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Porto Alegre, domingo, 19 de fevereiro de 2017. Atualizado às 21h10.

Jornal do Comércio

Empresas & Negócios

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recursos humanos

Notícia da edição impressa de 20/02/2017. Alterada em 19/02 às 15h44min

Depressão é o que mais incapacita trabalhadores

JCOMP/FREEPIK.COM/DIVULGAÇÃO/JC
Tachada de mal do século, a depressão é responsável por retirar do mercado de trabalho milhares de profissionais todos os anos. No ano passado, 75,3 mil trabalhadores foram afastados em razão do mal, com direito a recebimento de auxílio-doença em casos episódicos ou recorrentes. Eles representaram 37,8% de todas as licenças em 2016 motivadas por transtornos mentais e comportamentais, que incluem não só a depressão, como também estresse, ansiedade, transtornos bipolares, esquizofrenia e transtornos mentais relacionados ao consumo de álcool e cocaína. No ano passado, mais de 199 mil pessoas se ausentaram do mercado e receberam benefícios relacionados a estas enfermidades, o que supera o total registrado em 2015, de 170,8 mil.
Entre 2009 e 2015 (únicos dados disponíveis), quase 97 mil pessoas foram aposentadas por invalidez em razão de transtornos mentais e comportamentais, com destaque para depressão, distúrbios de ansiedade e estresse pós-traumático. Ao todo, esses novos benefícios representam, hoje, uma conta de R$ 113,3 milhões anuais aos cofres públicos.
Para os especialistas, a situação evidencia a necessidade de colocar esse tipo de transtorno no topo da lista de preocupações para políticas públicas e de empresas. A própria Organização Mundial de Saúde (OMS) alerta que, até 2020, a depressão será a doença mais incapacitante do mundo. A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) estima que entre 20% e 25% da população tiveram, têm ou terão um quadro de depressão em algum momento da vida.
Para Leonardo Rolim, especialista em Previdência, as políticas públicas falham, pois não se preocupam em reintegrar os profissionais no ambiente de trabalho. Segundo ele, apenas 5% dos trabalhadores afastados são reabilitados no emprego. "Os números são muito grandes, e há uma falha na reabilitação. Mesmo quando volta, o trabalhador demora muito. O Estado gastaria menos reintegrando esse trabalhador do que pagando benefícios por muitos anos."
Ao longo dos seus 32 anos, Manoela Serra já conviveu com episódios depressivos várias vezes. Ela foi diagnosticada com transtorno bipolar em 2009, aos 25 anos. Isso faz com que tenha de conviver com ciclos de euforia e outros em que mergulha em depressão profunda. O primeiro episódio depressivo ocorreu quando ela tinha 15 anos.
No mercado de trabalho, pulou de emprego em emprego, sem se firmar em razão das consequências do transtorno. Além de apatia e insegurança, ela sofria fortes enxaquecas e esofagite. Em alguns dos vários empregos pelos quais passou, chegou a desenvolver síndrome do pânico. "No início, ficava animada, inspirada, acumulava turnos. É a euforia bipolar. Até um dia em que, de uma hora para a outra, vinha a depressão. Ficava incomodada, com mania de perseguição, achava que não era boa o suficiente, chorava, tinha enxaqueca. O coração disparava e eu entrava em um estado de nervos em que achava que ia morrer. A depressão é isso: uma sensação de morte", conta.
Quando a depressão começava, ela era obrigada a levar atestados para se manter afastada. Embora avalie que foi compreendida pelos patrões, quando os atestados se tornavam mais frequentes, não restava outra opção a não ser recorrer ao INSS ou pedir demissão. Nesse ciclo, ela se demitiu de empregos de garçonete, caixa, vendedora, atendente de casa de câmbio e companhia aérea. Diante da falta de uma estrutura de apoio, a alta rotatividade do profissional no mercado de trabalho é um dos efeitos da doença. Depois do diagnóstico, Manoela passou a se tratar corretamente e consegue ter um controle maior das crises, com a ajuda de medicação. Hoje, é escritora e transformou sua história em livro, O Diário Bipolar, além de dar palestras sobre o tema.
A capacidade de trabalho e todas as outras atividades do corpo ficam abaixo do normal em uma pessoa deprimida. Todas as atribuições estão para baixo: a força para desempenhar os deveres, insegurança, falta de vaidade e perda de vontade. A pessoa fica sem concentração por causa das alterações do sono. "Como trabalhar oito horas após noites seguidas de insônia? Como trabalhar com sonolência excessiva?", questiona Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria.

