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Porto Alegre, terça-feira, 22 de agosto de 2017. Atualizado às 07h37.

Jornal do Comércio

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Limpeza urbana

Notícia da edição impressa de 22/08/2017. Alterada em 22/08 às 07h38min

Porto Alegre está longe da eficiência em reciclagem

Unidade da Lomba do Pinheiro separa recicláveis da coleta orgânica

Unidade da Lomba do Pinheiro separa recicláveis da coleta orgânica


CLAITON DORNELLES /JC
Igor Natusch
Todos os dias, Porto Alegre faz a triagem de cerca de 100 toneladas de lixo reciclável. O número parece significativo, mas fica quase minúsculo quando comparado com o volume que vai para o aterro de Minas do Leão: algo em torno de 1.200 toneladas por dia. Essa montanha de detritos custa em torno de R$ 219 mil diários apenas para ser retirada das ruas e contêineres, além de R$ 80 mil gastos nos caminhões que entram e saem da Estação de Transbordo do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU), na Lomba do Pinheiro, por onde necessariamente passa o lixo orgânico coletado. Também entra na conta o aterramento, que consome cerca de R$ 91 mil de verba pública, todo santo dia. Isso tudo sem mencionar eletrônicos, caliça etc., que completam as cerca de 1.800 toneladas de resíduos.
Para que o sistema seja mais efetivo, e para gastar menos dinheiro com materiais sem chance de aproveitamento, é preciso melhorar a qualidade do resíduo reciclável recolhido - menos de 5% é efetivamente aproveitado. Na segunda reportagem da série sobre o lixo de Porto Alegre, cooperativas, carrinheiros e poder público discutem os gargalos que levam a cidade a aproveitar bem menos dos seus resíduos do que poderia.

'Se as pessoas separassem o lixo, teríamos mais trabalho'

Na Unidade de Triagem e Compostagem (UTC) da Lomba do Pinheiro, o material reciclável que ainda pode ser aproveitado é separado do lixo orgânico e prensado por moradores da região. Atualmente, 124 pessoas trabalham na cooperativa, lidando com resíduos sólidos domiciliares, oriundos de coleta seletiva e material hospitalar reciclável.
Segundo Luiz Fernando Oliveira Silva, coordenador e secretário da associação de trabalhadores, é possível tirar entre R$ 800,00 e R$ 1 mil mensais. "Está melhor do que há alguns anos, mas não está bom", diz Silva, citando a "concorrência" causada por atravessadores, que compram o material recolhido por carrinheiros que atuam fora do sistema de coleta seletiva. "Se as pessoas tivessem mais consciência, separassem o lixo melhor, a gente teria muito mais material para trabalhar."
A área da Lomba do Pinheiro tem 18 hectares. No local, também é promovida a compostagem de resíduos, que hoje envolve especialmente o material resultante de roçados, poda e capinas. A prefeitura passou a dar maior atenção à compostagem nesta gestão.
Conforme Mariza Reis, uma das responsáveis técnicas da UTC, esses processos resultam em cerca de 700 toneladas de resíduos arbóreos por mês, e a maior parte deles é transformada em lenha. O restante é triturado e usado para compostagem.
O adubo resultante é usado nas árvores plantadas em vias públicas e também vendido, com o lucro sendo revertido à cooperativa que atua na UTC. Segundo o DMLU, foi possível economizar R$ 119 mil em abril, apenas com a diminuição das remessas de capina a Minas do Leão.
Tudo que chega à estação de transbordo e não pode ser aproveitado de alguma forma acaba retornando para os caminhões. A viagem, desta vez, será mais longa: o lixo orgânico e os rejeitos sem possibilidade de reciclagem vão para Minas do Leão, a quase 100 quilômetros da Capital, onde funciona o aterro sanitário contratado pela prefeitura.
 

Atravessadores escravizam carrinheiros, critica Rosário

No momento, entre 600 e 700 pessoas trabalham nas 17 Unidades de Triagem (UTs) credenciadas junto à prefeitura de Porto Alegre. Esses locais comercializam os resíduos selecionados com empresas recicladoras, saindo daí a renda dos cooperativados. O número de trabalhadores individualizados, porém, é bem maior. Segundo Alex Camargo, representante gaúcho do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), são até 6 mil carrinheiros e catadores atuando nas ruas da cidade, vendendo o que recolhem para atravessadores, em especial, ferros-velhos.
O titular da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (SMSurb), Ramiro Rosário, diz que a pasta pretende ampliar a fiscalização sobre os atravessadores - que, segundo ele, "estão praticamente escravizando" quem atua na informalidade. "A inclusão dos trabalhadores (ligados à triagem) é uma questão social. A prefeitura trabalha com cooperativas e associações que tratam o lixo reciclável, e que acabam sendo prejudicadas pelo comércio irregular. Queremos garantir que o resíduo tenha destino certo, que vá para onde deve ir", acentua.
Na visão de Cardoso, a atuação do poder público precisa ser outra. "De que jeito a prefeitura vai combater, se os catadores estão saindo das cooperativas por falta de material?", questiona. Pela falta de resíduos de qualidade, várias cooperativas fecham o galpão durante alguns dias, ou precisam limitar o número de trabalhadores.
Sem uma rede que inclua esses catadores no sistema, mantendo-os como encarregados da coleta, a tendência é de uma "exclusão social profunda", diz Camargo. "Os ferros-velhos estão à parte, não comprovam procedência (dos resíduos), determinam o preço e pagam um valor muito baixo (aos catadores). Em alguns casos, é quase uma servidão por renda", denuncia.
 

Falta de organização reprime reúso de resíduos específicos

Além das UTs que recebem os resíduos resultantes da coleta seletiva e da triagem na UTC, outras cooperativas tratam de materiais específicos, como eletroeletrônicos e sobras da construção civil.
Na visão de Sérgio Amaral, do Centro de Transformação Sócio Ambiental (CTSA) da ONG Solidariedade, há margem para mais cooperativas do tipo na Capital. "É algo que gera renda, traz benefício ambiental, e é uma necessidade da cidade, que precisa dessas iniciativas para não ficar caótica", enumera.
A unidade, que começou a atuar de forma efetiva há cerca de um ano, tem parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e trabalha com resíduos de construção civil e demolições, que são transformados pelos cooperativados em blocos de concreto. No momento, a falta de concorrência deveria garantir ao CTSA bom acesso à matéria-prima. Porém, das 29 pessoas capacitadas pelo projeto, apenas 10 estão trabalhando de fato, já que o material não surge na quantidade necessária.
"Podemos dar conta de até 50 toneladas ao dia, mas recebemos muito menos, e a cidade produz muito mais que isso. Há uma demanda incrível reprimida, tanto de pessoas que querem exercer a atividade quanto de cidadãos que precisam canalizar esses resíduos."
"A política pública é deficiente", enfatiza José Luiz da Silva, ligado à Cooperativa Paulo Freire, que lida com eletroeletrônicos. "O lixo eletrônico recolhido nos pontos de coleta da prefeitura não vai para a cooperativa, mas para uma empresa privada de fora da cidade. Não sou contra o privado, mas geramos renda, tiramos pessoas da rua, então tem uma conjuntura social que deveria ser mais valorizada. São 70 toneladas (de resíduos eletrônicos) por mês, falta visão de mandar para cooperativas como a nossa", critica. 
A Cooperativa Paulo Freire recebe resíduos na avenida Voluntários da Pátria, 2.552, em Porto Alegre. A CTSA atende no telefone (51) 3126-4262. Os contatos das UTs conveniadas com a prefeitura podem ser conferidos no site do DMLU.
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