Porto Alegre, sexta-feira, 16 de outubro de 2020.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
sexta-feira, 16 de outubro de 2020.
Corrigir texto

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

OPINIÃO

- Publicada em 14h11min, 11/10/2017. Atualizada em 16h43min, 15/10/2020.

O triunfo do conhecimento

Mohamed Parrini
A história do Hospital Moinhos de Vento se conjuga com a história da Medicina do Rio Grande do Sul nesses últimos 90 anos. E o fato incontestável é: o profissional médico não faz apenas parte da nossa instituição, ele é a instituição. Juntos somos um único organismo, que busca o mesmo propósito: curar e cuidar do ser humano.
A história do Hospital Moinhos de Vento se conjuga com a história da Medicina do Rio Grande do Sul nesses últimos 90 anos. E o fato incontestável é: o profissional médico não faz apenas parte da nossa instituição, ele é a instituição. Juntos somos um único organismo, que busca o mesmo propósito: curar e cuidar do ser humano.
Todo médico sabe que cada descoberta traz um novo desafio. O filósofo Karl Popper nos ensinou que as teorias científicas são provisórias e nunca totalmente justificáveis. Por isso, devem ser continuamente questionadas e submetidas à prova, remetendo à ideia de "reconstrução racional" dos processos mentais. Segundo ele, uma hipótese não deve ser testada para procurar evidências de sua veracidade, mas pelo contrário, para provar que está errada. Ou seja, é a negação (no sentido da Lógica, não da Psicologia) que indica o caminho da verdade.
A investigação contínua e pertinaz é característica essencial da atividade médica - do profissional que acolhe e dialoga, que investiga os sintomas, que estabelece o diagnóstico e indica soluções. Por natureza, um ser instigado, movido por sua curiosidade ou pelo desejo de descobrir e solucionar. Mas atrás do caráter técnico que a função exige, carrega talvez as intenções mais altruístas, de proteger, curar e cuidar do próximo. O prestígio - marca do triunfo do conhecimento - é consequência natural e merecida.
Essa obstinação pela reversão de resultados negativos é o que marca a Medicina. Na busca pela cura, a colaboração, o tratamento e a pesquisa são as suas armas em uma batalha contra a prevalência de uma tese que marcou a história da ciência: de que a doença é o prenúncio da morte.
Com a hegemonia do discurso científico, novas perspectivas se abriram e, aos poucos, a salvação de uma alma enferma foi sendo substituída pelas possibilidades de manutenção de um corpo saudável. Conceitos como "qualidade de vida", hoje prevalente na Medicina preventiva, ganharam espaço.
O paciente passou a ser o centro do cuidado; e o médico, o responsável pela condução do modo saudável de se viver. Ao investigar a evolução e a consolidação da Medicina na modernidade em "O Nascimento da Clínica", Michel Foucault já antecipava práticas que são hoje amplamente difundidas em instituições de referência. "A Medicina não deve ser mais apenas o corpus de técnica da cura e do saber; envolverá, também, um conhecimento do homem saudável, isto é, ao mesmo tempo uma experiência do homem não doente e uma definição do homem modelo", sublinhou o filósofo francês.
O sucesso do Hospital Moinhos de Vento ao longo destes 90 anos consiste na compreensão e aceitação das mudanças que marcam a história da ciência moderna e as transformações da sociedade. Na base de sua filosofia institucional estão o trabalho e o cuidado de milhares de médicos. Homens e mulheres, precursores em diversas especialidades e procedimentos, grandes nomes da Medicina no Rio Grande do Sul e no Brasil - como Aloyzio Cechella Achutti, Edgar Diefenthaeler, Felisberto Carlos Ferreira, Guenther Von Eye, Henrique Sarmento Barata, João Mussnich, Loreno Brentano, Ney Maahs Ferreira, entre tantos outros. Se somos reconhecidos hoje como um dos melhores hospitais do País, muito devemos aos profissionais do passado e do presente, brilhantes e incansáveis em suas missões de salvar vidas.
Mas não é apenas a cura que define essa trajetória. Também a experiência que acumulamos pesa, e nos mostra os próximos passos dessa jornada cada vez mais instigante entre os desafios do corpo humano, as inovações na área médico hospitalar e os anseios e angústias da sociedade. A Medicina e a ciência não têm mais fronteiras. E Popper já diria que não deve mesmo ter. À nossa frente, um universo de possibilidades se estende, a reboque da inteligência artificial e de outras descobertas. Mas seguirá sendo o médico o elo capaz de converter em esperança o sofrimento humano. Essa, para nós, ainda é a maior revolução.
Superintendente executivo do Hospital Moinhos de Vento
Comentários CORRIGIR TEXTO