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Porto Alegre, domingo, 05 de fevereiro de 2017. Atualizado às 21h37.

Jornal do Comércio

Geral

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Saúde

Notícia da edição impressa de 06/02/2017. Alterada em 05/02 às 20h18min

Crianças sofrem com atrasos na entrega de leite especial

Deivison Ávila
A alergia à proteína do leite de vaca (APLV) atinge milhares de crianças em todo o mundo. Com a descoberta, a família passa a ter que dispensar cuidados extras à criança e arcar com os custos de uma alimentação especial. Porém, não são todas que possuem conhecimento e condições financeiras para isso.
A alergia alimentar é uma reação anormal do sistema de defesa do organismo às proteínas dos alimentos. A proteína é um tipo de nutriente presente em quase todos os alimentos e indispensável ao organismo, pois é responsável pela produção de enzimas, hormônios, tecidos, músculos e outras proteínas presentes no sangue (veja o quadro ao lado com explicações sobre a doença).
Desde a descoberta da alergia até o diagnóstico preciso, centenas de pais e mães sofrem na busca pela informação correta. Quando a família não tem condições financeiras para adquirir o leite adequado a cada tipo de necessidade, cabe à Secretaria Estadual de Saúde (SES) fornecer o produto.
É aí que surge o segundo problema. Nem todo pedido é atendido no prazo certo ou tem a marca requisitada à disposição. Crianças que nascem predispostas a algum tipo de proteína alergênica necessitam de um leite específico.
Quando é necessário solicitar ao Estado o fornecimento, existem duas vias para os pais ou responsáveis fazerem o pedido: de forma administrativa ou via judicial. Normalmente, a Justiça é acionada quando os recursos administrativos se esgotam, o que ocorre quando há atrasos ou a marca solicitada não é entregue. Esse pedido de fornecimento do produto via judicial gera um custo maior do que quando a compra é feita por licitação, onerando os cofres públicos.
A psicóloga Thais Becker, mãe de dois meninos que possuem a alergia, já sofreu com os dois problemas: o atraso e a marca errada. Ela explica que há muitas diferenças nas diversas marcas de leite existentes no mercado e que algumas, mesmo sendo livres da proteína, causam reação, e as consequências podem ser graves. No caso dos meninos, a marca comercial da fórmula tem que ser a solicitada no pedido. "Muitas vezes é preciso recorrer à Justiça para que a marca específica seja entregue. No meu caso, o leite utilizado é o Neocate, feito à base do óleo de coco e sem nenhuma fonte de origem animal. Muitas vezes, o problema é que o governo não disponibiliza aquela marca específica, liberando um produto que foi solicitado através da licitação", relata a mãe.
E o custo do leite não é nada barato. No caso de um dos filhos da Thais, ele consome 11 latas por mês, sendo que cada uma tem custo de cerca de R$ 200,00, chegando a R$ 2,2 mil ao mês. Algumas crianças chegam a consumir até 15 latas, por isso, não são todas as famílias que conseguem arcar com o gasto. Além disso, para uma família solicitar o produto via judicial é necessário arcar também com as despesas de um advogado. A Defensoria Pública do Estado fornece este serviço, mas, para isso, os pais devem comprovar renda igual ou inferior a três salários-mínimos.
Uma forma de driblar as vias formais e judiciais para suprir carência do produto é a solidariedade. A psicóloga faz parte de grupos de debate em redes sociais e pelo aplicativo WhatsApp, nos quais centenas de mães tiram dúvidas e se ajudam. Mães do Rio de Janeiro, de Santa Catarina e de outros estados reclamam dos mesmos problemas de atraso e de marca incompatível à alergia.
O governo do Rio Grande do Sul tenta resolver alguns casos específicos. Segundo informações fornecidas via assessoria de imprensa da SES, "o Estado adquire medicamentos/fórmulas 100% de aminoácidos livres para atender às demandas administrativas, e os processos licitatórios seguem o descritivo da fórmula, sem considerar a marca comercial. O Estado só atende por marca comercial quando se trata de ordem judicial".
De acordo com a SES, são fornecidos dois tipos de leite: fórmula láctea (hidrolisado proteico), que chega até 1.622 pacientes, de forma administrativa, e a outros 103, judicialmente; e fórmula láctea (100% aminoácidos livres), disponibilizada a 835 pacientes (administrativos) e outros 274 (judiciais).
A SES não informou o gasto que o governo tem com os pacientes via judicial. Entre as duas fórmulas, são fornecidas em torno de 27.026 latas, totalizando um gasto de R$ 2.642.172,80 ao mês.

