", avalia.
Neste 20 de novembro, passados seis anos da instituição da lei que marca o Dia da Consciência Negra no Brasil, Sandrali chama a atenção para a falta de representação política da população negra, como por exemplo no Legislativo gaúcho, que não tem nenhum parlamentar negro. Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, ela sustenta que ocupar espaços de poder e fortalecer a unidade da rede formada nos terreiros são um caminho para criar políticas públicas direcionadas a essa parcela da população.
Jornal do Comércio - Como se organizam os terreiros e como o dado do IBGE contribuiu para que buscassem representação?
Sandrali de Campos Bueno - Nos apropriamos desse dado e fomos batendo e abrindo as portas. Como uma flecha, se jogava primeiro: "somos tantos, o Estado que mais tem". Por isso, temos que ocupar espaços tanto no Legislativo quanto no Executivo. Já a organização dentro do terreiro é diferenciada, não temos um papa ou bispo que diga como tem que fazer. Isso é da tradição, do pressuposto que esses princípios civilizatórios que os africanos escravizados trazem para o Brasil estão presentes e preservados nos terreiros, nas comunidades tradicionais de povo de terreiro, de matriz africana e nos quilombos.
JC - Como se organizam essas comunidades?
Sandrali - A forma de se organizar é a mesma (dos povos tradicionais). Não temos organização vertical, nossa organização é circular. Quando nos perguntam "qual teu projeto mítico", que é o que perguntamos, nós, por exemplo, temos um projeto mítico político-social, que levamos para a organização do terreiro, mas é para além disso. Sempre vai ficar uma brecha ou uma barreira que o sistema não consegue nos entender, ou melhor, não quer nos compreender, porque não quer nos aceitar. Lembro que algumas pessoas perguntavam se agora teria conselho para cada religião. Nossa resposta era "onde está mesmo a laicidade do Estado?", e desconstruíamos esse tipo de argumentos, que são extremamente autoritários e teocráticos. A laicidade do Estado funciona só para nós quando vamos buscar política pública. Tudo para nós sempre foi com muita luta. A diferença é que, a nível de movimento social, buscamos direitos e fazemos com que as conquistas não sejam específicas para nós, porque trabalhamos com a integralidade, com o ser humano como um todo. Sempre ela vai atingir não só o nosso segmento, mas o todo da população, toda a sociedade, até porque isso é um princípio nosso, de pensar no coletivo, o individual para nós não existe.
JC - A que tipos de demandas o conselho atende?
Sandrali - Para explicar, precisamos falar como se constituiu o Conselho do Povo de Terreiro. A criação vem de um percurso, não é algo que decidimos e se fez. É instituído a partir de um diálogo do movimento social e do povo de terreiro com o então governador Tarso Genro (PT, 2011-2014), em 2011, em que apresentamos uma carta com três reivindicações, e uma era a criação do conselho - na época, falávamos em uma instância - que tratasse das políticas públicas para o povo de terreiro. O estado do Rio Grande do Sul é o que mais se autodeclara de matriz africana, isso é significativo e tem que repercutir em termos de construção de políticas públicas. Nenhuma política pública é concessão, são conquistas do movimento social; fora disso, são arranjos da política de governo, e não de Estado. O governador então instituiu o comitê do povo de terreiro e nos colocou no gabinete, no sentido de dizer que era uma política entendida como importante. Estudamos a viabilidade da criação do conselho por meio de uma conferência, que reuniu em torno de 750 pessoas e participação de todo o espaço governamental. Dali partimos para a criação do conselho, instituído em 2014, através de decreto. Naquele momento, não havia qualquer possibilidade de entrar com pedido para que a criação do conselho fosse através de lei, porque não tinha um ambiente que pudesse favorecer que a gente fizesse a primeira discussão da lei por dentro da Assembleia Legislativa.
JC - Por quê?
