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Porto Alegre, segunda-feira, 03 de abril de 2017. Atualizado às 14h55.

Jornal do Comércio

Empresas & Negócios

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tecnologia

Notícia da edição impressa de 03/04/2017. Alterada em 03/04 às 15h01min

Gigantes colam nas startups

A Wayra investe em novas empresas digitais em troca de participação acionária que varia entre 7% e 10%

A Wayra investe em novas empresas digitais em troca de participação acionária que varia entre 7% e 10%


DIVULGAÇÃO/JC
Patricia Knebel
A imagem de um dinossauro tentando se mover rapidamente ilustra bem o cenário vivido pelas grandes empresas quando elas se dão conta de que precisam correr para não perder o ritmo atual da inovação. Operações robustas, com centenas de colaboradores, filiais espalhadas pelo Brasil e uma mentalidade corporativa solidificada ao longo de décadas, que não pode ser mudada rapidamente, de repente se deparam com um cenário em mutação.
De um lado, estão os consumidores com novos desejos e necessidades; de outro, as startups com suas operações joviais, leves, disruptivas e mais aderentes a esse novo perfil exigido pelo mercado. A resposta do momento para vencer esse desafio e conseguir dar as respostas necessárias tem sido a de unir forças. Entre mudar toda a sua estrutura e cultura de inovação impregnada durante décadas e se aproximar de jovens empresas para ganhar um gás, muitas gigantes têm apostado nessa segunda estratégia.
É o caso de Natura, Gerdau, Samsung, Telefónica e de uma infinidade de outras corporações que resolveram se conectar a empreendedores à frente de projetos embrionários para, assim, conseguirem pensar, criar e lançar produtos e serviços com maior rapidez. "É um caminho muito interessante esse de aliar a força econômica, a capilaridade e o conhecimento de mercado de uma grande empresa com a inovação e esse novo jeito de fazer negócios das startups. Isso gera muito valor para todos", observa o country manager do Telefônica Open Future, Renato Valente.
O executivo, de fato, pode falar com experiência de causa. O programa global de inovação aberta da operadora é apontado como um dos mais consistentes do mercado e abriga diversas iniciativas que unem esses dois mundos. Um dos projetos é o da Wayra, aceleradora corporativa que faz investimentos em novas empresas digitais em troca de participação acionária que varia entre 7% e 10%. Só no Brasil, foram 58 startups apoiadas no acumulado do período, totalizando R$ 9,2 milhões de investimentos. Estas operações já captaram R$ 64,4 milhões junto a investidores externos.
"Fazemos investimentos minoritários que gerem retorno para o grupo, tanto em novos negócios criados a partir destes produtos desenvolvidos, como em receitas a partir da venda da operação no futuro", explica. A companhia tem contrato assinado com diversas startups brasileiras aceleradas, que já desenvolveram serviços que estão sendo usados pelos clientes da Vivo, como o 156 Digital, que conecta prefeituras com os cidadãos.
Nessa relação entre gigantes e pequenas, é possível começar com iniciativas mais simples, que não envolvem necessariamente a compra da participação acionária das iniciantes, caso da incubação, da aceleração ou da compra de serviços das jovens operações para complementar o portfólio.
O sócio-fundador da Innosciense, Maximiliano Carlomagno, recomenda que, ao fazer esse movimento, o primeiro passo dos gestores seja avaliar muito bem o objetivo e o modelo de conexão que será feito. A pior forma de fazer essa aproximação, diz, é não ter clareza do que se pretende atingir. "Se a ideia é investir capital, a conexão com uma operação nascente pode ser a mais indicada; já se o foco é desenvolver um produto em parceria, o caminho talvez seja buscar uma startup mais madura", sugere.
O presidente da WOW Aceleradora, Andre Ghignatti corrobora com a perspectiva de que os empresários mais experientes tenham um plano de ação, e que estejam atentos para algumas questões cruciais. Uma delas é que, ao tentar incorporar o espírito jovial dentro da operação tradicional, não caiam no erro de transferir a cultura antiga para a jovem empresa. "A graça da startup é a grande assimetria que existe entre risco (que é baixo), e o benefício (que pode ser muito alto). Não dá para querer reduzir riscos senão você mata a essência da ideia", orienta.

