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Porto Alegre, quarta-feira, 25 de outubro de 2017.

Jornal do Comércio

JC Logística

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Opinião

Notícia da edição impressa de 26/10/2017. Alterada em 25/10 às 19h47min

A era das transportadoras sem caminhões

Marco Antonio Oliveira Neves
Esqueça as tradicionais disputas entre transportadoras de cargas. Mudanças recentes de mercado nos obrigam a dividir as empresas de transportes em três grandes grupos: convencionais, semiconvencionais e não convencionais. Chamarei de convencionais as transportadoras detentoras de ativos operacionais, principalmente caminhões, cavalos mecânicos e seus equipamentos (reboques e semirreboques).
São empresas que demandam investimentos contínuos na modernização e na manutenção de seus ativos. Além disso, em relação à demais, são fortemente impactadas pelos custos fixos, como a depreciação dos ativos, remuneração de capital, salários e encargos sociais etc. Aqui se concentra a grande maioria das transportadoras em operação no Brasil.
As semiconvencionais encontram-se em um estágio intermediário, contando com um mix entre ativos próprios e ativos disponibilizados por terceiros, e em função disso, conseguem uma melhor distribuição entre seus custos fixos e variáveis. Uma pequena parcela das transportadoras convencionais conseguiu se "libertar" dos ativos, partindo para um modelo misto. Ainda são em pequeno número, mas tendem a aumentar progressivamente. Algumas delas vivem uma crise de "identidade", ora se comportando como empresas convencionais, ora agindo como empresas semiconvencionais.
As não convencionais são aquelas que operam a atividade de transporte de cargas sem a necessidade de investir em ativos. Aqui se destacam empresas como Cargo X, Mandaê, Intelipost, uShip, Fretebrás etc., grupo no qual, em breve, se juntarão empresas como Uber Cargo, Truckpad, Veltec, Freteiro, e outras.
Devido à existência de outras competências, conseguem se posicionar no mercado sem sequer realizar um mínimo investimento em equipamentos de transportes de cargas ou na infraestrutura física decorrente, como pátios, terminais de cargas, armazéns etc. Normalmente estão apoiadas em tecnologias voltadas à visibilidade da informação ou em soluções para a aproximação entre a oferta (embarcadores) e a demanda (transportadoras) por carga; outras se destacam por utilizar sistemas diferenciados de gestão, que tratam, principalmente, da atração e retenção de terceiros. Ainda constituem uma minoria, mas cada vez mais ganharão relevância no mercado, subcontratando os dois demais grupos em sua rotina diária.
Embora atuem de forma diferente, todas disputam o competitivo mercado de fretes. Esses modelos, estruturalmente distintos, colocam as empresas não convencionais em um patamar diferenciado de competitividade. Não precisam investir em ativos operacionais e podem direcionar seus recursos financeiros para outros fins, nos quais entendem agregar real valor a seus clientes. Focam em pessoas, em processos, em tecnologias e em sistemas de gestão. São extremamente flexíveis diante das mudanças e ágeis ao fornecer respostas eficazes para seus clientes.
E é aí que reside o principal direcionador do mercado: o cliente, e suas necessidades e expectativas. O primeiro grupo está preso aos seus ativos e a soluções limitadas, que necessariamente passam pelo aproveitamento da capacidade operacional instalada. O segundo grupo tem alguma flexibilidade. O terceiro está livre, leve e solto, sem amarras ou limitações, podendo, inclusive, explorar soluções em transporte colaborativo.
Enquanto o primeiro grupo precisa investir milhares ou milhões de reais todo ano em ativos operacionais, mas hesita em gastar R$ 500,00 na capacitação de seus funcionários, as empresas não convencionais podem distribuir seus recursos em diferentes frentes, focando naquilo que for mais conveniente ou mais interessante para seus clientes.
Pode ter certeza. Não vai demorar para muitas transportadoras convencionais perderem parte de seus embarcadores e terem que trabalhar para as empresas não convencionais. Isso é resultado de um modelo superado, trancado em si mesmo, cada vez mais desconectado do mundo e das novas gerações que estão e que virão por aí. É um modelo de gestão reativo, que não faz contas e que se prostitui diante das pressões dos clientes.
O problema não está em deter ou não o ativo. O problema é no foco dado a ele, exagerado ou muitas vezes, exclusivo, em detrimento de outras competências essenciais. Se não mudarem, não sobreviverão.
Quem sobreviver, verá!
Diretor da Tigerlog Consultoria e Treinamento em Logística Ltda
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