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Porto Alegre, quarta-feira, 25 de outubro de 2017.

Jornal do Comércio

Política

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memória

Notícia da edição impressa de 27/06/2017. Alterada em 26/06 às 22h51min

Memorial Carlos Prestes se prepara para inauguração

Inauguração vai coincidir com centenário da Revolução Russa

Inauguração vai coincidir com centenário da Revolução Russa


MARCELO G. RIBEIRO/JC
Carlos Villela, especial para o JC
Após 27 anos, o Memorial Luís Carlos Prestes está a um passo da inauguração. Projetado por Oscar Niemeyer e seu bisneto Paulo Sérgio, o memorial, localizado no começo da avenida Ipiranga, no bairro Praia de Belas, homenageia o maior nome do comunismo no Brasil e é a primeira obra de Niemeyer na Capital.
A construção do memorial envolveu uma série de negociações para garantir a viabilidade da obra. Em 1990, o então vereador Vieira da Cunha (PDT) apresentou à Câmara o projeto de lei para construção do espaço. "O Prestes tinha recém-falecido; e, em função de tudo que ele representou, eu apresentei o projeto", diz o ex-deputado. De acordo com Vieira, os únicos votos contrários vieram da bancada do então PDS, hoje PP. Em 1990, a Câmara aprovou o projeto e a doação do terreno pertencente à administração municipal, e oito anos depois foi lançada a pedra fundamental.
Olívio Dutra (PT), prefeito da Capital na época da aprovação do projeto, conta que foi ao Rio de Janeiro com uma comitiva para apresentar a Niemeyer a proposta da construção e negociar valores com o arquiteto. "Nós apresentamos a ideia, mostramos o terreno e dissemos que queríamos contar com ele", relembra Olívio, "e ele respondeu que não cobraria nada pelo projeto por causa da amizade que tinha com Prestes, como de fato aconteceu".
Com a dificuldade de arrecadar verbas para a execução do prédio, em 2008, o Instituto Olga Benário acertou, junto à Federação Gaúcha de Futebol (FGF), que metade do terreno seria cedido à instituição para construir a sede própria, e em contrapartida eles executariam a obra e fariam a manutenção. "O Francisco Noveletto (presidente da FGF) fez contato comigo", conta Vieira. "Como Porto Alegre iria ser uma das sedes da Copa do Mundo, a FGF queria ter sede própria, e eles consideraram o terreno propício." As obras se iniciaram de forma definitiva no começo de 2012. A inauguração, prevista para 28 de outubro, coincide com o centenário do começo da Revolução Bolchevique.

Uma trajetória de luta e resistência

Ilustração de Prestes na entrada do memorial foi desenhada por Paulo Sérgio Niemeyer

Ilustração de Prestes na entrada do memorial foi desenhada por Paulo Sérgio Niemeyer


