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Porto Alegre, quinta-feira, 22 de junho de 2017. Atualizado às 23h49.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Notícia da edição impressa de 23/06/2017. Alterada em 22/06 às 17h54min

Uma vida

Poucos serão aqueles que discordarão da afirmativa de que La strada, de Federico Fellini, é um dos maiores filmes já realizados. Naquela obra-prima, o cineasta descreve, focalizando a narrativa em três personagens, o tema da sensibilidade sufocada pela dura realidade da vida, da imaginação agredida pela brutalidade, da fantasia perseguida pelas leis do cotidiano.
Poucos filmes focalizaram de maneira tão intensa o sofrimento humano causado pelo arrependimento e o remorso quando o sobrevivente toma conhecimento do drama causado por sua indiferença diante dos sonhos e desejos da companheira desaparecida. Em seu novo filme, Quem é Primavera das Neves?, Jorge Furtado, agora dividindo a direção com Ana Luiza Azevedo, faz muitas citações, cinematográficas e literárias, e entre os filmes citados está o do diretor italiano.
A personagem focalizada pelo filme, a tradutora e poeta inédita Primavera Ácrata Saiz das Neves, viveu apenas 47 anos, traduziu diversos livros para o português, mostrou os poemas que escreveu apenas para pessoas amigas e chamou a atenção de Furtado quando este encontrou seu nome como tradutora de Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll.
Um filme antigo da década de 1910 é uma das primeiras citações feitas durante a narrativa. A inclusão de tal filme antecipa a técnica a ser adotada, na qual se mesclam imagens do trabalho de Furtado, ele próprio em cena dirigido por Ana Luiza, cenas de documentários e entrevistas. Tudo é utilizado de maneira a trazer para o conhecimento do espectador a trajetória e a personalidade de uma personagem dotada de uma estatura que merecia uma atenção bem maior, algo que o filme talvez possa corrigir.
Um dos aspectos mais interessantes dessa nova produção da Casa de Cinema é a utilização de trechos de obras traduzidas por Primavera. Houve uma correta opção por utilizar fragmentos que estivessem relacionados com acontecimentos da vida da personagem. Interpretados pela atriz Mariana Lima, tais textos são acompanhados pelos poemas de Primavera, o que ressalta na aproximação entre a tradutora e a poeta até então desconhecida.
A tradução será sempre uma versão feita a partir de um original. Ela sempre será portadora de traços pessoais de quem está traduzindo, até porque são muitas as possibilidades abertas, desde a escolha das palavras até a ordem com que elas podem ser empregadas. É como no teatro: assistir a uma peça é tomar conhecimento da visão do encenador de determinado tema. Lendo o texto é que nos aproximamos da visão do autor da peça. O tradutor seria, assim, um novo participante da elaboração de um texto. Ao aproximar textos traduzidos e obras originais, algumas delas de grande admiração de Primavera, como a poesia de Fernando Pessoa, o filme expõe, de forma bem clara, a ideia de que a criação (os poemas originais) e os trabalhos de tradução são da mesma pessoa e, portanto, elementos indispensáveis para o conhecimento da personalidade estudada.
Um outro aspecto importante é a questão da realização pessoal. É quando o filme se recusa a procurar o explícito. Registra a atitude da amiga que se nega a entrar em detalhes sobre a decisão da personagem em não voltar para Portugal. A citação de La strada pode ser um indício, mas nada fica claro em tal terreno. Não é uma lacuna, e sim uma ênfase na complexidade. E, ao mesmo tempo, também, um apelo à imaginação do espectador. O mais interessante de tudo é a reconstituição da vida de uma mulher através dos sinais deixados pelo trabalho e por sua atuação como ser humano.
O século XX, como o filme ressalta, foi marcado por acontecimentos terríveis. Mas não foi o primeiro e já se pode dizer que não foi o último. É quando o tema do filme de Fellini se impõe como algo revelador. Quem é Primavera das Neves? não é apenas sobre a curiosidade de um diretor de cinema por um nome estranho e repassado de poesia. Os poemas ocultos e as traduções reveladas, a paixão por Pessoa e Wagner, e o olhar lúcido sobre o cotidiano revelado nas cartas revelam uma personalidade que, como tantas outras, não se revelaram inteiramente, isso quando não foram sufocadas pela indiferença e pela ferocidade.
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