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Porto Alegre, segunda-feira, 01 de maio de 2017. Atualizado às 22h44.

Jornal do Comércio

Economia

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Notícia da edição impressa de 02/05/2017. Alterada em 01/05 às 21h41min

'Não se deve desperdiçar uma boa crise', diz João Gomes Cravinho

Cravinho visitou o Estado e destacou o potencial econômico gaúcho

Cravinho visitou o Estado e destacou o potencial econômico gaúcho


CLAITON DORNELLES /CLAITON DORNELLES/JC
Thiago Copetti
Embaixador da União Europeia (UE) no Brasil, João Gomes Cravinho é um entusiasta do Mercosul como poucos brasileiros ainda o são. Ele acredita que o bloco econômico, desacreditado por aqui, pode ser resgatado a partir de um acordo que pretende fechar com a União Europeia. Cravinho indica que o acordo comercial que deve ser finalizado em breve é uma boa chance de fazer o Mercosul ganhar força internamente.
"Esse acordo vai transformar a forma como olhamos para cá. O Rio Grande do Sul deixa de ser simplesmente o Estado que está mais ao Sul do Brasil e passa a ser o Estado que está no centro do Mercosul, o que cria novas oportunidades econômicas e a intensificação das relações nos dois sentidos. Quisemos vir ao Rio Grande do Sul neste momento um pouco para fazer esse mapeamento, de quais possibilidades e os interesses envolvidos em matéria do acordo comercial", avalia o diplomata.
Hoje, as trocas comerciais entre Mercosul e União Europeia estão na ordem de US$ 70 bilhões de comércio em bens e outros US$ 30 bilhões em serviços ao ano. "São US$ 100 bilhões, o que é muito dinheiro e será ampliado, mas eu diria que talvez exista mais margem para ampliar nos setores de serviços", avalia Cravinho, que falou ao Jornal do Comércio na semana passada, na primeira visita ao Estado desde que assumiu como embaixador da UE no Brasil, há menos de dois anos.
Na sexta-feira, antes de deixar Porto Alegre, Cravinho falou sobre temas como eleições na França, Brexit (saída do Reino Unido da UE) e negócios entre os dois blocos. "Nossas visitas para fechar um acordo entre União Europeia e Mercosul seguem. Esta viagem ao Rio Grande do Sul ocorre num contexto particular, o Estado não carece de justificação. É importante no contexto brasileiro, são 11 milhões de habitantes, mais que a maioria dos países europeus. É um estado muito desenvolvido e industrializado, com agroindústria muito forte, e agora estamos num enquadramento temporal muito particular: próximos de um acordo União Europeia e Mercosul", comemora.
Otimista, o diplomata acredita que a crise da Lava Jato pode mudar para melhor as relações entre empresas e políticos. "Não se deve desperdiçar uma boa crise", alertou.
Jornal do Comércio - Por que o interesse da União Europeia em fechar um acordo com o Mercosul, um bloco econômico bastante desacreditado internamente?
João Gomes Cravinho - Existem dois componentes: o Mercosul enquanto bloco de integração econômica, que de fato não tem funcionado. E o Mercosul enquanto bloco que faz relações e acordos com o exterior, que até agora também não tem funcionado. Os acordos internacionais do Mercosul são absolutamente pequenos e poucos significativos. Estamos próximos de um acordo para negociar, e com intensidade, porque houve mudança significativa na região. Argentina e Brasil estão alinhados. Por muito tempo, estiveram desalinhados, por uma razão ou outra. Mas há fortíssimas pressões protecionistas na Argentina e no Brasil, porém, em ambos os casos, há um consenso que é necessário abrir mais o país e o bloco. Há mudança também de cenário externo. Temos consciência dos Estados Unidos e sua atitude protecionista, e do lado europeu há interesse em mostrar que a globalização pode funcionar a favor da população. O acordo que estamos trabalhando com o Mercosul é um acordo para trazer benefícios para os dois lados e evitar algumas complexidades que criaram problemas no nosso relacionamento com outras partes do mundo. Portanto há uma convergência política e também de consciência da parte do empresariado quanto à utilidade disto. Acreditamos que um acordo entre a União Europeia e o Mercosul servirá como estímulo para aprofundamento da integração econômica do próprio bloco. Ou seja, será só útil para o relacionamento transatlântico e para fazer com que o bloco comece a funcionar melhor. Nesta visita conversamos com empresários, que contaram estar importando uvas do Chile, que não é membro do Mercosul, mas não conseguem importar uvas da Argentina, que está aqui ao lado e que faz parte do Mercosul. Há barreiras e muitos entraves. Acredito que um acordo ajudará a justificar a existência do bloco, mas para isso é preciso alterar a sua forma de funcionar.
JC - Em que mercados um acordo deve incluir o Mercosul na União Europeia?