Sandrali - Pela correlação de forças. Ao mesmo tempo em que o Estado é o que mais se autodeclara de matriz africana, também é extremamente racista e machista, e não reconhece essa autodeclaração. E as leis não surgem do nada. Somos 54% da população, mas, se formos ver a nível de representação política nos Legislativos, não há. O Estado não tem deputado negro; Porto Alegre tem um vereador negro. Os partidos políticos não investem nas candidaturas de pessoas negras, sejam de esquerda ou de direita. Contudo, como fizemos um trabalho intenso de afirmação e reafirmação da questão tanto da política quanto da presença do povo de terreiro no Rio Grande do Sul, não teria como não permanecer o conselho como política de Estado. Tem outra questão, da percepção de que não somos religião: somos uma tradição e temos pressupostos civilizatórios que são diferentes dos judaico-cristãos. Isso nos deu o referencial para o que já existia, porque os terreiros são territórios de muita produção de conhecimento e de produção de política pública, no sentido de ocuparem muitas vezes o lugar que o Estado deveria ocupar, como na questão da saúde, que é a mais emblemática para nós.
JC - Essa questão da saúde nos terreiros pode explicar por que entende que o Estado é negligente na saúde e o terreiro acaba dando uma assistência que deveria ser feita pelo Estado?
Sandrali - É porque o Estado, enquanto gestor, não assume que 54% da população é negra. Esse já é o primeiro problema. Então é óbvio que, se o Estado não consegue entender, também não consegue ter a sensibilidade política de que é com essa população que precisa se preocupar no sentido de criar mais pesquisas e espaços de debate. Não fazemos a medicina propriamente dita no terreiro, fazemos medicina tradicional de matriz africana. Nossa intervenção é preventiva. Essa falta que o Estado não supre nesse momento, quando se adoece mesmo, a coisa é mais complicada. Aí as mulheres negras são as que menos recebem anestesia no parto, por exemplo.
JC - Nesse gancho de como, muitas vezes, o terreiro cumpre um papel que seria do Estado, como se dá essa construção?
Sandrali - O espaço do terreiro é, por si só, político. Qual a dificuldade que o sistema colocou: ao nos colocar apenas no lugar de religião, incute na cabeça da sociedade como um todo que religião e política não se misturam. Mas o que é política? Aí colocam a política como sendo partidária, e não tem o mesmo significado. Política é relação, fazemos política no dia a dia. Assusta ainda hoje quando falamos que não somos apenas religião, somos uma tradição cuja manifestação espiritual se dá dessa forma, que não é a forma judaico-cristã. Quando se entende o terreiro para o exercício do fazer política, é obvio que esse espaço é extremamente potente para ser, ao invés de combatido e violentado - como atualmente tem sido tão expressivo no Brasil inteiro -, um espaço para ser muito mais absorvido no sentido de ação que promovesse a população como um todo, independentemente da religiosidade. O que acontece na sociedade, tanto nas de esquerda quanto nas mais à direita, é que o Estado consegue capturar as singularidades, mas não consegue fazer com que isso seja transformado em política pública, em termos de permanência, de consistência. Se cria como que um "engavetamento": é política de saúde, é política de educação, de lazer, de segurança pública... Tudo compartimentado. Não pode entender o mundo, o ser humano, o desenvolvimento da vida por gavetinhas. Quanto mais especificações, menos vê o ser humano como inteiro. O terreiro consegue fazer isso, ver como pessoa integral, tem esse diferencial.
JC - Se faz uma separação do racismo com a questão da saúde mental e saúde física, quando, na verdade, estão ligadas, uma coisa é consequência da outra...
Sandrali - Óbvio. É importante discutir a saúde da população negra, temos muitos trabalhos nos terreiros. Mas o mais importante seria pegar todo esse conhecimento e trabalho, para que seja o centro da discussão da saúde, por exemplo. Têm coisas que parecem simples e que a gente não sabe - por exemplo, que o processo de gravidez das mulheres negras é diferente das mulheres não negras. É preciso estudar isso, mas quem é que vai estudar? Como vamos para a (faculdade de) Medicina mesmo? E é por isso que cotas são importantes. E também é importante a provocação. Quando faço palestra, principalmente na universidade, venho dizendo isso: os negros têm que ser provocados para fazer artigos e textos acadêmicos também. A gente não está pedindo pra estudar o terreiro, não precisa. O que estamos dizendo é para produzir a partir deles. Às vezes, dizem que a comunidade negra não aceita que não negros falem de nós, mas não é assim. A gente aceita quando o outro reconhece que é o outro, que quer entender a si mesmo. Ou seja, entender a si mesmo e os seus privilégios, e abrir mão disso para ajudar a acabar com o racismo.
