Porto Alegre, quinta-feira, 23 de novembro de 2017.

Jornal do Comércio

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Notícia da edição impressa de 24/11/2017. Alterada em 23/11 às 17h43min

Vinho conquista as taças dos brasileiros

Diversidade de preços e estilos atrai clientes

Diversidade de preços e estilos atrai clientes


/MAURO SCHAEFER/ARQUIVO/JC
Caminhar por entre mesas de bar no final de uma tarde, em algum recanto descontraído e despretensioso do País, significa encontrar bebidas de vários tipos sendo degustadas pelos amigos. Agora, puxe pela memória: há vinho em pelo menos um dos copos na sua lembrança? Provavelmente, não. Mas essa realidade começa, aos poucos, a mudar. Pesquisas mostram que o vinho ganha mais adeptos a cada dia, especialmente entre os jovens. Esse novo ânimo na busca pela bebida já motiva o mercado a responder com mais opções e oferta para os consumidores que se aventuram nas taças. O caminho, no entanto, ainda é longo para que o setor perceba, de fato, um aumento significativo no consumo per capita no Brasil.
Pesquisa feita pelo instituto norte-americano Wine Institute, que representa mais de mil vinícolas na região da Califórnia (EUA) e lidera estudos para compreender a dinâmica da circulação de vinho no mundo, revela que ainda estamos muito longe dos principais bebedores globais. Para se ter uma ideia, os cidadãos do Principado de Andorra, a campeã, bebem quase 57 litros de vinho por ano, seguidos dos moradores do Vaticano (Itália), com 56,2 litros. Cada português entorna quase 44 litros por ano, enquanto um francês bebe pouco mais de 43 litros, de acordo com o levantamento atualizado no início de 2017. Cada um de nossos vizinhos uruguaios degusta impressionantes 30 litros de vinho anualmente, enquanto nós emplacamos, há anos, o acanhadíssimo índice que oscila entre 1,6 e 1,8 litro por ano - incluindo aí os vinhos finos e os de mesa.
A preferência nacional por outras bebidas, os rituais que elitizam o serviço do vinho, o preço e até o acesso a produtos de qualidade estão entre as razões possíveis para o nosso fraco desempenho. Os gaúchos são os maiores bebedores brasileiros, com uma média de 3,8 litros anuais per capita. Em segundo lugar vem o Rio de Janeiro, com 3,4 litros, e em seguida São Paulo, com 2,7 litros.
Um movimento de escala mundial, no entanto, demonstra que este cenário está em vias de mudar também no Brasil. Pesquisa do instituto norte-americano Wine Market Council, feita com adultos de 21 a 38 anos, ao longo de 2015, demonstrou que eles beberam mais vinho do que todas as outras faixas etárias - para se ter ideia, eles arremataram 42% de todo o vinho produzido nos Estados Unidos, sem contar os importados. O levantamento também revelou que dois terços dos apaixonados por vinho de até 30 anos são mulheres e que estes grupos não têm problema em gastar dinheiro com uma boa bebida. Diversidade de preços e estilos, o apelo à saúde e a possibilidade de socialização proporcionada pelo consumo do vinho estão entre as principais razões para os resultados otimistas da pesquisa. "O mundo bebe cada vez mais vinho, é um movimento global. A tendência é que o Brasil acompanhe esse aumento de consumo", comenta o presidente do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), Dirceu Scottá.

Mudança no perfil de consumo anima importadoras

Grand Cru aposta no potencial da demanda para comercializar rótulos
Grand Cru, maior cadeia de lojas de vinho com importação exclusiva do País, aposta no potencial do consumidor brasileiro para comercializar rótulos diversos
LOJA GRAND CRU/DIVULGAÇÃO/JC
Apesar de ainda tímida, uma parcela do consumidor brasileiro já deu demonstrações de que deseja conhecer mais e investir em experiências novas no mundo do vinho. A evolução no perfil das importadoras é uma clara evidência deste novo momento no mercado da bebida por aqui. A trajetória de uma importadora de Porto Alegre é um exemplo disso. Fundada em 2004, a Bodegas de Los Andes surgiu focada no atendimento a lojas, bares e restaurantes. O que começou com a importação e nacionalização das bebidas a partir da sede, na capital gaúcha, evoluiu para atender a uma demanda percebida entre os clientes. Há cinco anos, um espaço do depósito da importadora se transformou na loja Garage Vinhos, cuja primeira unidade foi aberta na zona norte de Porto Alegre. O sucesso foi tanto que uma segunda loja já foi inaugurada, na Avenida da Azenha. E uma terceira unidade surgiu em 2017, em Curitiba.
Segundo a gerente das unidades, Mariane Pradella, a filosofia da marca é trabalhar com consumidores mais exigentes, que buscam valor agregado nos vinhos. No portfólio enxuto estão cerca de 160 rótulos de pequenos produtores da América do Sul e da Europa, todos com um perfil de produção artesanal e de altíssima qualidade. "Nosso cliente gosta de garimpar rótulos e está disposto a investir em novas experiências com os vinhos que adquire. Esse perfil de consumidor aumentou muito, o que tem possibilitado o nosso crescimento constante", comenta Mariane.
Ao entrar em uma das lojas da Garage Vinhos, o cliente vê mais do que o preço. Recebe um atendimento personalizado, com informações completas sobre todos os detalhes que envolvem a produção dos rótulos, como terroir de origem, notas de degustação e dicas de harmonização. "Há alguns anos, consumidores com esse nível de conhecimento e de interesse pelo vinho eram mais raros. Agora, são cada vez mais frequentes em nossas lojas", completa.
Grandes players do comércio de vinhos, que operam volumes muito mais expressivos em âmbito nacional, têm a mesma percepção do momento atual do mercado. É o caso da Grand Cru, a maior cadeia de lojas de vinho com importação exclusiva do País. Com um portfólio de cerca de 1,9 mil rótulos, distribuídos em 52 lojas e franquias, além do canal de vendas pela internet, a marca aposta no potencial de consumo do brasileiro, que ainda está longe de se concretizar por completo. "O baixo consumo per capita demonstra que ainda temos um longo caminho até a aceitação do vinho como produto de consumo rotineiro. Mesmo assim, este é um momento de grande oportunidade. Por isso investimos na busca de rótulos de qualidade e bom custo-benefício", afirma Luciano Kleiman, CEO da marca.
Para Kleiman, a questão tributária é um dos maiores entraves para o aumento do consumo do vinho no País - tanto para o caso dos importados como dos nacionais. Segundo ele, há grande complexidade nos processos de importação, ao mesmo tempo em que não existe estímulo significativo para a produção e o consumo do vinho feito no Brasil. "Isso eleva o preço e limita o acesso das pessoas à bebida, dificultando a desmistificação."
Mesmo assim, a empresa olha o futuro com otimismo. Aberta há alguns meses na avenida Mariland, no bairro Mont'Serrat, em Porto Alegre, a nova loja da Grand Cru é a prova da aposta da marca na mudança no perfil de consumo do brasileiro. Ampla, contemporânea e com um restaurante integrado, a loja pretende atender este novo cliente que, ao contrário de buscar um vinho apenas pelo preço, procura viver experiências enogastronômicas. E não vê problema em pagar um pouco a mais por isso.
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