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Porto Alegre, domingo, 26 de fevereiro de 2017. Atualizado às 22h11.

Jornal do Comércio

Economia

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Negócios corporativos

Notícia da edição impressa de 27/02/2017. Alterada em 26/02 às 21h22min

Efeito Lava Jato ameaça contratos da Odebrecht

Empresa está proibida de participar de licitações no Panamá, Equador e Peru

Empresa está proibida de participar de licitações no Panamá, Equador e Peru


J.F. DIORIO/AE/JC
A crescente onda de rejeição vivida pela Odebrecht no mercado internacional põe em risco contratos de quase US$ 16 bilhões em projetos conquistados nos últimos anos. Até setembro de 2016, dois terços da carteira de obras da empreiteira tinham origem em países como Venezuela, Angola e Panamá. Juntos, esses três países tinham mais obras contratadas com a empresa do que o Brasil.
Embora esteja presente no exterior desde a década de 1970, a política de expansão da Odebrecht para além das fronteiras brasileiras ganhou força nos anos 2000, com apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Bndes) à internacionalização das construtoras. Além disso, nessa época, a empresa já era reconhecida pelo alto poder financeiro e pelo know how - leia-se certificações - para construir quase todo tipo de obra, o que colocava a brasileira um degrau acima dos demais concorrentes.
Mas, com a Operação Lava Jato, as conquistas no mercado externo começam a se perder. Desde que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DoJ) divulgou os dados sobre pagamento de propina da Odebrecht em cada país, a participação, que antes era comemorada, virou foco de turbulência e preocupação. Alguns países já ameaçaram expulsar a empresa de seus territórios e cancelaram contratos bilionários, como foram os casos do Gasoduto Sul Peruano e da concessão para construir 528 km de estrada na Colômbia.
As decisões têm efeito duplo para a empreiteira e o grupo. Além de perder a concessão, que representa um contrato de longo prazo para administrar um ativo, também perde a obra, que rende bilhões de dólares de receita para a empresa. No caso do gasoduto no Peru, a construção do projeto representava 10% da carteira de obras, afirma o analista da agência de classificação de risco Fitch Ratings Alexandre Garcia. O mesmo deve ocorrer com a rodovia na Colômbia, já que a concessão garantia contrato de construção de mais de 500 km de estrada.
A revolta no exterior tem ocorrido simultaneamente à tentativa de fechamento de acordos de leniência da empresa com os ministérios públicos locais. A esperança é que, com os acordos e a definição das multas, a empresa mantenha outros contratos importantes. Até agora, há pré-contratos firmados com Panamá, República Dominicana, Peru e Colômbia. Os demais países ainda estão em fase preliminar, e há aqueles que nem têm interesse de iniciar algum processo de delação.
Por ora, a empresa está proibida de participar de novas licitações em três países: Panamá, Peru e Equador. Nada garante, no entanto, que outras nações façam embargos semelhantes. Nos EUA, embora não haja denúncia de pagamento de propina, a ação do DoJ exigiu um acordo e o estabelecimento de multa. A empresa toca obras de modernização no Aeroporto Internacional de Miami, de uma rodovia no Texas e construções na Louisiana.

Liquidez do grupo fica comprometida no exterior

A situação da Odebrecht fora do Brasil é bastante desconfortável, uma vez que a construtora tem bancado a liquidez do grupo. Segundo relatório da Fitch Ratings, entre setembro de 2015 e setembro de 2016, a empreiteira teve de fazer aporte de US$ 350 milhões na controladora por causa das dificuldades para captar recursos no mercado.
A empresa está queimando caixa e não tem conseguido repor o portfólio. Outro fato preocupante é que, além de perder contratos por causa do pagamento de propina, a qualidade da carteira tem se deteriorado. Os melhores projetos estão sendo concluídos, e o que tem ficado no portfólio está parado ou em ritmo muito lento.
A Fitch Ratings estima que 42% da carteira da Odebrecht levaria, em média, 19 anos para ser concluída considerando o ritmo atual. Há casos piores, no entanto. Na Venezuela, que detém 24% da carteira da companhia, a empresa poderia levar de 15 a 50 anos para concluir as obras - em outras palavras, isso significa redução de receita.
Alexandre Garcia, da agência de rating, afirma que, além de todos os problemas por causa do escândalo de corrupção, a empresa tem enfrentado situações adversas no exterior, que têm influenciado as obras. Uma delas é a queda no preço do petróleo, que afeta clientes importantes. "Esse fator prejudica o fluxo de obras em andamento e de novos projetos, como na Venezuela", diz o analista. Segundo ele, se o cenário não melhorar, a carteira de obras pode cair dos atuais US$ 21 bilhões para algo em torno de US$ 9 bilhões.
Em nota, a empresa afirma acreditar que conseguirá manter os contratos e estar livre para conquistar novos projetos, assim que consiga firmar acordos de leniência nos países.

Governos não querem se vincular à empreiteira pelos atos de corrupção

A atuação da Odebrecht no exterior não deverá ser fácil, mesmo após o fechamento de acordos com os ministérios locais. Na avaliação de especialistas, hoje nenhum governo quer vincular seu nome ao da empreiteira, que está no centro do maior escândalo de corrupção do Brasil.
A perda de reputação foi muito forte nos últimos meses, diz o analista da Fitch Ratings Alexandre Garcia. O problema é que esse é um fator que exige tempo para recuperar. Mas, para ele, se um país quer multar a empresa pelos erros, ele precisa dar condições para ela pagar.
Na opinião de Marcos Melo, professor do Ibmec, a empresa precisa agora adotar padrões de conduta ética. "A saída não é deixar o mercado externo e se focar no Brasil, é tentar convencer os outros países e governantes de que a empresa mudou." De qualquer forma, diz ele, o grupo vai perder mercado.
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