JC - Quais os maiores desafios de criar políticas públicas em um ambiente político-partidário de representação negra quase nula, numa sociedade racista, num espaço acadêmico que ainda é muito pequeno?
Sandrali - São tantos. Eu penso e, antes de pensar, sinto o que isso provoca e no que me afeta ou já me afetou. Certamente, não será a resposta que solucionaria ou proporia alguma coisa, porque um dos desafios é justamente o sistema em que a gente vive, que diz "eu penso, logo existo". Mas, para nós, é "eu existo, logo penso". É o inverso. E não é só para nós da matriz africana, é para nós agora e aqui. Como cada um sente isso. O senso de percepção das pessoas não é o mesmo, cada um vai sentir e perceber de uma certa forma. E o que o sistema faz com as pessoas todas, então, imagina com as pessoas negras: nos padroniza. E, ao padronizar, ele nos rouba essa capacidade de criar. Ele se apropria disso, e aí parece que só o Estado cria, só o Estado faz política pública, e ele não é para isso. Esse ente Estado, que colocamos em um abstrato, não existe, porque a vida é concreta.
JC - Como se enfrenta isso?
Sandrali - Se começar a pensar quais os desafios, cada um vai ter um desafio que, muitas vezes, impacta de tal forma que a gente pensa "sou impotente para fazer isso" ou "o que fazer diante de tudo isso que só nos oprime?". Agora, enquanto for um desafio singular, em que se possa construir pequenos projetos, pequenas possibilidades, pequenas políticas, é possível pensar como um desafio que se consegue superar, que tem a ver com a potência criadora de cada um. E cada vez que penso na minha potência, não penso nela como individual. Tem uma máxima do Malcolm X que diz "não adianta toda deferência que a mim fizeres se não fizeres para o meu povo como um todo". Não adianta ter só uma Sandrali para falar sobre essas questões, e aí se fala também da humildade do povo de terreiro. Não é que a gente não tenha as vaidades humanas, mas humildade no sentido de buscar o outro para construir junto. Estou representando todos. E quando a gente fala em representatividade, contempla principalmente as mulheres negras, para que todas se sintam representadas, independentemente da que estiver lá. Se eu não estiver aqui para falar, outra tem que estar aqui para dizer, não o mesmo que eu digo, mas que tenha o mesmo significado, a mesma resposta ao sentir, ao ver essa centralidade que é a luta do povo de terreiro, do povo negro. 

Perfil

Sandrali de Campos Bueno tem 68 anos e é natural de Porto Alegre. Formou-se em Psicologia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos em 1984. Possui especialização em Criminologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Ativista social, integra a coordenação da organização de mulheres negras Akanni - Instituto de Pesquisa e Assessoria em Direitos Humanos, Gênero e Etnias, com sede em Porto Alegre. Faz parte do núcleo gaúcho da Rede Nacional de Religiões de Matriz Africana e Saúde. Como Ialorixá - autoridade civilizatória da tradição de matriz africana - é uma das dirigentes da Sociedade Afro-brasileira Ilé Àiyé Orishá Yemanjá, na cidade de Pelotas. É servidora pública estadual e iniciou sua trajetória profissional e militante aos 20 anos, como alfabetizadora de jovens não acolhidos pela escola por terem passado da faixa etária, no extinto Instituto Central de Menores (ICM). Foi a primeira mulher no Estado a dirigir uma instituição destinada a menores infratores do sexo masculino, o ICM, no período de 1987 a 1989. Atualmente, é secretária executiva do Conselho do Povo de Terreiro do Estado do Rio Grande do Sul.
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