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Porto Alegre, quinta-feira, 22 de junho de 2017. Atualizado às 23h49.

Jornal do Comércio

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

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Notícia da edição impressa de 23/06/2017. Alterada em 22/06 às 17h16min

Revisão de clássico infantil

Por vários motivos, a encenação de Chapeuzinho vermelho, de Joël Pommërat, é um acontecimento na cidade. Primeiro, porque ele é, hoje, um dos dramaturgos mais importantes da França, além de diretor de cena: ele mesmo gosta de fazer as primeiras montagens de seus textos. Nascido em 1963, aos 40 anos reuniu alguns atores e atrizes conhecidos, propondo-lhes criar um grupo que, nos 40 anos seguintes, estrearia uma peça por ano. A proposta foi depois abandonada: atualmente, Pommerat faz diferentes residências em alguns dos teatros estáveis franceses de maior orçamento, o que lhe garante a continuidade de seu trabalho.
Chapeuzinho vermelho teria nascido da vontade do dramaturgo em escrever uma peça de teatro para a filha pequena. Isso ocorreu em 2004, o que significa que esta foi uma de suas primeiras peças. Depois dela, ele ainda criou os textos de Pinóquio e Gata borralheira. Chapeuzinho vermelho, originalmente, é um conto anterior ao século XVII, que teve um de seus primeiros registros literários por Charles Perrault, em 1697. Mais tarde, os irmãos Grimm (1812) também apresentaram duas diferentes versões do conto. O desenvolvimento dramático da história é variável: numa versão popular antiga, Chapeuzinho chega a comer parte do cadáver da avó, instada pelo lobo, que a engana. Na versão de Perrault, ela aceita o convite do lobo para deitar-se com ele na cama da vovó. Enfim, na versão dos Grimm, há um caçador que termina por resgatar a ela e à velha avó. Cada versão admite um sem número de leituras e interpretações, conforme já se leu em Bruno Bettelheim (Psicanálise dos contos de fadas). Eu próprio já fiz um inventário de narrativas brasileiras que partem deste conto, com destaque para Fita verde no cabelo, de Guimarães Rosa.
Joël Pommerat optou pela versão dos irmãos Grimm. Este é um primeiro sentido renovador de sua proposta. O segundo, francamente desafiador, é que, contradizendo o que caracteriza a arte teatral - a ação viva a acontecer diante do espectador - todo o espetáculo decorre com a participação de um narrador, que vai desfiando o conto, enquanto os atores como que ilustram o que é narrado. No caso do espetáculo assinado por Camila Bauer, isso deu espaço a uma valorização da coreografia, assinada por Carlota Albuquerque, e excelentemente bem desenvolvida pelos quatro atores em cena. O texto, aliás, é reiterativo, como tradicional num conto oral, afim de que o ouvinte (no caso, o espectador) grave de memória o que se está a dizer.
A relação entre a menina e a mãe é bastante moderna: a mãe está sempre ocupada e tem pouco tempo para brincar com a menina. A menina, de seu lado, gosta de brincadeiras de meter medo, natural em todas as crianças. Há, pois, um jogo de faz de conta que, posteriormente, vai lhe permitir enfrentar o lobo, até certo ponto, de igual para igual, como ocorre com a versão de Chico Buarque, em Chapeuzinho amarelo. Mas, ao contrário do texto brasileiro, o lobo é mais forte e engole a menina. Fabiane Severo (a se julgar pela distribuição dos nomes no programa, deve ser Chapeuzinho), Guilherme Ferrêra (sob o mesmo critério, o narrador), Henrique Gonçalves (seria o lobo?) e Laura Hickmann (mãe) contracenam com equilíbrio. O lobo vem absolutamente travestido no animal, com excelente figurino (Daniel Lion) em alpaca ou coro, o que lhe dá maior verossimilhança. A cenografia de Élcio Rossini é simples, mas eficiente: uma estrutura metálica que é movimentada ao longo de todo o palco. O que mais merece destaque, no aspecto técnico, com forte incidência na narrativa e no resultado final do espetáculo, no entanto, é a iluminação, aqui assinada por Thaís Andrade. Ocorre que Pommerat gosta de se valer da luz exatamente para definir espaços e valorizar a figura do ator. É o que aqui ocorre, de modo que a travessia da floresta, pela menina, o encontro com o lobo, a chegada na casa da avó e assim por diante são momentos muito bem marcados justamente pela iluminação.
Escrita para uma criança, mas a ser assistida por crianças e adultos, Chapeuzinho vermelho é um excelente trabalho. Espero, sinceramente, que o espetáculo volte a cartaz para receber maior atenção de nosso público. Merece.
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