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Porto Alegre, quinta-feira, 24 de agosto de 2017. Atualizado às 01h22.

Jornal do Comércio

Geral

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Limpeza urbana

Notícia da edição impressa de 24/08/2017. Alterada em 24/08 às 01h22min

Nas curvas do caminho, lixo que se perde vira problema

SMSurb calcula cerca de 200 focos clandestinos de lixo em Porto Alegre

SMSurb calcula cerca de 200 focos clandestinos de lixo em Porto Alegre


FREDY VIEIRA/JC
Igor Natusch
A trilha ditada pelo poder público para o lixo de Porto Alegre é repleta de áreas cinzentas. Nela, diferentes atores buscam o lucro, desviando os resíduos da cidade para benefício próprio - seja recolhendo e descartando de forma irregular, seja comprando matéria-prima por valor abaixo do mercado. Alguns até mesmo "roubam" os resíduos deixados pela população nos horários de coleta seletiva, usando veículos próprios para esse fim.
Esse cenário, além de prejuízo financeiro, deixa cada vez mais precária a vida de milhares de pessoas que dependem da renda obtida com a reciclagem para o sustento de suas famílias.
Na quarta reportagem da série sobre os resíduos produzidos na Capital, o Jornal do Comércio discute o que acontece quando o lixo do dia a dia sai do seu caminho e vai parar longe do destino originalmente traçado. Algo que pode acontecer também em residências ou estabelecimentos comerciais, quando se coloca recicláveis dentro do contêiner para resíduos orgânicos ou se lança lixo em arroios ou em terrenos vazios.

Focos irregulares na Capital custam quase R$ 1 mi por mês

A Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (SMSurb) estima que existam, neste momento, cerca de 200 focos irregulares de lixo em Porto Alegre. São terrenos vazios, pertencentes ao próprio poder público ou a particulares, que acabam recebendo de forma clandestina tanto restos de obras e atividades industriais quanto lixo comum, gerado pela população. Tentar limpar esses entulhos, que dificultam o acesso a praças e oferecem riscos à saúde em várias comunidades, custa, ao Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU), cerca de R$ 900 mil mensais.
De acordo com o titular da SMSurb, Ramiro Rosário, o combate passa pela busca de revitalização de alguns desses espaços, mas não exclui a necessidade de fiscalização e, em casos mais graves, punição. "Claro que não temos câmeras nem agentes que possam dar conta de toda a cidade, mas temos tentado ampliar essa fiscalização, inclusive propondo aumento no valor da multa", diz.
O problema é multiplicado, afirma Rosário, pela atuação clandestina de empresas de entulho, sem convênio com o poder público. Ao recolherem restos de obras, não é raro que algumas despejem tudo em áreas remotas da Capital, em especial, nas zonas Norte e Leste. "(O problema é comum em) áreas de menor circulação de pessoas, inclusive nos limites da cidade. Há muitos casos de (caminhões de entulho vindos de) outros municípios da Região Metropolitana, que, quando encontram um espaço onde não há tanta circulação, acabam descartando", lamenta.
Outra situação que preocupa tanto a prefeitura quanto as cooperativas é o "roubo de lixo". Uma vez que os horários de coleta seletiva são de conhecimento público, acaba surgindo um verdadeiro mercado paralelo de recolhimento desse material, com veículos de médio e até grande porte sendo empregados por fora da rede municipal. No decorrer desta semana, o Jornal do Comércio flagrou veículos sem identificação recolhendo resíduos destinados à coleta seletiva no bairro Tristeza, Zona Sul da Capital. 
"Aproveitam-se que o DMLU não tem poder de polícia", diz Imanjara Marques de Paula, presidente da Cootravipa, que faz a coleta seletiva na Capital. "Há lugares onde nem deixam a gente chegar. Se um caminhão nosso vai até lá, ameaçam nossos cooperados, dizem que vão receber a tiros", denuncia. Segundo ela, chegou a ser estudada uma mudança nos horários de recolhimento, mas a opção acabou descartada. "Tudo passa pela falta de conhecimento. Se as pessoas entenderem que o resíduo que produzem sustenta milhares de famílias, vão ser mais cuidadosas, e esse tipo de situação vai diminuir", acredita.

Prefeitura exclui catadores e encoraja redes clandestinas, afirma ativista

Na Tristeza, um veículo clandestino recolhe lixo antes da chegada da coleta seletiva

Na Tristeza, um veículo clandestino recolhe lixo antes da chegada da coleta seletiva


PAULA SÓRIA QUEDI/ESPECIAL/JC
Alex Cardoso, representante gaúcho do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), diz que a falta de controle da prefeitura faz com que pessoas com maior poder aquisitivo contratem catadores como mão de obra, promovendo redes de coleta clandestina. "É geralmente uma pequena caminhonete, com um motorista e dois ajudantes no máximo. Muitas vezes, a pessoa é contratada naquele mesmo dia, e aceita porque precisa de dinheiro", diz.
Esse problema só pode ser combatido, diz ele, se a prefeitura criar um "exemplo de inclusão" para catadores e carrinheiros. "Hoje, a cidade optou por excluir postos de trabalho e privatizar a coleta, sem investir em educação ambiental. As cooperativas estão melhores, mas antes pareciam lixões com paredes, pois estavam carentes de tecnologia. Por que, então, um catador vai buscar uma cooperativa, se ele pode ganhar melhor e de forma mais imediata com um ferro-velho, que muitas vezes é inclusive o dono do carrinho que ele usa?", questiona Camargo. "Não há fiscalização sobre as empresas que compram e vendem sucata. O cobre pode ter sido recolhido por carrinheiros ou roubado por alguém da rede pública de energia, e o governo não tem como saber."
O representante do MNCR propõe que a coleta seja repassada às cooperativas que já atuam nas Unidades de Triagem. A ideia é que incorporem os carrinheiros para a execução desse serviço, com apoio da prefeitura. Um projeto-piloto, unido a atividades de conscientização, poderia ser o começo de uma rede, defende. "Grande parte dos recicladores são pessoas que precisam de outras atenções. Alguns são moradores de rua, precisam de suporte, acesso a serviços. É necessário pensar a coleta não como algo que uma empresa contratada faz, mas como forma de inclusão."
 

Em apenas quatro dias, 76 toneladas de resíduos foram retiradas na orla do Guaíba

Além de ameaçar a saúde pública em terrenos abandonados, resíduos que poderiam ser reciclados ou aterrados de forma correta acabam poluindo os cursos d'água da Capital. A SMSUrb anunciou, na semana passada, que, em apenas quatro dias, removeu 76 toneladas de resíduos em diferentes pontos da orla do Guaíba. O lixo ficou exposto a partir do recuo do rio, após fortes ventos causados por um evento climático.
A remoção começou com 75 funcionários do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU). Apenas no primeiro dia, 34 toneladas de lixo foram recolhidas. Nos dias seguintes, 45 garis participaram da limpeza. Segundo a SMSurb, o material recolhido incluía galhos, garrafas PET, fogões e até um vaso sanitário.
Na tentativa de diminuir a quantidade de entulhos, o DMLU instalou uma ecobarreira no Arroio Dilúvio, em parceria com o Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Em um ano e meio, a iniciativa-piloto chegou à marca de 250 toneladas de resíduos recolhidos. Diariamente, o equipamento é içado, e os materiais recolhidos - que vão desde isopores e sacolas plásticas a restos de móveis e até animais mortos - são encaminhados ao aterro sanitário de Minas do Leão.
Amanhã: descartar errado o lixo pode gerar multas - e muitos porto-alegrenses não sabem como proceder.
 
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