Ambiente profissional é apontado como gerador do transtorno

Parte dos problemas que chegam ao INSS foram desencadeados por fatores relacionados ao próprio ambiente de trabalho. De todo o pessoal afastado no ano passado por transtornos de comportamento em geral, ao menos 10,6 mil foram considerados acidentes de trabalho, ou seja, tiveram o ambiente profissional como um dos agentes desencadeadores da doença.
Para casos específicos de depressão, episódicos ou recorrentes, foram 3,4 mil auxílios por acidente de trabalho. Os números, porém, podem ser bem maiores. Parte dos especialistas destaca que há risco de subnotificação, diante da dificuldade em comprovar o papel do ambiente de trabalho na ocorrência de episódios depressivos. Mesmo assim, há profissões que são conhecidas por terem mais afastamentos e aposentadorias ligadas a transtornos dessa natureza. É o caso do mercado financeiro, dos controladores de voo, dos profissionais da área de segurança, juízes, jornalistas e médicos.
Por transtornos em decorrência de uso de psicoativos, sobretudo álcool e cocaína, foram 240 afastamentos considerados acidentes de trabalho em 2016. Outros 34,2 mil receberam o auxílio previdenciário, quando não há conexão com o ambiente de trabalho. O Ministério da Previdência não comentou o assunto. Uma das diretoras da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), Rosylane Rocha explica que a depressão é uma doença, com um componente genético, que pode ser desencadeada por uma série de fatores, como o contexto social ou um determinado evento de vida da pessoa.
Uma vez que exista a predisposição para a doença, uma carga exaustiva e recorrente de trabalho, um ambiente muito estressante ou uma situação de estresse pós-traumático, por exemplo, podem fazer com que o trabalho seja o fator responsável por desencadear o problema. É nesses casos em que os benefícios são considerados acidente de trabalho. "Esses casos ocorrem quando o médico entende que há uma contribuição relevante do ambiente de emprego para o quadro, a ponto de que, sem isso, a depressão não eclodiria", explica.

Número de afastamentos deve crescer no longo prazo, alertam especialistas em saúde

Principal recomendação é procurar o tratamento adequado
Principal recomendação é procurar o tratamento adequado
PEOPLECREATIONS/FREEPIK.COM/DIVULGAÇÃO/JC
Com o aumento do desemprego e a crise econômica, o número de atestados médicos e afastamentos por depressão e crises de ansiedade tende a crescer em médio prazo. Essa é a avaliação da diretora da Associação Nacional de Medicina do Trabalho, Rosylane Rocha. Preocupado em manter a fonte de renda em um mercado que não tem contratado na recessão, o trabalhador acaba aguentando mais pressão calado, o que aumenta as chances de saturação no futuro. Além disso, com as demissões nos últimos anos, muitos empregados tiveram que acumular funções e estão não só sujeitos a maior pressão como viram a jornada aumentar muito.
Nos últimos dois anos, os números de afastamentos arrefeceram em relação ao apresentado entre 2012 e 2014. Em 2014 eram 83,2 mil, por exemplo. Em 2015, sobretudo por causa da greve dos peritos do INSS e do aumento do desemprego, o número caiu para 63,8 mil. Em 2016, voltou a subir para 75,3 mil. "A crise vai aumentar isso. Contas penduradas, medo de desemprego, isso afeta o equilíbrio emocional. O trabalhador não conversa, não reclama", diz Rosylane.
Jornada exaustiva, ambiente insalubre, falta de pausas, divisão injusta de tarefas, não recomposição de horas trabalhadas a mais são potenciais desencadeadores de transtornos mentais e comportamentais no trabalho. Apesar de quase 200 mil auxílios-doença terem chegado até as mãos dos empregadores no ano passado por esse tipo de doença (75 mil deles por depressão), as empresas brasileiras não sabem como lidar quando um trabalhador diz estar deprimido.
Para Rosylane, a empresa deveria acender uma luz amarela no momento em que o primeiro atestado do tipo chega. O ideal, diz, é investigar se algum motivo interno, do ambiente de trabalho, pode ter causado a situação, uma forma de evitar que aquele quadro piore e, ainda, que outros funcionários passem pela mesma situação. "O empregador, o médico do trabalho da empresa tem que investigar se o trabalhador está sendo perseguido, se a jornada está exagerada, se o trabalhador está sendo acompanhado por um psiquiatra."
O presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Antônio Geraldo da Silva, ressalta que a depressão tem tratamento, o que pode permitir um retorno saudável ao emprego. O problema, segundo Silva, é que muitas vezes a pessoa deprimida não busca a ajuda correta.
O presidente da ABP reforça que a depressão tem que ser tratada com os medicamentos adequados, indicados por médicos especialistas no assunto. Segundo ele, de cada 100 pacientes com depressão, menos de 10 chegam ao psiquiatra, pois a depressão acaba sendo subdiagnosticada e tratada como outra coisa. Além disso, as pessoas não procuram um psiquiatra por puro preconceito. "Com um tratamento inadequado, com o médico errado, a doença pode se tornar crônica. Aí a pessoa não consegue mais voltar a trabalhar, não consegue mais produzir permanentemente", explica Silva.
 
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