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Porto Alegre, domingo, 05 de novembro de 2017.

Jornal do Comércio

Economia

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Conjuntura

Notícia da edição impressa de 06/11/2017. Alterada em 05/11 às 20h21min

Mitos cercam aumento da produtividade no País

O aumento no número de anos de estudos não tem sido suficiente para incrementar a produtividade do País. A relação direta entre ensino e ganho produtivo é um dos mitos para explicar a estagnação do Brasil no ranking da produtividade, segundo análise feita por pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas (FGV). Outras mistificações questionadas pelos economistas são de que só o aumento da formalidade basta para melhorar a eficiência e que o País já resolveu seus problemas de improdutividade em alguns setores.
No livro Anatomia da Produtividade no Brasil, os economistas reconhecem que os investimentos públicos em educação cresceram sucessivamente nas últimas décadas. Em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), os gastos passaram de 3,8%, em 1994, para 6,0%, em 2014. Consequentemente, houve um grande aumento da escolaridade no período, por exemplo, com um maior número de pessoas ingressando no Ensino Superior.
Uma delas é a capixaba Monique Morozin, de 23 anos. Ela se formou em engenharia de Petróleo e Gás no meio da crise que pôs a Petrobras no centro dos escândalos de corrupção e atingiu em cheio o setor de petróleo. Sem emprego na área, ela voltou a ajudar os pais, que vendem farinha de mandioca em uma feira de produtores locais em Guarapari (ES).
"Quando comecei o curso, a gente imaginava que era uma chance de mudar a realidade da família. Sempre ajudei os meus pais na produção e na venda dos produtos na feira, mas quando ganhei a bolsa integral para estudar Engenharia, achava que isso mudaria nosso padrão de vida."
"Não é uma questão de reduzir o valor do investimento em ensino, mas o que o Brasil fez em termos de educação só atacou parte do problema, a gente tem a questão da baixa qualidade e o elevado abandono do ensino médio. Ao contrário do que se imaginava, o aumento do nível educacional praticamente não se reverteu em ganhos de produtividade", diz Bruno Ottoni, um dos coautores do estudo. Para o economista, mesmo que o brasileiro passe mais tempo em sala de aula, isso não será aproveitado se o País não tiver um ambiente de negócios que gere empregos de qualidade.
No caso da arquiteta Isabel do Carmo, de 28 anos, a queda no número de projetos durante os anos de crise deu um empurrão para que ela montasse a Flor da Cidade, uma microempresa de arranjos que oferece pacotes de assinatura. "Com o mercado em baixa, acabei descobrindo uma nova vocação." Ottoni lembra que o período de crise ajudou a diminuir os ganhos no padrão de vida: a alta média anual de 0,2% da produtividade do trabalho de 1980 a 2017 se refletiu em aumento de 0,7% ao ano da renda per capita.
O estudo do Ibre aponta, ainda, que uma das causas para o Brasil amargar baixa produtividade é o grande número de pequenas empresas e de empreendedores informais. Os dados mais recentes do mercado de trabalho apontam que a volta do emprego é impulsionada pelas micro e pequenas empresas. 
"A empresa existe desde 1971. Se o ambiente de negócios fosse menos difícil, a gente poderia investir mais e diversificar o negócio. Mas a gente não tem condição, no atual cenário econômico, de planejar estratégias mais longas", conta Sérgio Kyrillos, sócio da fábrica de tesouras e grampos de cabelo La Lupe.
Sem condições de competir, fazer grandes aportes de capital e produzir em maior escala, o pequeno empresário também é incentivado a não crescer para não deixar de ser enquadrado em regimes diferenciados de tributação, como o Simples. No caso da informalidade, a produtividade agregada do setor formal é cerca de 3,4 vezes superior ao do informal, segundo dados de 2009. A realocação significativa do emprego do setor informal para o formal explica 87% do ganho de produtividade agregada entre 2003 e 2009.
Um outro mito quando se discute a produtividade, explica Armando Castelar, também do Ibre/FGV, é o de que o País tem setores produtivos. Segundo o economista, o Brasil tem ilhas de produtividade em diferentes setores, com exemplos de empresas e produtores agropecuários que se destacam.
"O Brasil deu um exemplo mundial ao deixar de ser um país de insegurança alimentar para se transformar em um dos maiores players. Isso foi conquistado com tecnologia, com aumento produtivo", diz Celso Moretti, diretor da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). "Como a maioria das propriedades é familiar, ainda há muito espaço para aumentar a produtividade. O Matopiba (região entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) tem áreas de pastagens degradadas que podemos recuperar."

'O ambiente de negócios é muito ruim', diz especialista da Fundação Getulio Vargas

Na avaliação do economista Armando Castelar, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas (FGV), ainda que o Brasil se destaque na produção de commodities, é ineficiente em todos os setores e teria, na verdade, "ilhas" de produtividade, com poucos empresários e produtores que ficam acima da média. Para resolver essa equação, o economista sugere a melhora do ambiente de negócios para que as pequenas empresas consigam crescer.
Em que setores o Brasil tem potencial de ser mais produtivo?
Armando Castelar - O Brasil é deficiente em todos os setores. Ele tem ilhas de produtividade em diferentes setores, como na área da agropecuária. Para resolver isso, é questão de baixar o custo de capital, reduzir a insegurança jurídica, melhorar a tributação, abrir a economia e deixar as empresas florescerem.
A impressão é que boa parte das pequenas empresas não consegue crescer e outra boa parte não quer crescer...
Castelar - É verdade. Mas também é verdade que muitos pequenos empresários são ex-empregados que não conseguem outra ocupação. Precisamos criar oportunidades para que mais pessoas trabalhem em empresas grandes ou criar oportunidade para que elas fundem pequenas empresas que consigam crescer. A Apple começou numa garagem. O Facebook começou em um dormitório. Isso passa por fazer a reforma da Previdência e, com isso, reduzir o crescimento do gasto público. O juro para o empresário é alto porque tem uma política expansionista, o gasto cresce muito mais que o Produto Interno Bruto. O custo de capital é isso.
As empresas estão certas ao atribuir a baixa produtividade ao ambiente de negócios?
Castelar - As empresas brasileiras estão certas ao reclamar que o ambiente de negócios do País é muito ruim, com alta tributação, insegurança jurídica. O problema é que não há uma pressão para melhorar o ambiente de negócios. O Brasil precisa ir abrindo a economia.
A política dos campeões nacionais não era uma tentativa de aumentar a produtividade e a competitividade de empresas?
Castelar - Sim, era a ideia de que precisa ter empresas competitivas no exterior, mas era o contrário. O governo tentou fazer com que essas empresas fossem competir fora do País, mas algumas nunca saíram daqui e outras eram dependentes do subsídio. A política era equivocada. O que interessa em uma empresa, como a Apple, é que ela produz equipamentos de qualidade. A política dos campeões nacionais nunca teve um objetivo claro, mas a base era a capacidade da empresa competir, à base de subsídio.
 
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