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Porto Alegre, quinta-feira, 26 de outubro de 2017.

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Hélio Nascimento

Cinema

Notícia da edição impressa de 27/10/2017. Alterada em 26/10 às 17h39min

Momento de decisão

No filme, Churchill é um homem assombrado pelo passado

No filme, Churchill é um homem assombrado pelo passado


CALIFORNIA FILMES/DIVULGAÇÃO/JC
O diretor Jonathan Teplitzky não parece ostentar aquelas virtudes necessárias a um cineasta decidido a focalizar uma figura como a do primeiro-ministro Winston Churchill, o homem que, durante certo período da história, representou a civilização diante da maior ameaça até hoje enfrentada. Todo e qualquer ser humano é composto de elementos complexos e difíceis de serem analisados. Os sinais positivos e negativos se espalham e se mesclam a uma realidade ainda mais difícil de ser decifrada. E, quando, no palco onde atua um homem como o biografado no filme a ele dedicado, se movimentam outras figuras históricas e atuam forças que não apenas sufocaram a barbárie como contribuíram para que o mundo surgido depois do conflito mundial fosse outro, era necessário um cineasta que não se deixasse seduzir por incidentes superficiais. Porém, o filme, por abordar um momento decisivo e se aproximar do tema do deslocamento de um protagonista, vivido por Brian Cox, para um papel de menor relevância, se deixa assistir com algum interesse. Por coincidência, foram realizados, ao mesmo tempo, um filme dedicado à retirada de Dunquerque, um trabalho realmente portentoso realizado por Christopher Nolan, e também o ainda inédito aqui O destino de uma nação, no qual veremos Churchill, agora interpretado por Gary Oldman, nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, quando seu carisma e sua oratória contribuíram para que fosse construída uma barreira intransponível para o nazismo até então imbatível.
O Churchill de Teplitzky é um homem assombrado por um passado no qual o desastre de Gallipoli, na Primeira Guerra Mundial, reconstituído em 1981 pelo australiano Peter Weir, o persegue e angustia. No início do filme, em cena que contrasta com o tom realista adotado em toda a narrativa, o protagonista vê o mar ser tingido de sangue, antes de aparecem os soldados mortos. Um pesadelo, certamente, algo que atormentará o personagem durante todo o filme. O passado é algo que não pode ser modificado, mas o drama aqui é outro. Trata-se da ameaça de uma repetição. O êxito da operação no chamado Dia D não exclui o sacrifício. Só o antológico prólogo de O resgate do soldado Ryan, de Steven Spielberg, diz mais sobre o tema. E, no recente e já citado filme de Nolan, o discurso do próprio Churchill anunciando a resistência com palavras poderosas, lidas por um soldado que havia vivenciado todo o horror, é, ao mesmo tempo, acompanhado por um choque de realidade que traz tudo aquilo para o momento atual, com a barbárie agora assumindo novas formas. Nada disso acontece no filme de Teplitzky, que prefere dar ênfase a uma crise conjugal.
O mais interessante no filme é a colocação de Churchill em papel secundário, algo que o encenador sabe expressar com correção na cena em que, após tomar a decisão definitiva sobre a invasão, Eisenhower chama um fotógrafo e posa junto com outros militares para a câmera e para a história, enquanto o protagonista assiste à encenação. O líder que usou a palavra para mobilizar uma nação exerce, no momento, um papel secundário. Em outra cena, aquela na qual encontra um grupo de crianças que repete o gesto famoso, o protagonista percebe que, agora, seu papel é limitado por um ritual sem maior significado. Infelizmente, tudo isso é observado na maior parte do tempo de forma ligeira e desprovida daquela luz que torna esclarecedoras as narrativas. Mas há um momento que merece elogios. Trata-se da cena em que a secretária intervém numa discussão representando o povo. Quando, depois de sua narrativa, o protagonista não aceita suas desculpas e afirma que ela tem todo o direito de se manifestar, a cena pode ser marcada por algum artificialismo, mas se aproxima da questão essencial. E se Teplitzky mantivesse o tom alcançado naquele encontro do rei com o primeiro-ministro em todo o tempo certamente o filme seria bem mais convincente. O modelo para um filme como este deveria ser Almas em chamas, de Henry King, mas os clássicos, assim como as grandes figuras históricas, estão muito distantes de simples conhecedores da narrativa cinematográfica.
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