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Porto Alegre, quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017. Atualizado às 00h04.

Jornal do Comércio

Economia

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Notícia da edição impressa de 23/02/2017. Alterada em 22/02 às 21h25min

Opinião econômica: Falso investimento

Delfim Netto foi ministro, embaixador e deputado federal

Delfim Netto foi ministro, embaixador e deputado federal


/VALTER CAMPANATO/abr/jc
Delfim Netto
Nestes tempos da "pós-verdade" e das "verdades alternativas", as palavras assumem novos significados. Temo que um dos mais importantes seja confundir "entrada de capital externo" com "investimento".
O que é um investimento? É um ato físico em que se compra um terreno, projeta-se e constrói-se um galpão que abrigará novos bens de produção (produzidos internamente ou importados), que levará a contratação de mão de obra que será treinada para operá-lo com eficiência.
O resultado será um produto final (um automóvel, por exemplo) cujo valor adicionado (o montante dos salários e dos lucros) será um acréscimo do PIB. O investimento é um ato físico (com representação financeira) que, depois de algum tempo, aumenta a quantidade de bens e serviços de que disporá a sociedade, isto é, o seu Produto Interno Bruto.
A matriz de uma empresa americana que tomou emprestado a 1,5% de juros ao ano nos EUA e o transferiu à sua filial no Brasil, que rendeu na Bovespa, nos últimos 13 meses, 4,9% ao mês, em dólares, "investiu" no sentido próprio do termo?
A entrada de capitais estrangeiros no Brasil em janeiro de 2017 foi surpreendente: 11,5 bilhões de dólares (contra uma previsão de 9 bilhões projetada pelo BC, que elevou a estimativa anual de 70 para 75 bilhões de dólares).
Duas operações recentes, a privatização da Celg (vencida pela Enel, italiana, por 2,2 bilhões de dólares) e a aquisição do controle da CPFL (pela chinesa State Grid, por 14,2 bilhões de dólares) são, de fato, "investimento", isto é, operações que sem sombra de dúvida aumentarão a produtividade do trabalho e produzirão desenvolvimento?
Talvez, talvez... Uma boa parte é simples transferência de propriedade (que pode, ou não, aumentar a produtividade interna das empresas). O estado de Goiás vai aplicar o resultado da venda para "pagar dívidas", o que é muito bom, porque pelo menos reduzirá o desperdício da má administração das empresas. Mas seu efeito como "investimento" será, no curto prazo, mínimo.
No caso da CPFL, boa parte também será destinada a pagar dívidas dos vendedores. Talvez gerem alguns investimentos em outros setores e, mais provavelmente, a compra de um apartamento numa Trump Tower em Nova Iorque! "Investimento" mesmo, que aumenta o estoque físico de capital e a produtividade da mão de obra, talvez ocorra no futuro.
Em compensação, esses 16,4 bilhões de dólares terão de ser servidos, indefinidamente, com uma remessa de lucro (nada muito diferente de 800 milhões de dólares anuais), o que exigirá um aumento das exportações. Talvez seja melhor tratar delas com uma taxa de câmbio competitiva, relativamente estável, o que não temos feito desde 1985.
Economista, ex-deputado federal e ex-ministro da Fazenda, do Planejamento e da Agricultura
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