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Porto Alegre, quinta-feira, 23 de novembro de 2017.

Jornal do Comércio

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

Notícia da edição impressa de 24/11/2017. Alterada em 23/11 às 17h37min

Revisitando Garcia Lorca com Graça Nunes

O texto original de A casa de Bernarda Alba, a última das tragédias rurais de Federico Garcia Lorca, de 1936, pouco antes de sua morte, e também sua última peça teatral, é a síntese e o clímax de suas preocupações em torno da violência que se abatia sobre as mulheres, na Espanha que se tornava cada vez mais reacionária e que logo enfrentaria a longa ditadura de Francisco Franco - da qual ele próprio, Lorca, seria vítima. Há um belo livro sobre a dramaturgia lorqueana, de Gwynne Edwards, que dá conta de cada obra e reúne detalhes em torno de sua gênese. No caso de A casa de Bernarda Alba, o texto teria sido lido duas vezes pelo próprio Lorca, em casa de amigos, produzindo o efeito de que o texto significava um novo patamar, um patamar, superior na qualidade de sua dramaturgia. Mas a peça não estrearia na Espanha e, sim, em Buenos Aires pois, àquelas alturas, Lorca já fora assassinado. O sucesso da obra foi imediato.
Pode-se aquilatar, pois, o desafio a que se propôs Graça Nunes ao encenar este texto com o Meráki Grupo de Teatro, que cumpriu temporada (infelizmente, muito curta) entre nós. Como não tenho acompanhado Graça Nunes nestes últimos anos, para mim é um reencontro felicíssimo, pois sempre a admirei profundamente, como atriz, e agora me engalano ao encontrá-la diretora de um espetáculo que, acima de tudo, revela maturidade e equilíbrio da realizadora.
Gwynne Edwards também chama a atenção, em seu livro, para o nome simbólico da personagem central que é, ao mesmo tempo, carrasco e vítima, esta viúva que, de certo modo, antecipa a ditadura, Bernarda Alba. O nome Bernardo significa "valente e feroz como o urso", e Alba se refere ao amanhecer. Sua combinação é, de certo modo, contraditória, mas significativa: a valentia de Bernarda Alba, na defesa do bom nome de sua casa, leva a um alvorecer às avessas, quando a tragédia se instala na casa a partir do amor/paixão/desejo de três, de suas cinco filhas, pelo mesmo homem, Pepe Romano.
Evidentemente, para cada uma delas, o homem se traduz de modo diverso: para a mais velha, é a oportunidade de sair da prisão da casa e elevar-se socialmente; a irmã do meio nutre amor, e a mais nova é simplesmente paixão. Com este esboço, Lorca explora, uma vez mais, um de seus temas prediletos, que é a exasperação dos sentimentos, sempre que os mesmos são proibidos ou marginalizados. No caso desta tragédia, baseada em caso verdadeiro e em memórias do dramaturgo, o enredo começa sob a égide da morte e assim também se encerra. O desaparecimento do marido de Bernarda Alba apenas radicaliza seu comportamento de controle tirânico sobre as filhas, a mais velha das quais já com 40 anos de idade, todas solteiras. Apesar dos avisos oriundos das empregadas, em especial de uma ama mais velha que, embora desprezada, é, na verdade, como que uma mãe das solteiras, Bernarda Alba comete aquele antigo pecado tanto denunciado pela tragédia grega, e que Graça Nunes acentua muito bem, a hybris da autoconfiança e do orgulho, o que leva ao desenlace trágico da obra.
O cenário abstrato e de meios tons de Elcio Rossini, a partir das teorias de Craig, é um deleite aos olhos (há quanto tempo não se vê algo assim em nossos espetáculos?), sabiamente usado pela direção, com aqueles movimentos de aparecimento/desaparecimento e circulação dos personagens por entre os panos. A iluminação de João Fraga sublinha este espaço, completando o clima. Os figurinos de Daniel Lion garantem tal unidade tenebrosa. A direção de Graça Nunes é precisa, meticulosa, detalhista, o que redunda num elenco equilibrado, do qual seria injusto destacar-se qualquer nome entre Aline Vargas, Betha Medeiros, Cleia Bertinati Bandeira, Cissa Madalozo, Elaine Segura, Martina Fensterseifer, Ofélia Ferretjans, Raquel Pilger (que bom revê-la), Rosangela de Britto, Roberta Pochmann, além da bailarina Angela Spiazzi, de excelente e contundente presença em cena, sobretudo graças à coreografia de Carlota Albuquerque.
Não gosto da alternativa, buscada pela direção, das composições em inglês entoadas excelentemente por Gabriele Fleck. Acho que tal opção quebra a unidade dramática do espetáculo. Mas respeito a opção de Graça Nunes e louvo sua coragem de propor uma leitura absolutamente pessoal.
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