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Porto Alegre, quinta-feira, 09 de fevereiro de 2017. Atualizado às 20h43.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Crítica

Notícia da edição impressa de 10/02/2017. Alterada em 09/02 às 17h28min

Dois irmãos

A proposta do diretor escocês David Mackenzie em A qualquer custo revela, antes de tudo, um interesse pelas fórmulas de dois gêneros que abriram espaço para a afirmação do cinema norte-americano: o western e o policial. A universalidade de tais gêneros pode ser constatada pelo fato de realizadores estrangeiros, como Fritz Lang em O diabo feito mulher e Roman Polanski em Chinatown, para lembrar apenas estes, terem deixado sua contribuição com obras que continuam sendo capítulos importantes na evolução de tal espetáculo cinematográfico. O filme de Mackenzie, que alguns têm classificado, com razão, de western moderno, também se aproxima da narrativa policial.
A colocação em cena de uma dupla de policiais é uma clara referência, e não há dúvida alguma que o cineasta admira o Arthur Penn de Bonnie and Clyde, até por utilizar, em algumas cenas, o humor, algo que aquele cineasta fazia no clássico citado ao recuperar a irreverência, nas cenas de perseguição, das comédias protagonizadas pelos guardas da Keystone. E se o filme perde ao ser comparado com Onde os fracos não têm vez, dos Irmãos Coen, não há dúvida alguma que mistura gêneros e procura apoio em modelos repletos de sugestões a serem desenvolvidas. O filme, realizado tendo por base um roteiro de Taylor Sheridan, não se limita a ser uma coleção de referências e homenagens. A obra tem luz própria e se afirma como uma narrativa que procura colocar em cena, a partir de situações clássicas, temas que devidamente trabalhados colocam o espectador diante de uma narrativa que reflete o dilema resultante do conflito entre a lei e a rebelião.
A engenhosidade da proposta de Mackenzie e seu roteirista se manifesta na maneira como são expostas tensões numa sociedade organizada de forma a não excluir distorções. Os diálogos entre os dois policias exemplificam isso. O velho agente, interpretado com a classe de sempre por Jeff Bridges, que está em sua última missão antes da aposentadoria, não esconde o racismo, mesmo que temperado pelo humor e a simpatia. A sequências de piadas sobre a origem do acompanhante tem um contraponto vigoroso na cena em que um dos irmãos assaltantes faz uma referência maldosa a um adversário no jogo. É como se a verdade parcialmente oculta no comportamento de um integrante da outra dupla se revelasse inteiramente. Interessante também a forma como filme expõe a personalidade do irmão violento.
Ele é a agressividade em ação, desde a sequência que precede os créditos iniciais. E quando expulsa a mulher na cena do cassino ele também se revela o agente repressor e, de certa forma, um instrumento da submissão. O destino que o filme lhe reserva é o resumo da trajetória percorrida pelos dominados pela rebelião comandada pela irracionalidade. A cena da perseguição resume tal tema quando ele afasta, como um solitário combatente, as forças da sociedade ameaçada, antes da conclusão, filmada com grande habilidade.
Mackenzie se revela um diretor bem acima da média ao encenar momentos de tensão, sem excluir os aspectos humanos. Sem ingenuidade alguma, ele consegue tratar os temas de modo a não permitir qualquer forma de maniqueísmo. A sequência do encontro final do policial com o assaltante é exemplar. Não se trata apenas de uma referência ao duelo final de tantos westerns clássicos. Nada, de certa forma, é concluído e até a aparente cordialidade funciona como a maneira encontrada para tratar do tema central: a violência que, mesmo não praticada, permanece à espera do momento de explosão. Mas o filme, em seu desenrolar não poupa o espectador de cenas de intensa agressividade, como no momento em que dois delinquentes (outra vez este número) ameaçam um dos assaltantes e são surpreendidos por uma reação que não imaginavam encontrar. E há também o tema da família desfeita, setor no qual o filme poderia ser mais profundo. Mas as imagens do leito de morte da mão e o diálogo entre pai e filho são trechos admiráveis. E ao criticar ostensivamente métodos nos quais o humano é desprezado, o filme se aproxima de obras que não se recusam a olhar para os sinais de uma deterioração que deve ser exposta e combatida.
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