Equilíbrio evita cenário de 'mocinhos e vilões'

Ghignatti destaca a importância do aumento da base de conhecimento
Ghignattii destaca o aumento da base de conhecimento das empresas nascentes
ARQUIVO/JC
A grande empresa quer ter a agilidade da startup e a startup deseja o poderio da grande. Basicamente, esse é o cenário hoje em dia. Portanto, apesar de muitos jovens empreendedores acharem que são o "lado bom da força", e que estão em uma disputa contra o "lado negro", que seriam as grandes corporações, essa é uma visão equivocada, alerta o sócio-fundador da Innosciense, Maximiliano Carlomagno.
"As startups chegam com tecnologias e uma força inovativa que é um diferencial. Por outro lado, as operações tradicionais têm mercado e clientes, algo muito difícil de se conquistar", argumenta.
Acesso à transferência de tecnologia, conhecimento e gestão para, assim, estruturar os novos negócios, é uma parte das respostas que as jovens operações têm ao se conectar com as gigantes. "A base de conhecimento que uma startup passa a ter é imensa, o que pode incluir experiência para conhecer melhor o mercado, ter um canal de vendas estruturado ao seu dispor e até receber investimento", avalia o presidente da WOW Aceleradora, Andre Ghignatti.
Porém, o executivo admite que tudo precisa ser muito bem pesado, tanto para um lado quanto para o outro. Algumas vezes, as corporações tradicionais acabam comprando as startups para limitar o mercado delas, pois se sentem ameaçadas. Em outras, fazem isso apenas para ter acesso a mão de obra barata e qualificada.
Também é comum que o player mais experiente faça exigências de exclusividade. "Muitas vezes, a grande empresa quer algo inovador, mas não aceita que o concorrente usufrua, então, cria barreiras para a venda das soluções para outros", explica.
É justamente por situações como essas que o vice-presidente de Operações da Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro (Softex), Diônes Lima, diz que as startups precisam de um ecossistema maduro que envolva as aceleradoras, os investidores e as associações que tenham maturidade para ajudá-las a não cair em armadilhas.
"As grandes indústrias têm o domínio do mercado e costumam ser mais manipuladoras, pois querem manter o controle de tudo. São duas culturas totalmente distintas que precisam se afinar", observa. A Softex é a responsável pela gestão operacional do Start-Up Brasil, programa do governo federal.

No encalço das fintechs, bancos aceleram parcerias

Os millenials, nova geração de consumidores sedentos por se relacionar com os serviços financeiros, de telecom e industriais de forma mais simples e ágil, está batendo na porta do mercado. Na mesma proporção, uma mudança tecnológica contundente está em curso, com o surgimento de tendências como Big Data, mobilidade, blockchain e soluções de inteligência cognitiva.
Como se o desafio ainda fosse pequeno para os bancos tradicionais, junte a isso uma enxurrada de novas empresas que prestam serviços na mesma área dos concorrentes mais antigos, mas que começam a se comunicar com esse público do zero, sem um legado de infraestrutura, de governança e de marca para administrar.
"Essa conjunção de fatores está fazendo com que as corporações tradicionais acelerem o seu processo de inovação", admite o gerente do departamento de Inovação do Bradesco, Fernando Freitas.
Ao perceber esse cenário, uma das decisões tomadas pelo banco foi a criação, em 2014, do inovaBra, programa de inovação aberta. O projeto está na sua terceira edição. Cerca de 1,6 mil startups já passaram pela iniciativa. Dessas, 20 foram integradas aos sistemas do banco. O gestor comenta a escalabilidade que isso pode trazer para as operações nascentes, especialmente no que se refere a elas passarem a ter acesso aos clientes do banco.
"Adquirir cliente não é algo trivial. Hoje temos mais de 18 milhões de usuários do nosso Internet Banking e, ao colocar as suas soluções desses jovens empreendedores para dentro da nossa plataforma, eles passam a ter acesso a esse fluxo imenso de possibilidades", revela.
Das operações nascentes com as quais a instituição se relaciona, seis já firmaram contrato e dez estão em análise. Uma delas é a Qranio, de Minas Gerais, especializada em gamificação, que desenvolveu um plataforma para treinamento que está sendo usada por mais de 100 mil funcionários do banco. Outro exemplo é a Rede Frete Fácil, de Santa Catarina. Nesse caso, o banco introduziu a solução na sua área de meios de pagamentos e está distribuindo para diversos clientes jurídicos. A plataforma digital facilita a contratação de caminhoneiros para fazer a entrega das cargas de uma localidade para outra.
"Tocamos essas empresas na fronteira de tecnologia e negócios, selecionamos as que fazem mais sentido para o nosso negócio e fazemos a integração para distribuir nos nossos canais", explica Freitas.
Com o inovaBra, o banco não adquire parte da operação e, sim, destina entre R$ 100 mil a R$ 150 mil para que as startups façam a integração com os sistemas do banco. Depois disso, é feito um piloto controlado com clientes reais e, se aprovado, é feito o roll out para todos. Porém, recentemente, foi criado o Bradesco o inovaBra Ventures, um fundo de investimentos, no modelo de corporate venture, com R$ 100 milhões de capital proprietário. Com isso, abre-se a possibilidade daqui para frente de comprar participação minoritária nas operações.

