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Porto Alegre, quinta-feira, 26 de janeiro de 2017. Atualizado às 21h15.

Jornal do Comércio

Colunas

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

Notícia da edição impressa de 27/01/2017. Alterada em 26/01 às 16h39min

Agradável surpresa

Musicais à la carte, dirigida e interpretada por Cíntia Ferrer, com direção coreográfica de Raul Voges, também em cena, e (mesmo que não mencionada) direção musical de Léo Ferlauto, que atua nos teclados, é uma excelente surpresa deste Porto Verão Alegre. Por isso mesmo, deverá cumprir exitosas temporadas no futuro.
A seleção dos 10 filmes musicais, escolhidos pela diretora, de que destacaram algumas passagens de suas trilhas sonoras, tem pontos positivos e negativos. À exceção do que abre o espetáculo, a mais recente versão de Os miseráveis, de que se escolheram duas passagens, a maioria das citações são relativamente pouco conhecidas. Isso faz com que haja menor tendência a comparações, mas certamente diminui a comunicabilidade. Por outro lado, são composições de difícil entonação, tanto no que diz respeito à melodia quanto ao ritmo e à tonalidade, e até mesmo à colocação das letras, com muitas síncopes e apócopes nos seus versos. Valorize-se, ainda, as versões em português, muito bem realizadas, a partir dos originais em inglês. Por todos esses desafios, os intérpretes passam com nota 10, o que evidencia um cuidadoso e eficiente preparo e treinamento musical, para além da questão coreográfica, a cargo de Raul Voges.
No elenco, Cíntia e Voges se destacam, ele com uma presença cênica invejável: é figura de ator de cinema inglês, com fleuma positiva, bem salientada pelo figurino que, por vezes, nos lembra o detetive Sherlock Holmes. Ela tem verve, flexibilidade, movimentação cênica e uma alegria contagiante. O elenco se completa com o hilariante Lucas Krug, que tem experiência de stand up comedy, e Fabíola Barreto, que mostra concentração e dedicação.
As escolhas musicais são variadas, mas têm em comum alguma reflexão de caráter social a respeito das dificuldades que os pobres enfrentam, numa sociedade classista e elitista. Assim ocorre com os pais que querem levar as crianças para a floresta (lembrando o conto de Joãozinho e Mariazinha), ou a citação a respeito do homem invisível, que não mais resultado de uma experiência laboratorial malsucedida, mas um modo de se relegar os pobres numa sociedade que se vê incomodada por eles. Passamos por referências indiretas a Aladim, alguma aproximação do atual panorama político-institucional brasileiro, as citações mais explícitas à esposa do ex-deputado federal Eduardo Cunha e, por fim, uma metaforização bem ao gosto do teatro brechtiano, com que se encerra o espetáculo.
Certamente o teatro pequenino que é o Arena não seria o espaço ideal para esta montagem. Por outro lado, a proximidade absoluta do elenco com o público colocou-o ainda mais à prova, porque não se permitiria nem um pequenino deslize de uma nota sequer fora do tom. E o elenco sobrepujou a todas estas dificuldades com excelência.
O espetáculo é, por isso, e como resultado final, divertido sem ser alienado; ideologizado sem ser chato. Enfim, inteligente, eficiente e criativo, mostrando performances raras em nossa cena. Integrando um projeto mais amplo e duradouro, que inclui uma escola de formação de atores cantores e bailarinos, segundo revelou a diretora e atriz, ao final do espetáculo, Musicais à la carte pode abrir um veio novo para produções teatrais musicais em nossa cidade. A disciplina e o cuidado de produção quem ficou evidente neste trabalho configura uma espécie de aval para novas produções e iniciativas.
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