Comentar

Seu comentário está sujeito a moderação. Não serão aceitos comentários com ofensas pessoais, bem como usar o espaço para divulgar produtos, sites e serviços. Para sua segurança serão bloqueados comentários com números de telefone e e-mail.

500 caracteres restantes
Corrigir

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Porto Alegre, quarta-feira, 25 de outubro de 2017.

Jornal do Comércio

Cultura

COMENTAR | CORRIGIR

CINEMA

Notícia da edição impressa de 26/10/2017. Alterada em 25/10 às 17h21min

Apostando na metalinguagem, longa O Formidável estreia nesta quinta

Louis Garrel e Stacy Martin interpretam Godard e Anne Wiazemsky em O formidável

Louis Garrel e Stacy Martin interpretam Godard e Anne Wiazemsky em O formidável


IMOVISION/DIVULGAÇÃO/JC
Ricardo Gruner
Em 2011, o cineasta francês Michel Hazanavicius prestou um tributo ao cinema mudo de Hollywood com O artista - filme que levou cinco Oscar. Seis anos depois, ele retorna ao pastiche. E com outro projeto audacioso: O formidável, longa-metragem que estreia hoje, tem no centro do enredo o cineasta Jean-Luc Godard. Como se não fosse possível falar no mais célebre nome da Nouvelle Vague sem debater possibilidades narrativas, o filme é repleto de metalinguagem.
Com première na seleção oficial do Festival de Cannes, em maio, a produção tem inspiração no livro Un an après, escrito pela recém-falecida Anne Wiazemsky. A atriz foi musa de Godard, com quem se casou em 1967, ano em que começam as ações vistas no filme. A responsabilidade de viver o cineasta ficou a cargo de Louis Garrel (Os sonhadores), em eficiente interpretação de uma figura insuportável: O formidável está longe de ser uma carta de amor ao icônico diretor de Acossado (1960). Já o papel de Anne Wiazemsky foi desempenhado por Stacy Martin (Ninfomaníaca), que pouco a pouco conquista a torcida e a compaixão do espectador.
A versão de Hazanavicius - para o olhar de Anne - contempla um homem que por vezes parece esforçar-se para ser odiado. Em um momento de ruptura de sua carreira, Godard repensa suas escolhas ao longo de eventos ligados aos movimentos de maio de 1968, na capital francesa. Ele, um burguês de 37 anos, passa a conviver com a juventude que de certa forma o intimida e logo entra em sua fase maoísta, tentando aliar cinema e revolução. Com menos de duas horas de duração, o longa-metragem mostra como essas alterações têm consequências em ambiente familiar - a esposa do personagem passa a presenciar e ser vítima de grosserias - para dizer o mínimo.
A rigor, o longa-metragem é uma comédia dramática. Sem encantar pela suposta graça atrelada ao primeiro gênero e nem pela profundidade que o segundo remete, entretanto, só proporciona entretenimento ou reflexão de formas moderadas. Uma insistente piada com os óculos do cineasta, por exemplo, soa somente como empenho em vão para emprestar algum tipo de simpatia a um homem que o roteiro frisa ter temperamento difícil. Na lista de mais importantes realizadores da história, Godard aqui é por vezes um bufão - e não há nada de errado em representar um ícone desta maneira, desde que de fato o humor aconteça.
Visto por muitos como um símbolo do cinema francês contemporâneo, Louis Garrel cumpre aquilo que se espera de um personagem neste perfil - levando o filme nas costas. Com alguns chumaços de cabelo faltando no topo da cabeça, o protagonista apresenta um olhar blasé quando interage com todos aqueles que não são seus pares ideológicos - um tema frequente no título. Em um momento, o protagonista não compreende - nem faz muita questão de compreender - a dificuldade da esposa assimilar que o marido, a quem ela admira artisticamente, "morreu". O falecimento, como ele mesmo explica, é uma referência à criação do coletivo de cineastas Dziga Vertov, com o qual abria mão do cinema autoral para se dedicar a projetos alinhados politicamente e realizados em grupo.
A obra é cheia de outras referências a trabalhos do cineasta - citadas verbal ou esteticamente. Nomes de filmes de Godard batizam títulos dos capítulos em que O formidável é dividido, há mudanças bruscas na fotografia do filme ou legendas para as verdadeiras intenções em diálogos dissimulados. Na melhor das brincadeiras de linguagem, os personagens debatem um assunto enquanto o roteiro ironicamente apresenta uma ideia oposta à dos protagonistas.
Nem só de curiosidades estéticas ou históricas sobre a sétima arte se ampara O formidável. Até mesmo quem nunca ouviu falar de Godard encontra aspectos do roteiro com os quais se pode relacionar. A versão da história apresentada por Hazanavicius, por exemplo, expõe como o amor por alguém pode ser destruído ao longo de uma série de atitudes pontuais, a conta-gotas. Mas é no mínimo curioso apontar que este aspecto, sobre um relacionamento, seja um dos mais impactantes em um longa-metragem que se dedica tanto a ter o próprio cinema como tema.
COMENTAR | CORRIGIR
Comentários
Seja o primeiro a comentar esta notícia