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Porto Alegre, terça-feira, 04 de julho de 2017. Atualizado às 13h58.

Jornal do Comércio

Empresas & Negócios

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energia

Notícia da edição impressa de 03/07/2017. Alterada em 04/07 às 14h02min

Brasil vira negócio da China

Empresas estatais chinesas compram ativos como estratégia de expansão da economia

Empresas estatais chinesas compram ativos como estratégia de expansão da economia


WANG ZHAO/AFP/JC
Jefferson Klein
O jargão popular "negócio da China" determina uma transação ou um acordo muito vantajoso. Porém, ultimamente, ao invés de os asiáticos apresentarem grandes oportunidades para os brasileiros, as possibilidade de investimentos lucrativos estão concentrando-se no sentido inverso, principalmente no setor elétrico nacional.
Entre as movimentações verificadas nessa área recentemente destacam-se a State Grid, que assumiu 54,64% de participação na CPFL Energia (para isso, os chineses desembolsaram US$ 4,5 bilhões); e a aquisição de ativos da portuguesa EDP e da norte-americana Duke Energy no Brasil pela China Three Gorges (CTG - que opera a hidrelétrica de Três Gargantas, maior usina do mundo). Além disso, a Shanghai Eletric adquiriu o direito de construir uma série de obras de transmissão no Rio Grande do Sul que antes eram da Eletrosul.
O diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires, destaca que a oportunidade de ter um papel importante no Brasil, em um setor fundamental como o elétrico, é algo que atrai os chineses. "Eles estão com dinheiro sobrando e têm um plano de expansão para países da América Latina e da África, para ter uma posição estratégica, do ponto de vista de poder", argumenta.
No que diz respeito ao caráter econômico, Pires salienta que a tática permite à China fornecer equipamentos chineses para suas empresas localizadas fora do país, gerando emprego e trabalho no seu próprio território também. O gestor do CBIE acredita que a crise econômica e política pela qual passa o Brasil afugenta menos os investidores chineses do que empreendedores de outros países.
Pires justifica que as empresas chinesas que compram ativos no Brasil, em qualquer setor de infraestrutura, são estatais. E, segundo o diretor do CBIE, o que faz uma empresa estatal comprar um ativo não é simplesmente a taxa de retorno, mas também uma estratégia de expansão da economia daquela nação. Já as companhias privadas observam com mais cuidado a questão do lucro, dos marcos regulatórios e da segurança jurídica.
"Parece claramente que a China tem um planejamento de substituir os Estados Unidos na África e na América Latina como grande investidor", reforça. Pires considera positivo o interesse dos estrangeiros no País, pois o Brasil precisa de investimentos e geração de empregos. No entanto, no caso dos empreendedores chineses, ele sugere um pouco de cuidado, justamente por não se tratar de companhias privadas, e sim de estatais, que possuem um projeto vinculado à política da sua nação de origem.
Pires ressalta que os chineses estão adquirindo empreendimentos dentro dos três segmentos do setor elétrico: geração, transmissão e distribuição. O dirigente recorda que a China Three Gorges comprou a usina Ilha Solteira da Companhia Energética do Estado de São Paulo (Cesp) e, na área de transmissão e distribuição, a chinesa State Grid já é uma das maiores empresas estrangeiras no País. Esta companhia, com a aquisição da CPFL, também comanda as concessionárias gaúchas RGE e RGE Sul (antiga AES Sul).
"Fala-se que chineses estariam comprando a hidrelétrica de Santo Antônio (no Rio Madeira - RO)", adianta o diretor do CBIE. A chinesa Spic (State Power Investment Corporation) é uma das interessadas no ativo. O valor total de 100% da usina, que tem capacidade instalada de 3.568 MW (quase que o equivalente à demanda gaúcha de energia elétrico), é estimado em cerca de R$ 9 bilhões, mas o desembolso deverá ser bem menor, entre R$ 6 bilhões e R$ 7 bilhões, segundo fontes. O restante estará vinculado ao cumprimentos de metas de desempenho ("earn-out") e deverá ser parcelado.
> Vídeo Da Redação: Por que os chineses vêm ao Brasil?