Medo de ser substituído reforça aproximação

Projeto de aceleração da Braskem aposta em soluções que utilizem química ou plástico
Projeto de aceleração da Braskem paosta em soluções que utilizem química ou plástico
DIVULGAÇÃO/JC
O medo que as operações tradicionais têm de serem substituídas é um dos motivos que explica o fato de a conexão com as startups ter sido a demanda principal das áreas de inovação das companhias nos últimos 12 meses. "Nos aproximamos para entender o tamanho do risco que estávamos correndo e ver se era possível construir parcerias estratégicas. E comprovamos que sim", afirma o gerente do departamento de Inovação do Bradesco, Fernando Freitas. Segundo ele, o caminho para os players tradicionais se transformarem e das startups se consolidarem passa, inevitavelmente, pela construção de relações conjuntas.
A outra explicação para as grandes estarem tão atentas a essas oportunidades é que elas estão vislumbrando agora o amadurecimento desse ecossistema de inovação. Dessa forma, fica mais fácil ver uma real possibilidade de terem ganhos na sua operação. "Essa conexão é uma tendência fortíssima. Muitas companhias estão enfrentando dificuldades para avançar e precisam se apropriar da energia, ousadia e do conhecimento inovador das startups", observa o presidente da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), Jorge Audy.
O diretor de inovação da Natura, Alessandro Mendes, diz que a empresa acompanha desde 2014 os avanços do ecossistema empreendedor no Brasil e no mundo. "Estamos inseridos em novas redes relacionadas a esse movimento e ampliamos o nosso modelo de inovação aberta para abranger uma perspectiva mais empreendedora, dedicando recursos para conectar as startups com desafios internos e nos preparar para esta interação", explica.
A Natura interage atualmente com 136 jovens empresas, sendo que 22 delas já participam de projetos ou pilotos em parceria com jovens empreendedores. Um exemplo é a Allevo e a Goga, de Porto Alegre, que somaram competências e inteligência em rede para desenvolver tecnologias para a transmissão de conteúdos sobre produtos da marca, e que foram traduzidas em uma linguagem mais amigável às consultoras.
A porta de entrada para esses novos projetos é o portal www.natura.com.br/startups, que tem um passo a passo para os empreendedores enviarem as suas propostas. Entre as ideias que estão sendo buscadas atualmente, estão tecnologias que promovam interatividade e ampliem a experiência dos consumidores com os produtos e serviços da Natura, inovação relacionada a ingredientes cosméticos ou ativos da biodiversidade brasileira e novos produtos e serviços com a utilização de Impressoras 3D.
O gestor comenta que essa relação também acaba sendo muito benéfica para os jovens empreendedores. "A geração de negócios de sucesso entre a Natura e a startup proporciona acesso ao mercado com a validação de uma empresa de grande porte. Uma experiência como essa pode acelerar novas oportunidades de negócios, facilitar o acesso a redes de parceiros e maior visibilidade para fundos de investimento destes players", analisa.

