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Porto Alegre, quinta-feira, 03 de agosto de 2017. Atualizado às 22h40.

Jornal do Comércio

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

TEATRO

Notícia da edição impressa de 04/08/2017. Alterada em 03/08 às 16h39min

Dançando e cantando os mortos de Antares

Vou continuar insistindo: parece que a crise brasileira anda fazendo bem a nossos grupos teatrais. Mais um espetáculo de extrema criatividade, mesmo que não completamente realizado, estreou nas últimas semanas na cidade, e também em um local pouco valorizado por nossos grupos teatrais, o Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, na Rua da Praia, antiga sede da estatal de energia. Trata-se de uma adaptação para teatro musical do romance de Erico Verissimo Incidente em Antares. O grosso volume, lançado em 1974, ainda em plena ditadura, era exatamente uma metáfora daquela situação. Pouco mais de 40 anos depois, o texto de Verissimo continua, infelizmente, atual.
A adaptação do espetáculo escolheu o episódio central do romance para sua adaptação e transposição cênica. Enquanto os trabalhadores de uma pequenina cidade interiorana sul-rio-grandense se declaram em greve, decisão que igualmente afeta os coveiros, aqueles que vêm a falecer, durante o episódio, ficam insepultos, inclusive a esposa do coronel da região, seu mandatário político e altamente corrupto, ao lado do delegado de polícia e de um advogado.
O libreto original é de Arthur Pinto, que já tem experiência neste tipo de trabalho, enquanto a composição musical é de Annhy Colla, que se vale de ritmos latino-americanos, muito bem explorados na sequência de cenas do espetáculo de cerca de hora e meia de duração. A trilha sonora, aliás, é realizada ao vivo, com a presença dos músicos no palco, contracenando com os atores.
A direção coreográfica é de Cintia Ferrer e Raul Voges, dupla que já nos deu interessante espetáculo ainda há pouco tempo, e que retorna, agora, insistindo na possibilidade do musical em nossos palcos. O trabalho anterior havia sido realizado com atores profissionais. Desta vez, o espetáculo funciona como trabalho de formação de uma primeira turma de artistas-alunos da Actemus (Academia de Teatro Musical de Porto Alegre), que ambos animam em nossa cidade. Talvez por isso mesmo, embora o esforço e a dedicação, e a bela ideia trazida à ribalta, nem sempre as coisas saem tão bem quanto a gente gostaria que ocorresse.
Em síntese, o principal mérito da montagem é seu conceito de espetáculo coletivo. Aliás, independentemente do fato de a distribuição de papéis em cena poder privilegiar este ou aquele intérprete, entendo que teatro é, essencialmente, um trabalho coletivo de toda a equipe técnica e dos intérpretes. Por isso o teatro é um acontecimento vivo, que se renova a cada momento em que se concretiza no palco. Ocorre, porém, que nem todos os intérpretes estão totalmente prontos para sua chegada à cena. Assim, devem-se destacar as boas performances de personagens como a jovem prostituta que vem a falecer de tísica; ou o revolucionário que é traído pela esposa, mas que a perdoa, por amor; ou mesmo o prefeito municipal. Mas o desafio de se colocar com naturalidade em cena e cantar dentro do tom ainda são questões a serem resolvidas por alguns dos integrantes do elenco, não obstante seus esforços e sua evidente dedicação.
A produção conseguiu resolver bem a questão do cenário: os próprios atores se colocam enquanto contrarregras, trazendo e levando para fora da cena alguns apetrechos e acessórios que servem para localizar o espectador quanto ao local em que a ação está acontecendo. A direção musical de Arthur Barbosa, neste sentido, fez seu melhor, mas, evidentemente, não se fazem milagres. Cantar e dançar é um aprendizado que eu diria que acontece quase que ao longo de toda a vida.
Os insepultos, como se chama este trabalho, dando destaque, justamente, ao episódio central do romance e o desenvolvendo, chamou a atenção do público, que, apesar das falhas evidentes que apresenta o trabalho, agrada-se com o resultado final, sobretudo pelas relações de parentesco e de amizade que guarda com os intérpretes. Assim, o ambiente é de proximidade, compreensão e apoio, o que, certamente, ajudará muito aos jovens intérpretes a se desenvolverem melhor na ribalta.
Deve-se parabenizar, enfim, a Cíntia Ferrer e a Raul Voges, pela boa ideia e a coragem de a transformarem em realidade. É assim que nossa cena vai crescendo e se desenvolvendo gradualmente.
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