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Porto Alegre, segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017. Atualizado às 11h49.

Jornal do Comércio

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Meio Ambiente

Notícia da edição impressa de 20/02/2017. Alterada em 20/02 às 11h49min

Dmae admite que despoluição do Guaíba levará muitos anos

Tornar local próprio envolve a conclusão das ligações residenciais de esgoto às estruturas do Pisa

Tornar local próprio envolve a conclusão das ligações residenciais de esgoto às estruturas do Pisa


Jonathan Heckler/JC
Igor Natusch
Depois de vários prazos descumpridos, a balneabilidade da praia de Ipanema, na zona Sul de Porto Alegre, parece cada vez mais distante de virar realidade. A última previsão, que dava o fim de 2016 como um horizonte possível, passou sem deixar perspectivas de um mergulho seguro para a população. Atualmente, o Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) evita fazer qualquer previsão, mas admite que vários anos serão necessários para que Ipanema esteja despoluída de forma segura.
A entrega da praia chegou a ser anunciada para 2013 pelo então prefeito José Fortunati, durante a campanha para sua reeleição. A inauguração da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Serraria, principal obra do Programa Integrado Socioambiental (Pisa) da Capital, aumentou o entusiasmo em torno da liberação, que não se concretizou.
Segundo a assessoria do Dmae, tornar Ipanema um local próprio para banho envolve a conclusão das ligações residenciais de esgoto às estruturas do Pisa, além da despoluição do leito do Guaíba, depois de décadas de acúmulo de resíduos. Outro problema, de controle mais difícil, envolve as chuvas de verão. A partir delas, a vazão dos arroios aumenta, o que supera a capacidade dos separadores que tentam desviar o esgoto da praia. A água da chuva também acaba "lavando" calçadas e outras estruturas, carregando mais poluição para a praia.
Lançado pelo Dmae no ano passado, o projeto Conexões tenta diminuir a entrada de esgoto residencial no Sistema de Esgotamento Sanitário da zona Sul, em especial nos arroios Capivari e Espírito Santo. As equipes visitam domicílios que ainda despejam dejetos na rede pluvial e, após autorização dos moradores, fazem as ligações de esgoto. A primeira etapa, com previsão de conclusão para maio, pretende atingir 8 mil residências, com investimento de R$ 13,4 milhões.
Medidas semelhantes também estão sendo adotadas em outras áreas da cidade, como forma de diminuir a poluição em todo o Guaíba. A decisão de pagar pelas obras - que, em princípio, deveriam ser bancadas pelos próprios moradores - foi tomada como uma tentativa de acelerar o processo. Segundo o departamento, cerca de 66% do esgoto da cidade chega ao Pisa, recebendo o tratamento adequado antes de ser despejado no Guaíba.
Nos últimos anos, apenas as praias de Belém Novo e do Lami, no Extremo Sul de Porto Alegre, têm estado liberadas para banhistas. A balneabilidade, porém, não está plenamente consolidada. A praia do Lami, por exemplo, começou fevereiro com parte das águas impróprias para banho, conforme a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, responsável pela medição.

Para professor da Ufrgs, sistema defasado de esgoto é um dos maiores problemas

De acordo com Antonio Benetti, professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), a despoluição de Ipanema e, em um segundo momento, de todo o Guaíba é "possível na teoria". Ele menciona regiões, como na cidade de Zurique, na Suíça, que tinham corpos hídricos muito contaminados e que, hoje, estão liberados para banho. Os principais problemas em Porto Alegre, diz ele, são a grande quantidade de prédios que não estão ligados à rede de esgoto e a própria defasagem do sistema, construído antes da disparada populacional na região.
"No bairro Petrópolis, por exemplo, só existiam casas até os anos 1940, e a rede de esgoto foi construída dentro dessa lógica. Hoje, onde tínhamos duas casas, temos prédios de 12 andares, com quatro apartamentos por andar. É possível que a rede não suporte mais a vazão de contribuição dessas construções", argumenta Benetti.
Um projeto capaz de despoluir todo o Guaíba seria "um trabalho gigantesco", na visão de Benetti. Além da necessidade de melhoras estruturais, em uma realidade onde boa parte da população ainda não desfruta de residência digna, a bacia em si é muito vulnerável à poluição vinda dos rios Caí, dos Sinos e Gravataí, que estão entre os mais poluídos do Brasil.
No caso de Ipanema, porém, ele acredita que a balneabilidade está um pouco mais próxima da realidade. "Vamos supor que metade das casas da zona Sul estejam ligadas à rede cloacal. Pode ser que, se essa porcentagem aumentar para 70%, já se possa alcançar a balneabilidade em Ipanema", afirma. Segundo ele, uma vez atingido o índice necessário, a balneabilidade se confirmaria rapidamente, já que o ambiente aquático é inóspito para coliformes fecais.
O que falta, argumenta Benetti, é uma visão mais ampla da rede de benefícios que a medida traria. "Se Ipanema fosse balneável, isso teria impacto positivo no lazer, no fornecimento de água, diminuiria a sobrecarga no sistema de saúde. Seria algo benéfico não só para os moradores daquela área, mas para o conjunto da população."

Presença de pessoas na orla da praia acaba diminuindo durante os meses de verão

As águas de Ipanema não estão liberadas para banho desde os anos 1970. Presidente da Associação de Moradores do bairro, Plinio Braga Neto diz que o sentimento é de "tristeza" diante da falta de perspectivas.
"Temos um rio maravilhoso na porta de casa, quase no nosso pátio, e não podemos usufruir", lamenta. O impacto da falta de banho seguro, segundo ele, impacta em todo o bairro. "Se fosse possível tomar banho na praia, o comércio seria muito mais forte, geraria renda e emprego. Com a movimentação de pessoas, o bairro ficaria mais seguro", enumera.
A associação garante ter sugerido à prefeitura uma força-tarefa, na qual moradores ajudariam fiscais municipais a levantar quais residências do bairro ainda não estão ligadas à rede de esgoto. A ideia, porém, ainda não avançou. Agora, segundo Braga, pretendem levar a proposta à nova administração, comandada por Nelson Marchezan Júnior. "Estamos à disposição para tentar ajudar", reforça.
Mesmo sem poder entrar na água, a população usa o calçadão e as áreas próximas como opção de lazer e para a prática de exercícios físicos. É comum que haja grande presença de pessoas na área, em especial nos fins de semana. Algumas, despreocupadas com a poluição, arriscam entrar na água, mesmo com os alertas da prefeitura.
A presença de pessoas, porém, tem sido menos intensa nos meses de verão. Jair Conceição da Silva, que há mais de 20 anos vende água e refrigerantes na orla, diz que o movimento anda "bem devagar" nos dias úteis, só melhorando no sábado e no domingo. O ambulante, que usa as vendas para complementar a renda obtida como servente de obras, diz que "de vez em quando" vê pessoas tomando banho em Ipanema, geralmente crianças. Ele mesmo, porém, nunca se arriscou. "Nem pensar, a água é suja e tem muito buraco", explica.
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