Cinco pontos que podem levar à parceria de um player tradicional com uma startup

1 Resolver problemas de negócios já existentes: Se a empresa tem um problema de logística, por exemplo, pode se aproximar de uma startup que já esteja desenvolvendo algo inovador e contratar esse serviço. Com isso, consegue reduzir custos e melhorar o seu processo atual.
2 Criar novos negócios: Acontece quando a startup está desenvolvendo algum produto que interesse para a empresa tradicional, seja para o momento atual ou dentro de uma visão de futuro, em função da previsão de decadência do seu negócio.
3 Investimento financeiro: Quando a companhia tradicional apenas separa parte do seu capital para fazer um investimento de risco.
4 Oxigenação organizacional: Aqui a ideia é levar novas práticas e uma cultura renovada para a operação tradicional. Nesses casos, é fundamental dar uma guarida eficaz para as jovens operações, para que não sejam colocadas dentro da operação tradicional e passem a ter que passar a vivenciar todos os procedimentos padrões e antigos.
5 Branding: Renovar marca e ser mais cool do que era na semana passada deveria ser apenas o efeito colateral dessa aproximação, mas ainda é o mote principal de algumas empresas.
Fonte: Innoscience

Desafio para alcançar o sucesso é manter o olhar de principiante

Espaço Gotobiz busca tornar a operação mais veloz e competitiva, diz Leite
Espaço Gotobiz busca tornar a operação mais veloz e competitiva, diz Leite
JC
As startups costumam ter mais facilidade para inovar porque geralmente estão 100% focadas no desenvolvimento de um único produto ou serviço. Já a grande corporação precisa fazer todo o resto que uma operação gigante exige, e ainda criar o novo. "As empresas tradicionais vivem nessa constante busca de cuidar do seu dia a dia e explorar novas oportunidades. Por isso, é importante manter sempre o olhar de principiante", sugere o analista e diretor de Pesquisas do Gartner, Henrique Cecci.
O caminho é ser uma organização ambidestra, ou seja, tocar bem o seu negócio e saber criar um espaço fértil para inovar. "É fundamental ter uma cultura dentro da organização que viabilize essas relações com as startups não como um modismo, mas como um processo permanente de busca de atualização", defende presidente do Grupo Processor, Cesar Leite.
A companhia gaúcha está atenta a esse movimento. Possui um núcleo próprio de inovação, investe em fundos de startups, tem operações incubadas e costuma contratar os serviços de jovens operações para contribuir na cadeia de prestação de serviço. "Queremos gerar um conjunto de iniciativas que ajudem a tornar a nossa operação mais veloz e competitiva", relata Leite.
Um exemplo é a Gotobiz, especializada em presença digital e inteligência de relacionamento que, há 2,5 anos foi incubada pela Processor, depois recebeu investimentos e agora está sendo incorporada na operação principal. A iniciativa começou com seis pessoas e hoje são 30. Os aportes totais foram de R$ 2 milhões. O retorno do investimento está previsto para acontecer esse ano.
O empresário explica que todas etapas necessárias para o amadurecimento dessa operação foram cumpridas. Primeiro, veio a fase de isolar a iniciativa do restante da operação para que ela adquirisse vida própria e tivesse tempo necessário para errar e acertar. Feito isso, começou a ser testada dentro de uma estrutura mais poderosa, no caso, da Processor. "Conectamos com os negócios, levamos para os clientes maiores para ver se parava em pé e, com isso, veio o sinal verde para a incorporação", conta o empresário. Se os cuidados necessários não forem tomados, a operação nascente tende a ser abafada pela maior.
Outra iniciativa é o app SpotFinder, que conecta pessoas a locais e serviços. Os irmãos Gabriel Luis e Evandro de Oliveira, que criaram a ferramenta, procuraram a Processor, foram incubados e receberem
R$ 400 mil. O produto e a estrutura estão prontos e a próxima etapa será fazer o trabalho comercial. O empresário alerta para o fato de que a aproximação com as startups deve ser apenas parte dessa caminhada. "A resposta principal é a criação de uma cultura interna de inovação. É a criação de uma mentalidade nova que ajude a operação a ser mais competitiva", defende.
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