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Porto Alegre, domingo, 04 de junho de 2017. Atualizado às 21h26.

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Responsabilidade Social

Notícia da edição impressa de 05/06/2017. Alterada em 02/06 às 19h26min

Ensinando a conviver com a diversidade

KARENDESUYO VIA VISUAL HUNT/DIVULGAÇÃO/JC
Camila Silva
A cada 25 horas, uma pessoa LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) é assassinada no Brasil, vítima do que se pode chamar de "LGBTfobia". Ao todo, 343 LGBTs foram assassinados no ano de 2016. Os dados são resultado de uma pesquisa do Grupo Gay da Bahia (GGB), que, há 37 anos, coleta e divulga informações sobre homicídios contra esse determinado grupo. Segundo o estudo, o Brasil é campeão de assassinatos contra minorias sexuais. As mortes cresceram rapidamente nos últimos anos. Para se ter uma ideia desse aumento, em 2000, foram registrados 130 homicídios, número que passou para 260 em 2010 e saltou para 343 em 2016.
Acreditando que é necessário trabalhar a questão da sexualidade e o respeito à diversidade, o Grupo Somos - Comunicação, Saúde e sexualidade atua em Porto Alegre desde 2001. O objetivo dos integrantes é ajudar a formar uma sociedade mais consciente quanto à saúde sexual e à gravidade dos crimes contra o público LGBT. O Somos, que nasceu a partir do Grupo de Apoio à Prevenção da Aids no Rio Grande do Sul (Gapa), realiza ações transdisciplinares em escolas públicas e centros comunitários. As iniciativas têm como base os diretos humanos, com foco em direitos sexuais e direitos reprodutivos. Atualmente, o grupo está se reestruturando para, no segundo semestre deste ano, voltar às atividades abertas ao público.
A reformulação do Somos teve início dois anos atrás, quando o grupo perdeu o seu principal incentivador financeiro, que viabilizou a execução do projeto "Qual é a sua?", que conscientiza os jovens sobre a Aids nas escolas públicas. Após perder o incentivo, os integrantes do grupo se viram obrigados a entregar a sede, localizada na rua Jacinto Gomes, em Porto Alegre. No local, eram realizados atendimentos jurídicos e psicológicos e também oferecidas reuniões de apoio a portadores de HIV. A partir de então, a organização passou a se reestruturar, trabalhando de uma forma mais econômica. Atualmente, o grupo é formado por um conselho administrativo composto por quatro pessoas e por um conselho de voluntários composto com 15 integrantes. 
"O Somos acredita que temas como crimes contra LGBTs, doenças sexualmente transmissíveis, aborto e direito sexual reprodutivo devem ser discutidos na sala de aula", afirma o coordenador-geral do grupo, Gabriel Galli. Para ele, a principal barreira para discutir a sexualidade nas escolas está diretamente ligada aos gestores da área de educação. No geral, os jovens que recebem as oficinas demonstram interesse no assunto. "Talvez o maior desafio seja mudar a mentalidade das pessoas que trabalham com educação", enfatiza.
Galli considera que outro fator que dificulta o ensino sobre sexualidade nas escolas é a falta de materiais de apoio para os professores, que se veem, por vezes, perdidos em relação ao assunto. Por isso, o grupo desenvolveu o livro Tá difícil falar sobre sexualidade nas escolas. Com dois volumes, a obra aborda, por meio de uma linguagem simples, planos de estudos para serem aplicados em sala de aula. Considerado o principal projeto da reestruturação, além de criar materiais de apoio aos professores, poderá contar com jogos educativos, como, por exemplo, tabuleiro e cartas. A ideia, que vem sendo estudada pelo grupo, precisa de um financiamento coletivo na internet para viabilizar os custos do projeto.
As ações realizadas pelo projeto contemplam o público em geral e também, é claro, a comunidade LGBT, mas não de uma maneira estereotipada. Uma das preocupações do Somos é trabalhar com a redução de danos. "Isso significa conscientizar todas as pessoas sobre as práticas sexuais", diz Galli. Ou seja, falar sobre a redução de danos é explicar, efetivamente, os perigos que cada doença sexualmente transmissível representa, os problemas que causa e permitir que os jovens avaliem os riscos que assumem quando optam por não se prevenir.
Segundo o coordenador, atualmente, a sociedade brasileira enfrenta um movimento de conservadorismo, influenciado diretamente pela representatividade de determinadas religiões na política. Para ele, isso gera uma visão equivocada sobre gênero. O Somos defende que é necessário entender que as questões sobre sexualidade, respeito às diferenças de gênero e violência contra LGBTs, por exemplo, devem ser consideradas não apenas uma pauta de determinados setores da sociedade. O grupo defende que esses fatores influenciam diretamente toda a sociedade e que é preciso enfrentar as barreiras de forma a ampliar o debate sobre sexualidade nas escolas, e também a construção de políticas públicas para LGBTs.
À frente da coordenação-geral do Somos desde o início da reestruturação, Galli acredita que é preciso encarar o feminicídio, o aborto e a violência contra as pessoas transsexuais como problema de saúde pública, pois são questões que permeiam diretamente a forma como cada um se enxerga diante da sociedade. No entanto, para isso acontecer, é necessária a criação de políticas governamentais que contemplem essas questões, com profissionais qualificados e mais recursos voltados à área de direitos humanos. "Não temos programas públicos de atendimento ao público LGBT, por exemplo", lamenta Galli.
Mesmo com as adversidades e os diversos problemas, os integrantes do Somos seguem motivados a seguir lutando pela causa. "A situação está muito difícil, com muito trabalho para ser feito", afirma o coordenador. Neste período de reestruturação, o grupo está aberto a pessoas que desejam se integrar às atividades ou queiram doar valores para o desenvolvimento de projetos. Os interessados em se engajar ou contribuir podem obter mais informações no site www.somos.org.br.
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