MARCELO G. RIBEIRO/JC
Nascido em Porto Alegre no ano de 1898, Luís Carlos Prestes cresceu na rua Riachuelo, no centro da Capital. Em 1919, morando no Rio de Janeiro, se formou em Engenharia Militar pela Escola Militar do Realengo, uma espécie de precursora da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), e foi engenheiro ferroviário e tenente na capital fluminense antes de ser transferido de volta para o Rio Grande do Sul para construir a linha férrea entre Santo Ângelo e Giruá, na região das Missões.
Em 1924, em uma revolta contra o governo do presidente Artur Bernardes, Prestes marchou por mais de 20 mil quilômetros no Brasil no que ficou conhecido como Coluna Prestes. Partindo de Santo Ângelo, a Coluna chegou a ter 1500 integrantes quando passou pelo Mato Grosso. Para evitar conflitos com o Exército, se usava táticas para despistar. Ainda assim, nos 25 mil quilômetros percorridos pela Coluna, houve 53 combates com as tropas. Em 1927, a Coluna terminou na Bolívia, onde se exilou.
Em 1931, Prestes foi morar na União Soviética, e depois retornou ao Brasil como membro da Internacional Comunista, acompanhado da alemã Olga Benário. No Brasil, Prestes foi aclamado como presidente de honra da Aliança Nacional Libertadora (ANL), movimento antifascista. Ele buscou em contatos da época de capitão para consolidar uma possível tomada do poder. Em 1935, Prestes publicou um manifesto pela derrubada de Getúlio, o que levou o então presidente a declarar a ANL ilegal, e acarretou na insurgência chamada Intentona Comunista. O movimento foi combatido e derrotado pelas tropas fiéis a Getúlio, levando à prisão de Prestes e a deportação de Olga, grávida, para a Alemanha nazista. Lá, Olga deu à luz a Anita, única filha do casal, e tempo depois foi entregue à mãe de Prestes, Leocádia. Em 1942, Olga morreu em uma câmara de gás. Ele casaria novamente em 1950 com Maria, com quem teve sete filhos.
Prestes foi eleito senador em 1946, liderando a bancada comunista na Assembleia Constituinte daquele ano, junto com outros parlamentares como o escritor Jorge Amado - que escreveu em 1942 o livro O Cavaleiro da Esperança, intitulado assim pelo apelido de Prestes - e o futuro guerrilheiro Carlos Marighella. Exerceu o mandato até 1948, quando retornou à clandestinidade após a nova cassação do Partido Comunista do Brasil (PCB).
Após o golpe militar, Prestes se exilou novamente na União Soviética no fim dos anos 60, retornando ao País após a promulgação da Lei de Anistia. Ele apoiou Leonel Brizola nas candidaturas ao governo do Rio de Janeiro e à presidência nas primeiras eleições diretas, e foi aclamado como presidente de honra do PDT. Prestes faleceu em 7 de março de 1990, aos 92 anos, no Rio de Janeiro.
Olívio diz que seus poucos encontros com Prestes o marcaram bastante. "Em uma ocasião ele estava meio clandestino, fui levado pelos companheiros para conversar com ele, fizemos mil voltas para chegar num lugar que eu acho que eu sabia onde era", relembra Olívio, rindo. "Ele tinha uma memória enorme, falava manso, e a gente ficava olhando para ele pensando em tudo que ele passou na vida. Perseguição, clandestinidade, perda da mulher, a filha nascendo na Alemanha, tanta coisa".
 

Arquitetura do prédio é inspirada na Coluna Prestes

Trajetória de Prestes será mostrada nas paredes

Trajetória de Prestes será mostrada nas paredes


MARCELO G. RIBEIRO/JC
O Memorial Luís Carlos Prestes tem uma área construída de 700 m2, dentro de um terreno com totalidade de 10 mil m2, incluindo a sede da Fundação Gaúcha de Futebol (FGF).
O prédio vermelho e branco, revestido de vidraças pretas, tem formato circular e é dividido em duas partes. Essa divisão interna é no formato do caminho trilhado pela Coluna Prestes.
No lado maior do prédio, uma exposição fixa sobre a trajetória de Prestes será contada através de uma linha do tempo composta por fotografias e documentos, grande parte desse acervo doada por Anita Leocádia. O local também conta com um pequeno auditório para palestras, aulas públicas e debates. No outro lado do memorial há um espaço para exposições temporárias, não necessariamente relacionadas a Prestes ou à política.
Entre as paredes vermelhas e sinuosas do memorial há uma entrada para uma sala pequena e toda preta, na qual se abordará o período de exílio de Prestes, com a cor e a localização funcionando como uma metáfora, refletindo uma das lembranças do bisavô mantidas por Paulo Sérgio Niemeyer. "Uma das coisas que o Oscar me ensinou foi que a arquitetura tem que ter uma razão de ser", diz.
O local conta com estacionamento, com espaço para 40 veículos. Niemeyer era contrário à destinação de um local para carros, mas, de acordo com Edson Ferreira do Santos, presidente do Instituto Olga Benário, a inclusão foi necessária por conta da legislação municipal.
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Comentários
Marcelo 25/10/2017 08h59min
Rio Grande do Sul na contramão da História. Danem-se os fatos, os milhões de vítimas e a História! Em 1991, nossa Câmara Municipal cedeu o terreno, autorizou a finalidade da obra e será inaugurado, nestes dias, com foices e martelos, um Memorial para honra e glória do mais conhecido comunista brasileiro, desertor homicida, traidor da pátria e servo de Stálin.
Lucas Dorneles Magnus 15/09/2017 11h56min
A Coluna não partiu de Santo Ângelo, mas sim de São Luiz Gonzaga.nnConsta, segundo José Gomes, no livro "História de São Luiz Gonzaga, Ed. A Notícia, 1981", e com informação confirmada pessoalmente pela historiadora Ana Oliveira, do Instituto Histórico e Geográfico de São Luiz Gonzaga - IHGSLG, que o local de onde partiu a Coluna Prestes foi São Luiz Gonzaga, e não Santo Ângelo. Espero não encontrar mais este erro, tão comum na historiografia da região.