Asiáticos são interessados naturais no Grupo CEEE

State Grid, através da CPFL, é considerada uma das principais concorrentes caso estatal gaúcha seja vendida

State Grid, através da CPFL, é considerada uma das principais concorrentes caso estatal gaúcha seja vendida


FERNANDO C. VIEIRA/FERNANDO C. VIEIRA/DIVULGAÇÃO/JC
Depois de conquistar cerca de dois terços da distribuição de energia no Rio Grande do Sul, ao assumir o comando da RGE e da RGE Sul, a State Grid, através da CPFL, é tida como uma das principais concorrentes em caso de um processo de venda do Grupo CEEE. O governo gaúcho já adiantou que pretende submeter a plebiscito (como determina a legislação do Rio Grande do Sul) a possibilidade de alienação da estatal.
O secretário estadual de Minas e Energia, Artur Lemos Júnior, acredita que, até mesmo por declarações dadas anteriormente por diretores da CPFL, será algo natural a empresa ver a estatal "com outros olhos". O vice-presidente de Operações Reguladas da CPFL Energia, Luís Henrique Ferreira Pinto, afirmou, no final do ano passado, que seria uma obrigação observar qualquer movimentação de mercado do porte de uma venda de uma empresa como a CEEE. "A CPFL já adquiriu dois terços da concessão no Estado, e a CEEE-D (braço de distribuição do grupo) seria o terceiro terço, otimizando toda uma estrutura, havendo um ganho de escala", enfatiza o secretário. Porém o dirigente não descarta que se verifiquem outros interessados.
Sobre a aquisição do controle acionário da CPFL pela chinesa State Grid, Lemos argumenta que o mercado está propício para avanços na área de distribuição. "É um negócio que, para quem tem recursos para investir, não pode ser descartado", sustenta. O secretário comenta que o governo gaúcho, quando pretendeu retirar a exigência do plebiscito para desencadear uma eventual venda do Grupo CEEE, tinha a convicção de que o Estado não tinha condição de investir na área de concessão para melhorar o serviço para a população. E, de acordo com Lemos, era um excelente momento para propor uma negociação. "Infelizmente, não conseguimos adiantar a questão, podemos discutir isso somente no ano que vem, e o ambiente muda", adverte. No entanto o secretário adianta que o interesse pela CEEE não deixará de existir, porém não é possível precisar se o mercado continuará em alta.
O coordenador do grupo temático de energia da Fiergs, Edilson Deitos, também prevê que, confirmada a possibilidade de privatização do Grupo CEEE, a CPFL será uma das companhias que entrarão fortemente na disputa pela estatal. O empresário recorda que a State Grid possui expertise na área energética e uma grande capacidade de gestão.
O integrante da Fiergs comenta que o plano de investimentos do grupo chinês a respeito da RGE e da RGE Sul é bem arrojado, buscando eficiência de atendimento.