Ocorrência da APLV

  • 1 a 17% das crianças menores de 3 anos possuem sintomas sugestivos;
  • 2 a 3% das crianças maiores de 3 anos apresentam o problema,
  • 0,5% dos bebês amamentados exclusivamente manifestam a doença;
  • 1% das crianças com mais de 6 anos possuem.

APLV x INTOLERÂNCIA

O que é?
  • APLV: Reação do sistema imunológico à (s) proteína (s) do leite de vaca
  • Intolerância: Dificuldade do organismo em digerir e absorver o açúcar do leite (lactose) devido à diminuição ou ausência de lactase (enzima que digere a lactose)
Em que idade é mais comum?
  • APLV: Muito mais comum em crianças, especialmente em bebês. Adultos raramente têm alergia à proteína do leite de vaca
  • Intolerância: É mais comum em adultos e idosos do que em crianças. Também pode ser uma consequência, às vezes temporária, em casos de diarreia prolongada ou doenças inflamatórias intestinais
Quais os sinais e sintomas?
  • APLV: Um ou mais dos seguintes sintomas: digestivos (vômitos, cólicas, diarreia, dor abdominal, prisão de ventre, presença de sangue nas fezes, refluxo, etc.), cutâneos (urticária, dermatite atópica de moderada a grave), respiratórios (asma, chiado no peito e rinite), reação anafilática, baixo ganho de peso e crescimento. Podem ocorrer em minutos, horas ou dias após a ingestão de leite de vaca ou derivados, de forma persistente ou repetitiva
  • Intolerância: Apenas intestinais: diarreia, cólicas, gases, distensão abdominal. Podem ocorrer em minutos ou horas após a ingestão do leite de vaca
Como é feito o diagnóstico?
  • APLV: Pelo médico. Inicia-se pela história clínica, associando os sintomas à ingestão do alimento suspeito. Alguns exames podem ajudar, mas o diagnóstico é confirmado apenas quando há remissão dos sintomas durante a dieta isenta das proteínas do leite e retorno após o Teste de Provocação Oral. Esse teste consiste em reintroduzir o leite em pequenas e progressivas doses e deve ser realizado na presença do médico
  • Intolerância: Pelo médico, por meio da observação dos sintomas associado à ingestão do alimento com lactose. Em alguns casos são solicitados exames específicos

Normalmente, alergia se dá por imaturidade imunológica do sistema intestinal dos bebês

José Vicente Spolidoro, gastroenterologista, especialista em gastropediatra e professor da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs), explica que a alergia à proteína do leite de vaca é a mais comum das alergias alimentares e ocorre nos primeiros meses de vida. "Normalmente, os bebês apresentam vômitos, diarreia, má-absorção, resultando em retardo do crescimento, e sangue nas fezes, levando à anemia", relata. "Os recém-nascidos choram intensamente, recusam o alimento e podem também manifestar problemas dermatológicos e respiratórios", complementa.
O especialista esclarece que normalmente a alergia ocorre por uma imaturidade da imunologia do sistema intestinal dos bebês. "Eles acabam não reconhecendo a proteína e provocam a formação de anticorpos, e esta formação gera os sintomas. Não existe uma tendência familiar ou genética. Prova disso é que grande parte desses quadros resolvem este problema antes do primeiro ano de vida", aponta Spolidoro. Exceto alguns casos mais específicos, a reversão do quadro de APLV não deixa sequela nenhuma nas crianças, pois são benignos que evoluem muito bem.
Questionado sobre como a medicina acompanha o surgimento dos quadros de APLV, a prevenção e os tratamentos, Spolidoro afirma que, por se tratar de uma patologia facilmente identificável e com grande número de casos resolvidos, a doença não tem um grande apelo científico. A forma preventiva mais recomendada pelos profissionais é que as crianças mamem no seio por um tempo mais prolongado. Não que essas crianças não possam desenvolver a alergia, mas a probabilidade é menor. "Este tipo de alergia não é um problema que gere a necessidade de grandes pesquisas para grandes modernidades. O conhecimento do diagnóstico com o teste de excluir a proteína do leite, observar a melhora da criança e ver se ela volta a ter os sintomas quando reexposta àquela proteína, essa é a forma de fazer o diagnóstico", resume.
 
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