Cravinho - Deve se olhar para União Europeia como um só bloco, e não como conjunto de países. Um produto que chega em qualquer porto europeu pode ser vendido em qualquer outra parte da Europa, sem tarifas suplementares. Já somos um parceiro importante de Brasil e Mercosul. E o interessante é que temos um comércio muito equilibrado em termos de valores. Às vezes, em favor do Mercosul; outras vezes, no sentido contrário. Também há equilíbrio em termos qualitativos em produtos de natureza agrícola, e manufaturados industriais indo nos dois sentidos.
JC - E o que pode melhorar?
Cravinho - Tudo pode melhorar, como ocorreu com o México. Assinamos um acordo que multiplicou o comércio com o país em muitas vezes. Estamos agora trabalhando num acordo de atualização com o Chile, onde ocorreu a mesma coisa. Com o Mercosul, nossa expectativa é de um aumento muito significativo do comércio, com melhor fluxo de investimento e transferência de tecnologia. Queremos que este acordo abranja também o setor de serviços e compras públicas.
JC - Compras feitas pelo governo federal de empresas de fora do Brasil?
Cravinho - Sim, compras feitas pelo governo, como de estradas. Os acordos comerciais contemporâneos têm essa modalidade, que ajuda a tornar mais barata a infraestrutura pública. Todos os estados estão procurando reduzir um pouco os seus custos sem perda de qualidade. A melhor forma de fazer isso é comprar de produtores mais eficazes e também abrir a competição. E vamos incluir um capítulo sobre transparência, importante se observarmos tudo o que se tem passado no Brasil.
JC - E o mercado da carne brasileira, recentemente abalado pela Operação Carne Fraca, a situação está resolvida?
Cravinho - Não está resolvido, é um ponto muito importante, convém sublinhar. O problema levantou algumas perguntas que ainda não tiveram resposta. De 2 a 12 maio, uma missão de inspeção da União Europeia visitará alguns frigoríficos, de várias partes do País, verificando se há algum problema pontual ou sistêmico. Essa missão terá um impacto decisivo neste caso. Por enquanto, nossa postura é de cautela e prudência, sem qualquer tipo de alarmismo. Nossa esperança é que se venha a concluir que não há problema. Só com a visita dos inspetores é que poderemos ter essa certeza. É uma missão bastante grande, que vai poder visitar oito, nove, dez frigoríficos. Vamos a alguns frigoríficos e ver se justifica-se mais visitas e a necessidade de mais embargos ou não. É uma possibilidade, e é preciso recordar que essa possibilidade existe, mas esperamos que não se venha materializar.
JC - E o que muda na importância da União Europeia como mercado a partir do Brexit?
Cravinho - O Brexit é um processo que só começou agora. Essas negociações terão uma duração de dois anos, portanto até meados 2019. É difícil a sua pergunta. O que muda? Não sabemos responder isso neste momento, porque não sabemos qual a natureza do relacionamento que a UE terá com o Reino Unido quando ele sair. Isso vai ser decidido no contexto das negociações. Pode ser uma relação do mesmo tipo que temos com a Noruega ou com a Suíça, que são países que praticamente estão dentro da área econômica europeia, só não se sentam às mesas de negociações quando é preciso decidir alguma coisa. Ou pode ser relacionamento mais distante, como o que temos com outros países e abaixo das normas da Organização Mundial do Comércio (OMC). Pode ser ainda uma coisa intermediária, como uma transição. A forma como o acordo entre UE e Mercosul será afetada vai depender da relação que teremos com o Reino Unido. Neste momento é um assunto que não vale a pena especular, porque estamos muito longe de chegar ao fim.
JC - E ainda há o risco da saída da França. O que a União Europeia espera da eleição francesa?
Cravinho - A expectativa é que haja, neste segundo turno, uma grande derrota da candidatura antieuropeia. Houve uma grande derrota dessa candidatura no primeiro turno, já que ela teve 21% de apoio. Ou seja, 79% do eleitorado francês não quer esta proposta. Nossa expectativa é que se tenha dois terços dos franceses rejeitando essa proposta antieuropeia. O que vemos é um candidato, que ficou em primeiro lugar, que faz aparições públicas com a bandeira da União Europeia ao fundo. Isso, para mim, é muito reconfortante.
JC - Como todos os casos de corrupção trazidos à tona pela Lava Jato estão afetando a imagem do Brasil no exterior?
Cravinho - Negativamente, obviamente, porque as notícias que aparecem não são agradáveis. E positivamente, porque há um processo de combate a isso. Às vezes, eu falo que empresários ou políticos brasileiros podem estar um pouco deprimidos por causa da situação toda da Lava Jato. Mas eu pergunto se não é a melhor situação que estamos vivendo do que a situação de cinco anos atrás, quando todos estavam muito contentes e satisfeitos e, na realidade, por trás, estava acontecendo todo esse tipo de coisa que agora estamos descobrindo. Creio que a situação de hoje é melhor. Este é um processo doloroso, mas é um processo de saneamento, que representa uma oportunidade extraordinária para o Brasil de colocar o relacionamento entre o político e o econômico numa maneira totalmente diferente. Minha expectativa é que esta crise seja bem aproveitada. Não se deve se desperdiçar uma boa crise.
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