Obras da Shangai Eletric irão destravar investimentos

Secretário Artur Lemos afirma que cronograma precisa ser atualizado

Secretário Artur Lemos afirma que cronograma precisa ser atualizado


/PEDRO BARBOSA/DIVULGAÇÃO/JC
Ao assumir as obras do lote A do leilão de transmissão de energia nº 004/2014 que tinham sido arrematadas pela Eletrosul, a chinesa Shanghai Eletric irá destravar uma série de empreendimentos no Rio Grande do Sul. Sem as linhas e subestações de energia que serão construídas, vários projetos de parques eólicos não poderiam sair do papel, pois não teriam como escoar a energia a ser produzida.
Em junho, Eletrosul e Shanghai Eletric assinaram um acordo preliminar para a transferência total do conjunto de projetos orçado em R$ 3,27 bilhões. Os empreendimentos consistem na implantação, dentro do Estado, de 1,9 mil quilômetros de linhas de transmissão, sete novas subestações e a ampliação de 16 subestações existentes. Apesar de ter vencido o leilão para fazer essas obras, a estatal brasileira não teve fôlego financeiro para começar a erguer as estruturas.
Conforme o coordenador do grupo temático de energia da Fiergs, Edilson Deitos, a falta desses empreendimentos é um gargalo para o desenvolvimento do Rio Grande do Sul. O dirigente adverte que não houve maiores problemas de fornecimento de energia elétrica na região, pois o consumo dos gaúchos caiu. O secretário estadual de Minas e Energia, Artur Lemos Júnior, enfatiza que é necessário atualizar o cronograma das obras. Pelo contrato inicial firmado pela Eletrosul, as estruturas deveriam ser concluídas até 6 de março de 2018. O secretário adianta que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) deverá ser compreensível quanto a uma readequação do prazo, já que é praticamente impossível recuperar o atraso da iniciativa.
 

Oportunidades surgem com demanda por capitalização

A combinação de oferta e demanda no setor elétrico é uma das explicações pelo mercado aquecido. O presidente da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel), Reginaldo Medeiros, vê o interesse dos chineses ser despertado por ativos brasileiros que estão baratos e apresentam grande potencialidade. O dirigente atribui o custo mais em conta desses empreendimentos à necessidade de se capitalizar que muitas companhias brasileiras estão tendo neste momento.
"Eles enxergam ativos rentáveis e um mercado promissor, com um consumo e renda que devem voltar a crescer, assim como a demanda de energia", pondera. Medeiros ressalta que, com o desenvolvimento, a população busca mais conforto para suas residências, e a indústria aumenta a produção, elevando o uso da eletricidade. O dirigente não considera um problema o fato de os investimentos feitos na área de energia serem provenientes do exterior.
Ele acrescenta que a legislação brasileira e as normas da Aneel são maduras e estipulam condições de padronização dos equipamentos utilizados em empreendimentos como usinas, subestações ou linhas de transmissão. Além disso, Medeiros recorda que os chineses têm experiência que abrange desde usinas com combustíveis fósseis e renováveis às smart grids (redes elétricas inteligentes).
Outra prova de que os olhos chineses estão voltados para o País foi o recém-lançado Fundo de Cooperação Brasil-China. A iniciativa, conduzida pela Secretaria de Assuntos Internacionais do Ministério do Planejamento e pelo Fundo de Cooperação Chinês para Investimento na América Latina (Claifund), viabilizará o financiamento de até US$ 20 bilhões em projetos de investimento exclusivamente no Brasil, que sejam considerados de interesse comum dos dois países. Os setores estabelecidos como prioritários para receber financiamento do fundo são principalmente os ligados à infraestrutura, como os de logística e energia.
O Rio Grande do Sul também vê na Ásia uma fonte de possíveis investidores. No mês de junho, o secretário de Minas e Energia, Artur Lemos Júnior, participou da missão oficial do governo gaúcho ao Japão. Na ocasião, o dirigente aproveitou para fazer um pequeno desvio e também visitar a China para se encontrar com empreendedores na área de energia, em particular no segmento do carvão. Lemos ressalta que a meta era demonstrar o potencial do Rio Grande do Sul no setor carbonífero, não somente quanto à geração de energia elétrica, mas também na área carboquímica. "Por que a China? Porque a China é o país que desponta nos trabalhos de carboquímica, pois não tem petróleo, não tem gás, não tem uma série de insumos que ela investiu em tecnologia para tirar a partir do carvão", ressalta.
Lemos reuniu-se também com multinacionais que não têm origem chinesa, mas operam no país, devido ao grande potencial desse mercado. Entre as empresas e instituições visitadas estavam Shell e a norte-americana Synthesis Energy Systems (SES).
 
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