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Porto Alegre, segunda-feira, 30 de janeiro de 2017. Atualizado às 13h55.

Jornal do Comércio

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

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Notícia da edição impressa de 20/01/2017. Alterada em 19/01 às 16h17min

Dois espetáculos parcialmente frustrantes

André Abujamra teria sido um pioneiro se vivesse antes de Ionesco, por exemplo. Vinculado à música, inclusive com formação erudita, ele vem experimentando, crescentemente, outras alternativas que a cena teatral lhe permite. O homem bruxa é, originalmente, um CD autoral. No Porto Verão Alegre, na semana passada, conhecemo-lo enquanto um espetáculo, eu diria, de variedades, em que o artista realiza um trabalho solo, ainda que, na verdade, o mesmo só possa ocorrer a partir de uma equipe numerosa e experimentada, variada e altamente sincronizada, que está por trás das brincadeiras sonoras, dos jogos cinematográficos e até daquela sugestão de prestidigitação com que encerra o trabalho. Abujamra, que é de família sul-rio-grandense - mais ainda, porto-alegrense -, tem sua legião de fãs.
O teatro lotou na noite de sua apresentação, e como o espetáculo de uma hora, com os bises menos solicitados do que voluntariamente ofertados, chegou a quase uma hora e quarenta de duração, a gente pode ver o quanto o público sabia de cor e curtia o repertório musical de Abujamra, que viaja entre o nonsense e a gratuidade, ao menos aparente, de composições imensas, com ritmo absolutamente variado e pouquíssima rima.
O homem bruxa foi, de certo modo, um espetáculo promocional do CD. Pode-se admirar a perfeita concatenação dos diferentes equipamentos, inclusive os instrumentos musicais e as projeções cinematográficas que o artista articula. Se nos indagarmos a respeito do que fala este trabalho, confesso que eu teria dificuldade em dizer: fala sobre tudo (sobre nada?), justapondo temas, perspectivas narrativas, sentimentos.
Para mim, que jamais assistira a uma performance do artista, foi, primeiro, curioso; depois, repetitivo; e, enfim, cansativo. Mas deve-se reconhecer que, para os fãs de Abujamra, muito provavelmente o ritmo foi o inverso, culminando na sequência de bises que evidenciaram referências conhecidas da plateia, com excelente receptividade e que, por isso mesmo, aumentou o percentual de participação da mesma, com igual amplitude de aplausos. Tive curiosidade, reconheço extraordinária capacidade criativa do artista, mas não chego a me entusiasmar. Com todo o respeito. Talvez maior com que ele tratou o fotógrafo, que, trabalhando para a própria mostra, cobria o espetáculo e foi absurdamente desrespeitado pelo artista.
Na mesma semana, fui conhecer Um hippie, um punk e um rajneesh, texto do poeta Ricardo Silvestrin, com direção de Bob Bahlis, a partir de uma música então gravada pela banda Os replicantes. A ação se passaria no Bom Fim dos anos 1980 e é uma glosa às figuras referenciais da época. No enredo, três jovens, os do título da peça, encontram-se num apartamento no qual mora um deles, que aceita dividir o espaço com os demais, para baixar custos. Os três adaptam-se razoavelmente entre si, mas as coisas se complicam quando aparecem as (ex)namoradas.
No elenco, José Henrique Ligabue e Miriã Possani deitam e rolam, repartindo espaço com Pingo Alabarce, Marcos Sigalês, Fernanda Carvalho Leite e Julia Barth. O texto de Silvestrin segue à risca a composição, mas não conseguiu resolver a contento a questão do surgimento da Aids naquela época, o que vai produzir uma retração na liberdade sexual então recém-conquistada. O texto fica pedagógico e reacionário, mais parecido com manual da secretaria da Saúde ou catecismo. Quanto ao espetáculo, Bahlis também teve problemas: a montagem carece, ainda, de ritmo.
Felizmente, neste caso, as repetições poderão ajudar a resolver e ultrapassar o problema. Quanto ao texto, acho complicado, porque há certo cheiro de preconceito de gênero, na medida em que são as meninas as aparentes culpadas pela separação primeira dos casais, ainda que sejam elas que voltem para "catequizar" os ex-namorados, alertando-os sobre os perigos da transa sem camisinha. Embora revisar o texto seja sempre difícil, não é impossível. O espetáculo, em si, é leve e divertido, precisa corrigir o foco e, de modo geral, o ritmo. A estreia valeu como ensaio.
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